Viúvas: umas alegres e outras tristes…

 Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Hoje vou lembrar primeiramente das mulheres. Depois, os homens, os viúvos e suas histórias, antes que me levem a delegacia como machista. Assunto pouco abordado em artigos e crônicas. O genial mineiro Rubem Alves, em uma de suas crônicas, resenha a vida de três viúvas que viviam juntas em uma casa. Três irmãs. ‘Casa das viúvas’, como são chamadas as casas ‘tristes’, em contraponto com as casas ‘alegres’ das ditas raparigas.

Minhas saudosas avós, paterna e materna, foram duas viúvas. Conheci a mãe de papai já viúva desde a minha infância. Contaram-me que ficou nessa condição bem jovem e mãe de sete filhos. Foi a chefe de saia da casa. Braba que só um siri dentro de uma lata. Me botava a bênção, nada de colo e carinhos de vó. Não casou-se pela segunda vez e se foi deste mundo terreno com mais de cem anos. Era o que se dizia antigamente: “Dona Maria Costa era fogo na roupa”.

Já minha avó materna, a calma dona Francisquinha Medeiros ficou viúva quando eu tinha sete anos de idade. Depois disso, nunca mais a vi em festas, risadas ou com roupas coloridas. Como se dizia no passado, ficou o resto de sua vida uma – “Viúva de luto fechado”.

Minha mãe, depois de cinquenta e quatro anos de casada, ficou viúva. Por mais quatro anos em que viveu nesse mundão, não voltou a sua alegria de antes. Ela sempre me dizia em suas conversas que jamais criaria seus sete filhos com um padrasto. Até criticava aquelas que se casavam novamente “antes do corpo do finado esfriar…”. Nenhuma das minhas tias maternas que ficaram viúvas voltaram a novos casamentos. Os rigores e preconceitos morais do passado não admitiam. Os filhos também não queriam um novo ‘pai’ em casa, além de problemas nas heranças: ‘quem não juntou, espalha tudo ligeirinho’…

Já li muitas histórias de viúvas em livros de contos e romances. O criativo baiano teatrólogo Dias Gomes foi o inventor da famosa personagem, ‘Viúva Porcina’. A viúva em velório de marido que vi mais chorar e desmaiar, chegando a quase cair na cova junto ao marido morto, depois de quinze dias, já estava no maior carnaval do mundo com um novo marido.

No sertão nordestino não se perdoa os extremos: “Muita farofa é sinal de pouca carne!”. E muito ‘esperniado’ e ‘patim’ é sinal de muita ‘alegria’ escondida. O povo vê de longe a falsidade dos ditos sonsos e sonsas. Existem também as chamadas popularmente de ‘viúvas negras’, por se casarem depois das mortes de seus segundos maridos. Dizem as maldosas línguas que as que ficam com vultosas heranças casam logo, já as que ficam com muitas dívidas, não encontram novos pretendentes.

O romancista baiano, Jorge Amado, não perdeu tempo em suas histórias e escreveu um grandioso sucesso literário, com o seu ‘Dona Flor e seus dois maridos’. No adagiário do folclorista cearense Leonardo Mota há uma parte dedicada só as viúvas. Na maioria, zombarias da boca do povo e ainda histórias, lendas e causos. Em minhas andanças, já ouvi inúmeros e engraçados causos. O boêmio Orlando de Manoel de Juvenal, da região de Pendências/RN, com o riso a flor da pele, contou-me que presenciara um velório a noite toda e vira a dita velha viúva chorando e comendo até a hora do caixão do finado ser levado de casa para o cemitério. Haja choro e pedido de bolachas com café, chá com biscoitos, cuscuz com peixe frito, carne assada com batata doce. A pobre da cozinheira comeu fogo na beirada do fogão de lenha. A tal viúva quase também morre como peixe, pela boca. Empanzinada com tanta misturada. Segundo o citado finado humorista, foi a viúva mais comilona e chorona do mundo já vista em toda aquela região.

Certo tempo passado, fui a um velório de um amigo e lá chegando me deparei com suas três viúvas. Chorando todas elas e diga-se, sem herança para dividirem. Até pensei em escrever algo sobre ‘seu’ Flor e suas três esposas…

Contaram-me em uma certa cidade em que eu estive que outra viúva muito contrita e chorosa, quando viu o primeiro visitante em sua casa, ofereceu-lhe um café já pensando em um novo namorico. Na falta de lenha para o fogão, teria ordenado a sua empregada quebrar a moldura grossa de madeira, a qual abrigava a fotografia do finado querido marido: “Pode queimar tudo, agora estou vendo que ele não volta mesmo!”. No sertão, ninguém resiste a um café bem forte e uma boa prosa de viajante. Desse café passado no pano e colocado em bule, a tal viúva teria parido sete filhos do galã e caixeiro viajante!

Mas a melhor história trágica e, ao mesmo tempo cômica, me foi contada por uma querida amiga cearense, que só me contou depois de meu juramento de que jamais iria revelar os nomes dos envolvidos e nem da cidade. Sou dos poucos que contam os ‘milagres’ sem revelar os nomes dos ‘santos’. Pois bem, vamos a história da viúva cearense, a qual estava fazendo ‘quarto’ ao lado do caixão de seu amado marido e pai de seus filhos. Chorona e vestida dos pés à cabeça de preto.

De repente, eis que entra em sua casa, uma mulher mais jovem, segurando as mãos de um casal de crianças, todos chorando e vestidos de preto. O dito menino que chegava nem precisava de tomar a benção ao defunto. Era a cara desse “cagado e cuspido”. Então, a viúva oficial, com casamento no padre e cartório, observando aquela cena, logo soube que seu marido tinha outra casa, mulher e filhos não muito distante dali. Coisa de mais de cinco anos de convivência e dois filhos. A viúva levantou-se do tamborete e, num rompante, ordenou aos gritos a outra mulher de seu marido: “Pode levar esse cachorro pra enterrar na sua cidade. Aproveite também para levar os molambos dele daqui. Não quero um retrato sequer dele aqui nas paredes. Eu e meus filhos não vamos a cemitério algum hoje e nem nunca na cova desse safado. Leve ligeiro esse infeliz das costas oca, pelo amor de Deus!

Caixão fechado às pressas, a viúva despachou todo mundo da casa. Correu para seu quarto, voltou de batom e vestida de encarnado, da cor berrante de seu pastoril. Botou um disco bem animado de Genival Lacerda que coincidentemente ironizava o momento: “Mate o véio, Mate o véio...”. Começou a dançar alegremente sob os protestos dos filhos e do padre que ia chegando para a encomendação do corpo: Vamos dançar, minha gente. Hoje é dia de festejar minha nova vida, sem traições e sem cachorradas. O diabo que leve aquele nojento pro seus ‘quintos dos infernos’! O defunto já tinha saído e o padre só fez o sinal da cruz em retirada para sua pacata igrejinha: “Benzadeus!”.

Ouço sempre quando saio de casa de que só não existe jeito para a morte! A vida tem dessas e outras histórias, minha gente. Coisas que escaparam de Nelson Rodrigues, mas caiem mesmo sem eu querer… Dizem que quem escreve aumenta aqui e acolá o fio da meada. Ao contrário, não nasci para aumentar nem meu patrimônio, nem muito menos inventar nada. Só sei que amanhã vou receber vários pedidos suplicantes de muitos leitores e leitoras curiosos: quem foi aquela viúva? Qual a cidade em que ela morava? Como era o nome do finado? Morreu de quê? Quando foi isso? Já disse que foi numa cidade do Estado do Ceará, do meu ‘padinho Ciço’. Mais nada, viu!

Assunto encerrado. Prego batido e ponta virada. Nem que a vaca de seu João, meu vizinho, tussa com Covid!

                            Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN

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3 Comentários

  • Sandemberg Oliveira disse:

    Muito boa essa história, Gutemberg! Coisas do nordeste, pois se há safadeza, então a tristeza vai embora e tudo se transforma em festa. Lembrei do velório da Marqueza de Fátimo, do escritor, Junior Dalberto… só naose trata de uma viúva, mas de um velório que virou farra.

  • Elizabeth Sobreira Sales disse:

    Fantástico! Muito elucidativo, já que na nossa terá de nordestinos esse é o pau que mais tem!… Pesem numa verdade!!!

  • Santiago disse:

    Ótima matéria desses causos. Dentre os quais cita verdades das viúvas de antigamente.

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