Um amigo solidário e alegre: Machadinho

Gutenberg Costa e Machadinho – Foto: Arquivo Gutenberg

                 

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Os meus amigos mais chegados já sabem que eu não gosto de hospitais e velórios. Falo sempre de bem e de minha gratidão aos poucos que me fizeram-me o bem, nas horas mais tristes de meu passado. Alguns já se foram e outros como eu, felizmente estão por aqui e ainda fazem verdadeiros gestos de irmandade. Digo que são irmãos e irmãs, os quais a dona Maria Estela não pariu. Tem muito mais do que meu sangue. Me adotaram com carinho e lhes sou muito grato. Não importam suas crenças e ideologias. Amigos são amigos! São santos e santas no meu antigo oratório de minha sala. Ai de quem vier ataca-los pela covardia em minha casa. Fizeram e fazem parte de minha vida, sem interesses e influências. Chegam com suas histórias e risadas e saem, com livros, nada mais! Digo sempre aos meus netos, que tenho muito orgulho de minhas antigas amizades…

Os ingratos não entravam na casa de minha mãe, como também não tomam café em minhas xícaras. Meus elogios, são em vida e gosto de visitá-los em suas moradas e em suas festas. Sempre os relembro, como seres especiais alegres e solidários, desde o meu tempo das grandes secas ou poucas invernadas. O que teria sido mim, sem esses padrinhos e madrinhas, que resolveram me dar ‘empurrões’ na escalada da vida do pobre menino da feira do Alecrim? Eu sem parentes importantes e sem dinheiro algum no finado BANDERN…

Hoje, muito abalado emocionalmente, vou falar pouco de um desses, que merecia um longo texto de gratidão. Mas, sei que ele me pediu esquecimento de suas ajudas: “Vamos mudar de prosa alemão…”.

Dia 26 de maio agora, encantou-se o ‘velho’ amigo jornalista, pesquisador e escritor João Batista Machado, o nosso estimado ‘Machadinho’, o qual conheci apresentado pelo seu conterrâneo e meu saudoso compadre de fogueira Celso da Silveira, em Natal, no início dos anos 80, da agitada política do RN. Dois grandes amigos e solidários durante alguns apertos de minha vida. Eles, constantemente, viveram ‘tramando’ o bem para os outros do rol de suas amizades. Em 1983, fui convocado por Machadinho para encontrá-lo em seu gabinete, na Assessoria de Imprensa, do então governador eleito, José Agripino. Conversa rápida e lembro de seu assombro com o valor que eu recebia, vendo o meu contracheque mensal na época: “‘Lucí’, ligue urgente para o Josemá Azevedo”. Naquela hora, desbancando toda a burocracia, eu já estava lotado em ‘sua’  recém assessoria. Ia ler diariamente os jornais de fora do Estado, com direito a levar para casa os encartes culturais e históricos, que saiam aos domingos: “Aqui você não vai carimbar nada. Vá ler e pesquisar à vontade. A prisão trabalhista acabou enquanto eu estiver aqui…”. Tudo era amizade e humor com Machadinho. Mais pai e irmão, do que chefe…

Machadinho ao lado de sua esposa, a jornalista Salésia Dantas
Foto: Blog Versos e Diversos

Com sua mania humorística de apelidar carinhosamente os seus agregados, eu passava a ser convocado a sua presença, com dois nomes do batismo machadiano: ‘O Homem da Imprensa’ ou ‘O Alemão’, alusão ao meu verdadeiro nome da pia batismal da Igreja de São Pedro do Alecrim. Era um exímio caricato verbal associando os nomes dos amigos a outros já famosos. Uma arte divina, só dele. Ninguém reclamava dos novos batismos, daquele xará do João Batista, que batizara o Jesus de Nazaré.

Machadinho – Foto: Gustavo Sobral

Chamava o amigo locutor Samuel Fernandes de, ‘Samuel Wainer’. O fotógrafo Ferreira, de ‘Ferreira Itajubá’. Enfim, todo mundo devidamente batizado e protegido por aquele que tinha o coração maior do que a sua querida e amada cidade do Assu. Não podia saber que alguém ali estivesse em situações aflitivas, de saúde ou de bolso. Chamava, sem alarde e ajudava em total sigilo. Ficava alegre ou triste, com os que estavam ao seu redor. Quando publiquei meus primeiros livros, dele só obtive incentivos e apoios. Não gostava de meus agradecimentos públicos aos seus gestos fraternos. Antes de ajudar alguém, pedia logo o segredo total de estado…

Fui, acho, a quase todos os lançamentos de seus livros, como ele aos meus. Quando soube que eu estava organizando os saudosos bailes a fantasia no Clube do Rádio Amador, juntamente com o incansável Temístocles, reservava previamente uma grande mesa para seus familiares. Lá, chegava sorridente ao lado de sua Salésia Dantas. Ela elegantemente vestida de Carmem Miranda e muito mais foliã do que o marido. Era a mesa mais animada e alegre do referido baile momesco. Estão guardadas aqui no meu baú as dezenas de fotografias desses momentos. Relíquias que guardarei como boas lembranças das alegrias carnavalescas.

Antigos Carnavais – Foto: Canindé Soares

Li recentemente alguns escritos sobre o amigo Machadinho, do seu conterrâneo jornalista Wellington Medeiros, destacando seu grande trabalho de pesquisa da nossa memória política dos anos 30 até a atualidade. Obras sem ataques e paixões. Diz o sincero amigo Wellington, entre outras verdades: “… Perde o RN – especialmente o Assu – um grande filho. E, nós, jornalistas, um grande colega, amigo, benfeitor solidário, especialmente nos momentos de incertezas”. Já o amigo jornalista Flamínio Oliveira, meu ‘antigo’ colega de trabalho, enviou-me sua frase realista e, ao mesmo tempo, amiga dos velhos tempos saudosos: “Machado era a unanimidade positiva no meio das divergências”.

Não terá livro que reúna em uma antologia o seu lado humano e fraternal aos que foram por ele ajudados, seja de uma maneira ou outra. Suas ‘tramas do bem’, como dizia e fazia o mestre Câmara Cascudo. Machadinho foi daqueles que temos o grande privilégio de chamá-lo um ‘amigo irmão’. Nunca o vi falando mal de ninguém e, muito menos, juntando desafetos em seu caminho. Veio ao mundo para dar risadas estridentes e congregar as amizades em torno de uma grande mesa, na qual a fartura e o bom humor eram aliados da sua solidariedade, tão rara nos dias atuais. Dividiu a sua alegria e o seu pão como um bom religioso. Foi além de um franciscano, sem vaidades e disputas. Em nossos encontros, ele me pedia para não agradecê-lo, mas não tinha jeito, já que dona Estela, ensinou-me ser grato, desde seus acalantos noturnos: “Xô xô pavão da ingratidão…”.

E por hoje, meus leitores e leitoras, aviso que poucos serão lembrados no futuro assim por mim, com tantas saudades e gratidões juntas! 

                       Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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