SOLIDÃO: A doença do Século

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

Estado de quem se acha ou vive só – é desta forma que a palavra solidão é definida no Dicionário Aurélio. Para mim, solidão é mais do que viver ou estar só: solidão é um estilo de vida. Mas isto que não quer dizer que alguém vive na solidão por livre e espontânea vontade. Afinal, quem é que pode gostar de viver isolado, sem ter com quem conversar, contar piadas ou fofocar sobre cultura inútil? Acredito que as pessoas são solitárias por força das circunstâncias, não por escolha.

Ser solitário é como dirigir num dia de domingo em cidade do interior, quando temos as ruas e avenidas desertas e o silêncio é quebrado apenas pelo barulho do motor do seu próprio carro. É como estar no meio de um bloco de Carnaval entre alegres foliões e sentir falta de uma única pessoa que insiste em viver dentro do seu pensamento e do seu coração.

Solidão é sentar-se à mesa de um bar diante da praia e ter que tomar sozinho uma garrafa de cerveja ou de vinho, ouvindo a sinfonia que o mar toca exclusivamente para você. É acordar no meio da noite com medo de um pesadelo e não ter ninguém a seu lado para dizer: calma, foi apenas um sonho ruim! É não ter quem cante parabéns para você no dia do seu aniversário. É passar os fins de semana esperando o telefone tocar, enquanto ele teima em permanecer mudo. É ouvir o barulho ensurdecedor feito pelos ponteiros do relógio, enquanto as horas passam demasiadamente lentas.

É fazer o que bem entender sem ter a quem prestar contas, a não ser à sua própria consciência. É poder assaltar a geladeira a qualquer hora e deixar pratos sujos na pia sem ter que ouvir reclamação. É não ter a quem mostrar as fotos daquela viagem maravilhosa, ou fazer foto de todo mundo e não ter quem faça fotos de você. É não ter para quem telefonar no meio do caminho para dizer que a viagem está sendo ótima.

Solidão é não ter a quem dizer boa noite antes de dormir e bom dia ao acordar. É ter que lembrar sozinho, a hora de acordar e de tomar remédios. É ligar o som bem alto e ter a certeza de que não vai incomodar a ninguém. É comer fora de hora recusando as verduras e os legumes e ninguém se importar com isso. É abrir a caixa do correio e encontrar somente extratos bancários e contas a pagar. É verificar que você só retira um prato, da mesa do almoço ou do jantar.

É assistir sozinho aos jogos da copa, torcer sozinho pela Seleção Brasileira, xingar a mãe do juiz, dizer palavrão sem ter a preocupação de ofender a outrem, afinal você está sozinho mesmo. O pior é na hora do gol, porque você vai fazer o brinde com você mesmo.

Segundo a filósofa Hannah Arendt, “o homem sozinho, excluído da teia de relações humanas, fica despido da própria dignidade humana, justamente porque nada do que ele faça ou deixe de fazer terá importância”.

A liberdade à qual o homem é condenado, segundo Jean-Paul Sartre, aproxima-o da solidão. Para ele, a liberdade é a nossa única alternativa, uma vez que somos obrigados a agir de acordo com nossa condição de seres livres. Dentre todas as escolhas que podemos fazer, não há como escolher não ser livre. O homem, portanto, é o único responsável por aquilo que ele é. “Se você sente solidão quando a sós, está em má companhia.”

Jean-Paul Sartre

Para Arthur Schopenhauer, “quanto mais elevada for a posição de uma pessoa na escala hierárquica da natureza, tanto mais solitária será”. Para ele, se a solidão física corresponder à solidão intelectual esta será benéfica para a pessoa.  

A solidão é palavra recorrente nos poemas de Clarice Lispector, Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Florbela Espanca, entre outros. Eu, porém, quero a solidão física bem longe de mim, embora sabendo que esta é uma doença que acomete a todos neste século. Porém, se não houver remédio e se for para curtir solidão, que seja a solidão intelectual.

1 Pessoa comentou
Carlos Soares

Parabéns amiga. Belo artigo.

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