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junho 12, 2024

O Clericalismo e a Homoafetividade na Igreja

Pe.

Pe. Matias Soares - Pároco da paróquia de S. Afonso Maria de Ligório Natal-RN

Nos últimos dias, a mídia ocidental, a partir da italiana, tem colocado o Papa Francisco em situações controvertidas em relação a algumas ponderações feitas por ele sobre os cuidados que os seminários – casas de formação para os futuros presbíteros – precisam ter para a aceitação de candidatos ao exercício do ministério ordenado na Igreja. Sem dúvida, as observações do Pontífice foram postas num contexto e, a partir deste, deveriam ser interpretadas. Contudo, é notório e reconhecido na maior parte das publicações, principalmente com a ‘liberdade de impressa’ dos milhares de ‘comunicadores pós-modernos’, não ser assim que acontece.

Aqui começo deixando patente que o ‘anarquismo hermenêutico’ está presente em todas as camadas sociais, justamente pela forma avassaladora e, muitas vezes, irresponsável de quem está do outro lado da tela com suas ferramentas midiáticas. Nesse processo caótico e hipermoderno de narrativas abusivas e polêmicas, cabe para todos o chamado à racionalidade coerente e atenta aos sinais dos tempos, que podem não ser sombrios e negativistas se ensejarmos a possibilidade de apresentação de pensamentos positivos, com a firme convicção de respeito e favorecimento da dignidade de todos.

Começo desenvolvimento da minha reflexão, fazendo menção ao que a Igreja ensina no seu Catecismo, ou seja, no que é tido como seu ordenamento doutrinal e moral, sobre a ‘pessoa do homossexual’. Afirma o compêndio: “eles(as) devem – os homoafetivos – ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.

As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã” (cf. CIC, 2358-59). Com honestidade intelectual e evangélica, as prerrogativas do ensinamento da Igreja atendem ao que faz parte do seu ordenamento doutrinal e que tem ressonâncias nos demais elementos que sistematizam os seus vínculos sacramentais, como por exemplo o seu pensamento sobre o matrimonio.

É preciso tornar a reafirmar que não existe intenção de negar o que cada pessoa homoafetiva, dentro do ambiente civil e social pode e deve buscar como direitos e garantias fundamentais. O que é almejado nesta reflexão é deixar patente que a Igreja, dentro das suas preocupações e orientações para quem quer vir a ser ministro ordenado, precisa seguir com sua orientação institucional. Ninguém é obrigado a ser ministro ordenado. Quem almeja esse modo de vida, é livremente orientado a seguir determinados requisitos.

A ação comunicativa da Igreja não pretende, como está posto tão ferozmente, negar o que as demais instituições podem reconhecer do ponto de vista social e legal. O que o Papa Francisco diz faz parte do que o legítimo magistério da Igreja ensina, sem querer determinar o que é próprio das demais instituições. O documento da ‘Congregação para o Clero’, que trata dos fundamentos da formação dos presbíteros e seminaristas, já assevera o que o Pontífice, reservadamente, reiterou em reuniões com bispos e sacerdotes italianos. Sobre as pessoas homoafetivas, assim é afirmado no texto:

“Em relação às pessoas com tendências homossexuais que se aproximam dos Seminários, ou que descobrem tal situação no decurso da formação, em coerência com o próprio Magistério, ‘a Igreja, embora respeitando profundamente as pessoas em questão, não pode admitir ao Seminário e às Ordens Sagradas aqueles que praticam a homossexualidade, apresentam tendências homossexuais profundamente radicadas ou apoiam a chamada cultura gay.

Estas pessoas encontram-se, de fato, numa situação que constitui um grave obstáculo a um correto relacionamento com homens e mulheres. De modo algum, se hão de descuidar as consequências negativas que podem derivar da Ordenação de pessoas com tendências homossexuais profundamente radicadas. [...] no caso de se tratar de tendências homossexuais que sejam apenas expressão de um problema transitório como, por exemplo, o de uma adolescência ainda não completada, elas devem estar claramente superadas, pelo menos três anos antes da Ordenação diaconal. Além disso, deve recordar-se que, numa relação de diálogo sincero e de recíproca confiança, o seminarista é chamado a manifestar aos formadores – ao Bispo, ao Reitor, ao Diretor Espiritual e aos outros educadores – eventuais dúvidas ou dificuldades neste âmbito.

Em tal contexto, ‘se um candidato pratica a homossexualidade ou apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas, o seu diretor espiritual, bem como o seu confessor, tem o dever, em consciência, de o dissuadir de prosseguir para a Ordenação’. Em todo caso, ‘seria gravemente desonesto que um candidato ocultasse a própria homossexualidade para aceder, não obstante tudo, à Ordenação. Um procedimento tão inautêntico não corresponde ao espírito de verdade, de lealdade e de disponibilidade que deve caracterizar a personalidade daquele que se sente chamado a servir Cristo e a sua Igreja no ministério sacerdotal” (cf. Ratio Fundamentalis, 199-200).

            Mesmo considerando outros elementos, consciente de que o que é ponderado em hipótese alguma almeja esgotar a questão, os que aqui apresento para aprofundamentos, precisam ser enfrentados pela própria Igreja como demandas relacionadas com esta. Assim, externo três percepções que, penso eu, tornaram a homoafetividade uma ‘cultura’ – linguagens e comportamentos – existente em algumas casas de formação da Igreja Católica, como a sociedade insiste em pensar e expor pelas mídias digitais. São eles:

1 - Cristianismo e sexualidade: Desde o século IV, quando a Igreja assume sistematicamente os pressupostos da filosofia neoplatônica, com sua visão pessimista acerca do corpo como cárcere da alma, como algo ser combatido com suas pulsões, dentre elas as da sexualidade, com Santo Agostinho, colocando como finalidade precípua da vida sexual no matrimonio a da procriação, que por sua vez perdurou até a Casti Connubii (cf. PP. Pio XI), permanece em muitas mentes e movimentos eclesiais, um olhar de desconfiança para sexualidade, que é um dom concedido por Deus a todos os seres humanos para que percebam a beleza do Outro que me completa e com quem sou chamado a viver a profundidade da comunhão e do amor. O Papa Bento XVI tratou do significado sublime do Eros na existência humana e cristã na sua densa e preciosa carta “Deus caritas est” (cf. PP. Bento XVI, 3-8).  Já escrevi que em outro ‘artigo de opinião’ que o cristianismo precisa dessa reconciliação com a sexualidade. Ainda tratamos pouco da temática, justamente por este ‘tabu’ que tomou conta da nossa moralidade eclesiástica, ainda mais depois do Concílio de Trento (1545-1563), quando a abordagem saiu das construções da teologia epocal para as ambiências dos ‘confessionários’ (cf. M. Foucault. “História da Sexualidade”, vol. 3, pág: 166-186). O olhar das casas de formação e presbitérios, tomando a consistente e equilibrada teologia do corpo (cf. PP. J. Paulo II) e o mais recente magistério eclesiástico, precisa assumir com responsabilidade e liberdade essa tarefa já posta nos ensinamentos da Igreja sobre o tema da integração da sexualidade em todo processo vital dos eclesiásticos.

2 - Clericalismo: o Papa Francisco tem denunciado o que esse estilo de vida eclesial trás de consequências para o bem estar de todos os sujeitos eclesiais. Mais uma vez tomando o séc. IV (Teodósio-381), quando o cristianismo é reconhecido como religião oficial do estado, que a vida da Igreja estará centrada nas ações dos ministros ordenados. É deixada a perspectiva da missão como movimento continuado e carismático da Igreja, assumida por todos os que têm carismas diferenciados (cf. 1Cor 12-14), para que o clericalismo assuma as estruturas piramidais das comunidades. Com os solavancos causados pela Reforma Protestante, esses mecanismos serão fortalecidos, como uma via de contrapartida para a confirmação da teologia centrada nos sacramentos. Com sua importância para aquele contexto, a própria Igreja demorou em reformular essa via hierárquica, só tomando consciência com o Concílio Vaticano II (1962-65). A ideia de Igreja como “Povo de Deus” será a grande reviravolta eclesiológica deste maravilhoso acontecimento eclesial (cf. Lumen Gentium, cap. II). As suas prerrogativas ainda não foram recepcionadas e assumidas em sua plenitude; aliás, há um movimento ‘retrópico’ que tem causado interpretações injustas e desonestas dos seus objetivos e, assim, pecando contra o seu Espírito, causam divisões e crises ideológicas dentro da catolicidade. Nos modos de pensar e agir de muitos eclesiásticos, ainda está presente a ‘mentalidade de príncipes’. Os variados fenômenos estéticos e comportamentais têm testificado essas concepções traidoras dos movimentos da história. 

3 – Celibato sacerdotal: nesse item, quero antes de tudo deixar o testemunho de que o celibato sacerdotal é dom para aqueles que cotidianamente assumem o propósito de viver integralmente e com profunda liberdade de opção o serviço ao Povo de Deus. A vivência do celibato é uma conquista diária. É um sim dado ao seu ministério sacerdotal assumido por convicção, dia após dia. Não é uma fuga do mundo. Ninguém assume o celibato porque não tem outras opções de vida. O celibato vivido por amor à vocação é um dom e tem um significado. Depois de vinte anos de vida sacerdotal, acredito na experiência, não porque tenha sido ‘castrado para o amor e os afetos’. Não! Assim como na vida matrimonial existem formas diferentes de amar em cada fase da vida, no ministério ordenado também aprendemos amar de formas diversas em cada fase da nossa história de Padres. Podemos cair, mas podemos olhar para frente e ver como as opções feitas no dia da ordenação, não renegam o sentido sublime da vida conjugal. Aliás, quanto mais somos padres, mais lutamos para que os casais sejam felizes e percebam o sentido da vida matrimonial. Infelizmente, o fato do carisma – disciplina – do celibato ter sido apropriado por quem viu nas estruturas eclesiásticas, com a negação da sexualidade e com a construção do clericalismo, como já descrevi anteriormente, tem feito com que alguns busquem nos seminários e presbitérios um refúgio para viverem de modo furtivo um modo de vida, que ainda não é acolhido pela sociedade massivamente e para obter um status, que é conferido a quem é ordenado e vive nas sombras da credibilidade da Igreja. O importante é ressaltar e não pode ser olvidado que esta legitimidade foi adquirida a duras penas pelos santos e mártires que nos precederam. Acompanhamos frequentemente muitos episódios que mancham o testemunho da maioria. Por isso, o aprofundamento sobre o sentido do celibato sacerdotal tem que ser buscado em nossas estruturas e quem não tem clareza do seu valor pode e deve ser orientado a rever suas escolhas e as motivações que o fazem almejar uma vida de serviço e doação ao Povo de Deus. Afirmo que o celibato em si é um dom. Uma pessoa com tendência homoafetiva pode ser sacerdote sim, já que essa integração da sexualidade ao modo de vida é para todos. Mas, o que é necessário é a compreensão que cada um tem dele na vida ministerial e se o mesmo servirá de mecanismo de fuga para alguns que não atendem aos critérios apresentados pela Igreja para o reconhecimento da ordenação.

Enfim, apresento esses pensamentos com muito respeito a todos. Todos são filhos e filhas de Deus. Tenho fé e testifico a minha preocupação de deixar claro que o Papa Francisco só ensina, internamente, o que é próprio da sua missão de chefe supremo da Igreja. Os lobbies que existem nos vários ordenamentos e ideologias fazem de fato com que a nossas discussões, nem sempre, sejam dirigidas por uma racionalidade que acolhe as muitas ‘subjetividades’.

Não tenhamos medo das nossas verdades. Se temos convicções do que somos, a nossa vida segue. As violências e cancelamentos recíprocos dizem mais de nós mesmos do que dos outros. A Igreja está no mundo, sujeita às intempéries da sua humanidade. A sua força está no Evangelho. Ele é a Boa Notícia de Jesus Cristo para a salvação de todos. Isso é o que importa. A nossa felicidade acontece e, sem dúvida, estaremos abertos à verdade do Outro se formos capazes de sermos fiéis ao que o nosso Mestre e Senhor nos ensina com suas bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12). Que a nossa vida seja livre e marcada por quem somos na nossa relação com Deus e com os demais irmãos e irmãs. Assim o seja!

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