Minha semana Santa na infância e adolescência

Pesquisador Gutenberg Costa relembrando seu passado

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor, Ambientalista e Folclorista

Tudo era quase proibido por ordens severas de minha saudosa e inesquecível dona Maria Estela. Começava na quarta feira de trevas, sem muitos banhos e cheiros. Podia ficar entrevado. Na quinta feira e sexta, nada de músicas no velho rádio que esquentava, para depois começar a funcionar. Nada de doces e muita fartura.

Era recomendado o jejum e orações. A liberdade vinha depois da meia noite da sexta para o sábado. Minha mãe precavida com as estripulias dos filhos, prendia suas galinhas no banheiro. Ficavam bem pastoradas. Só quando eu estava em Pendências, é que aconteciam as serrações dos velhos.

Uma noite vi meu velho e querido tio Maneco, sendo serrado por um grupo. Tio Maneco os afugentou de sua porta com sua inseparável espingarda e palavrões, os traquinos de então.

Os Judas eram feitos de roupas velhas, com direito a testamentos humorísticos. Em Natal, papai, Geraldo Costa, me ajudava com suas roupas mais velhas. Eu fazia o Judas, com ajuda de meus irmãos para ficar expostos pendurados em postes da rua da feira do Alecrim. O pobre Judas era queimado e sofria todo tipo de gozações juvenis. Era diversão perigosa, roubar os que eram feitos pelos vizinhos.

A canção popular mais entoada pela meninada, ainda não me saiu da memória: Aleluia, Aleluia, carne no prato, feijão na cuia! Desse modo, a alegria voltava a reinar entre as crianças e adolescentes, que antes, estavam proibidos de comer carne, dançar e cantar nas calçadas. As galinhas que escapavam, voltavam livremente aos terreiros. Pedia se perdão pelas travessuras cometidas e a vida continuava… lembranças, que estão arraigadas nas nossas memórias.

Tradições que não desaparecem tão fáceis diante da modernidade e tecnologias do século XXI. Tempos de pandemia e tristezas diárias. Viva o nosso folclore potiguar no centenário de nascimento de Verissimo de Melo do nosso saudoso folclorista Veríssimo de Melo(1921- 2021). Nísia Floresta/RN.

1 Pessoa comentou
Anchieta Medeiros

Realmente, quantas saudades desses bons tempos. Parabéns pela lembrança de coisas boas.

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