MARCAS QUE MARCAM

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

Durante muito tempo da minha vida ouvi as pessoas dizerem que existem duas coisas que marcam de forma inesquecível, um fato, um momento ou um acontecimento em nossas vidas: Música e perfume. Lembro-me que durante a minha adolescência havia um comercial de perfume na TV, que fazia muito sucesso. O comercial anunciava uma colônia masculina chamada Rastro. O vidro caía e o líquido escorria, enquanto um homem de voz grave dizia: Um vidro de Rastro que se acaba é como um amor que vai embora. O comercial era bonito e marcante.

Hoje, adulta e convivendo com as cicatrizes deixadas pela vida, vejo que de fato, as músicas assim como os perfumes são inesquecíveis na vida das pessoas. Aquele que discordar de tal afirmação, que atire a primeira pedra.

Ao longo da minha vida conservo na minha memória olfativa, alguns cheiros que me remetem de volta à infância, por exemplo. É impossível esquecer o cheiro do café preparado por minha avó, cujo sabor só tive o prazer de degustar quando contava com mais de 20 anos. Criança, na casa da minha avó, não tomava café. Para ela, café não era bebida adequada para criança, porque atrasava os estudos. E ninguém jamais ousou questionar tal afirmação.

Vovó costumava comprar o café em grãos, que ela torrava, pilava e depois servia. O cheiro do café sendo torrado, vive até hoje impregnado nas minhas narinas, trazendo saudade da minha infância vivida com o carinho e cuidados da minha avó.

Outro cheiro inesquecível para mim está relacionado ao perfume usado pelo meu primeiro namorado. Impossível esquecer o cheiro que por longo tempo ficou grudado no meu nariz, assim como o cheiro da sua farda de Soldado Naval, no dia em que ele partiu para nunca mais voltar, ao som de uma música muito tocada na época da Jovem Guarda e que ficou marcada como a nossa trilha sonora: Adeus Ingrata.

Acho incrível a forma como os odores, sabores e as músicas marcam a nossa vida e passam a fazer parte da nossa história. Sendo filha de músico tive o privilégio de viver em uma família profundamente musical. Meu pai tocava trombone, meu avô pífano e um dos meus tios tocava violão. Aos domingos minha casa vivia em festa, porque além da família, ainda havia os amigos que vinham tocar e a festa estava garantida.

Meus tios, assim como meus avós, passavam o dia cantarolando as músicas de sucesso da época de ouro do rádio, de forma que minha vida era embalada por uma variada trilha musical. Lembro com profunda saudade das músicas de Moacir Franco, que meu tio Ademar Lira gostava de cantar enquanto tomava banho ou fazia a barba.

Foi através do gosto musical da minha família, que aprendi a aprimorar o meu. Afinal, cresci ouvindo o que havia de melhor em termos musicais. Minha adolescência foi embalada pelas melodias dos artistas da Jovem Guarda e Bossa Nova, seguida pela Tropicália e Novos Baianos. Pensar que a juventude de hoje perde tempo ouvindo Funk estilo musical pornográfico, em sua maioria – é uma tortura.

A trilha sonora da minha vida é composta por músicas tocadas pela Orquestra Municipal de João Câmara, da qual meu pai era integrante e que animava as festas no Baixa-Verde Esporte Clube. Era neste clube onde a juventude se reunia para as matinês nos fins de semana e onde desenvolvi minha habilidade de dançarina. Bons tempos em que se ouvia música de qualidade e a população esperava ansiosamente pelo baile mensal, organizado por Manoel Avelino, ocasião em que as festas eram animadas por bandas vindas de outras cidades. Uma das que fazia maior sucesso era a banda Verdes Canaviais – de Ceará-Mirim. A lembrança me remete a um tempo e juro que sou capaz de ouvir o som das músicas que embalaram as festa da minha juventude.

A música realmente deixa marca inesquecíveis em nossa vida, mas nem todas as memórias musicais encerram boas lembranças. A música Royal Cinema, do compositor e maestro potiguar Antônio Pedro Dantas, mais conhecido como Tonheca Dantas, por exemplo, me remete à uma lembrança muito triste e dolorosa para mim.

Eu devia ter uns 5, 6 anos e estava na casa da minha avó juntamente com meus primos tios e alguns amigos da família, quando de repente, em frente à casa surgiram dois homens bêbados brigando. Rapidamente, os que estavam na calçada trataram de entrar em casa e o alvoroço dos adultos me deixou bastante assustada.

Um dos homens briguentos puxou uma faca para ferir o outro, enquanto um dos amigos do meu tio pediu: “Amigo, não faça isto. Não mate um pai de família”. Eu chorava de medo e aflição, sem saber o que fazer, enquanto meu pai tentava me acalmar. O homem atingiu o outro com uma facada embaixo do braço esquerdo. As testemunhas do fato dizem que foi um corte pequeno, mas mortal, uma vez que atingiu a veia aorta e o homem morreu sangrando.

Não havia médico na cidade nesta época e todas as questões de saúde eram resolvidas pelo farmacêutico Wanildo Queiroz (em memória). Também não havia telefone celular ou emissoras de rádio, de forma que as comunicações eram feitas através de um serviço de alto-falante e este foi utilizado para chamar o farmacêutico.

Enquanto o locutor da “boca de ferro” anunciava o fato ocorrido, tocava uma música ou outra e entre estas a que se destacou e ficou gravada na minha memória, foi justamente a música de Tonheca Dantas, Royal Cinema. A música que levou o nome do compositor potiguar a todas as partes do mundo, tornou-se para mim em uma trágica lembrança, que me remete a um assassinato.

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