E chega o danado do “esquecimento”…

 Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

 

A falta de memória, às vezes, chega traiçoeiramente de surpresa em algumas pessoas. A miserável é sorrateira e covarde. Uma terrível ameaça pra qualquer um de nós. Uma quase morte da lucidez humana. Pouquíssimos familiares os suportam e muitos os jogam para abrigos ou cuidadores. Já acham chato conversar com velhos, imaginem se estes, vivem sem os reconhecê-los. Visitei um desses, que de sua cama, só ficara na lembrança, os palavrões do tempo proibitivo da sua juventude. E o pior é que o velho era um padre, devoto do tempo puritano do ‘Concílio de Trento’. Outros, não sobram nada do passado na cachola, como dizem lá no Sertão.  Ficou ‘gagá’. Virou menino… tá comendo papa e mingau…

Parece que a tal desgraça é como ‘queda e coice’ ao mesmo tempo, de cavalo brabo, lá da fazenda do amigo Marcos Lopes. E chega para deletar de uma vez tudo que contém no tal do velho ‘HD’ da gente. Nem sempre é coisa da velhice, dizem os especialistas bem lembrados. Quem nunca se esqueceu de um objeto bem guardado? De uma senha ou número telefônico? Dizem os ‘doutores’ que é bom viver lendo, relendo e lembrando-se do passado, como forma de ativação da nossa memória, tão cheia de coisas boas passadas e das inevitáveis informações da ligeira internet. Novidades que se leem e se apagam, com tamanha rapidez, que nus chegam.

Aconselham os doutores, respondermos as chatas palavras cruzadas, que particularmente, não gosto muito, são repetitivas e me falta paciência. Rabiscar minhas besteiras vividas, além de ler e ouvir músicas, todo santo dia. Também não vivo, sem minha terapia ocupacional e mental de visitar e conversar nos mercados e feiras. Povo feliz e de bom humor. Com todo respeito ao mestre Sigmund Freud, nunca visitei em consultórios os psicanalistas, que não gostam de feiras, como eu.

São de lugares simples, que garimpo histórias para a maioria de meus textos. Desconfio de folclorista e escritor enfurnado dentro de ar condicionado. Pouco anoto nas ruas, deixo para quando chego em casa e ligo o computador no outro dia. Minha memória é o bom que ainda tenho. Tudo passado, me volta em um instante, como um filme, no saudoso Caiçara, de Mossoró.

Um dia, um amigo de trabalho, saudoso ‘Saladino’, pediu-me para ler um texto em uma revista levada de casa e após três dias, me fez um grande interrogatório sobre o tal texto lido por mim. Ficou perplexo quando eu o relatei até as datas e nomes do biografado inventor Alemão ‘Bosche’…

Sou ainda aquele menino que ia comprar nas bodegas, uma lista de coisas, ditas pelo meu pai e trazia tudo, pedido. Parece que rico esquece mais cedo as coisas do que os pobres. Eu, claramente, me incluo no segundo grupo… Dinheiro demais estraga muita coisa. Minha memória volta facilmente aos 4 ou 5 anos. Tudo em detalhes do meu primeiro dia no grupo escolar professor Clementino Câmara, no Barro Vermelho, em Natal, à última viagem que fiz a feira de São José de Mipibu, sábado passado. Nessa referida feira, ainda guardo bem fresquinha a conversa de uma feirante com sua vizinha, também comerciante. Uma querendo explicar como se pega o tal do famigerado Coronavírus: “Mulher, é melhor ficar em casa, pois cachorro que muito anda só pega rabugem”. Juro que ainda não consegui uma melhor explicação científica, na linguagem matuta, para acabar com a tal aglomeração. Essa é a falação que eu tanto admiro.

Dizem que só se conta o que se viu ou ouviu, se tiver boa memória. O resto é coisa de ficcionista metido a besta. Digo sempre que só invejo três coisas na vida: a saúde, a inteligência e a memória. Quando essas três se desgarrarem de mim, precisarei pegar o último pau de arara e partir de vez desta, sem saudades alguma.

Nunca vi enterro de anão e dinheiro comprar em feiras, quilos de saúde, e memória. Outro dia, o grande amigo professor Luiz Carlos Freire, confessou-me recorrer ao santo São Longuinho, o padroeiro protetor dos esquecidos, quando o mesmo perde objetos em sua casa. Não sou católico, todos de minha casa sabem, mas sempre no desespero e na correria para encontrar os livros perdidos no meio da minha bagunçada biblioteca, lembro da fé inabalável de dona Maria Estela, minha saudosa mãe e prometo dar três pulinhos, ao São Longuinho, se o tal livro aparecer em minha frente. Confesso que esse pedido não demora segundos. A gente deixa a religião, mas as crendices e superstições não desgrudam da gente!

Quero esquecer algumas coisas de propósito, como as novidades tecnológicas do meu chato celular. Como também as politicalhas do presente e maldades humanas, do passado. Nem me lembre que Caim acabou com o Abel. Do romano incendiário Nero e do carioca vereador Dr. Jairinho. Deletei de propósito de minhas lembranças quase a maioria de meus professores de matemática e inglês. Só guardei na memória mesmo os das matérias de história, geografia e português. Uma vez presenciei de perto a desculpa dada de um amigo para não dizer que conhecera o seu velho desafeto: “Nunca vi tal pessoa no mercado de Mossoró? Ainda é vivo esse fulano?”. E dizem que é preciso ter as boas e necessárias artes de lembrar e agradecer, como também, a arte de estrategicamente esquecer coisas ruins e certos troços humanos…

Quem lembra as datas e acontecidos na família sou eu mesmo. Quase museu e arquivo ambulante. Meus irmãos mais idosos me pedem para relembrar causos, vividos por eles. Minha filha caçula, Sarah Costa, se não anotar o que lhe peço, esquece ligeirinho. Ao que parece, essa geração nova só não esquece dinheiro emprestado e as fofocas televisivas. Antigamente, era a dona Estela que, antes de encantar-se, repassava-me muita coisa de seu tempo de menina de casamento ‘fugido’. Histórias não tanto alegres, como suas bonecas jogadas fora, por sua sogra ranzinza, mãe de papai. 

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Mery Medeiros (dir.) e Gutenberg Costa

Triste mesmo é ver uma amizade sem nos reconhecer. A medicina chama essa tragédia do esquecimento de – ‘Alzheimer’. É muito doloroso aos familiares chegados e aos antigos amigos, o completo esquecimento dos nossos. Principalmente aqueles alegres e conversadores de nosso bom convívio. Não sei nem contar o meu último encontro com o amigo-irmão escritor e bom memorialista Mery Medeiros, (1946-2020). Ele me olhava com olhar vegetativo e não sabia que em sua frente estava aquele que ele confiara um comentário de um de seus livros. Olhava, mas não adivinhava que perto de si, estava atônito o seu velho amigo, confidente e confessor de ‘tim’ por ‘tim’, desde os anos 70 do século XX, do Café São Luiz aos botecos e bodegas do bairro do Alecrim.

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Mery Medeiros (dir.), meu grande companheiro-irmão de jornadas culturais

Saí triste do nosso último encontro e só culpo o sofrimento vivido por ele, que não estava velho, como motivo do apagamento de sua privilegiada memória de antes. Mery Medeiros, meu grande companheiro-irmão de jornadas culturais, partiu dessa vida, sem lembranças do passado e despedidas do presente. Se foi como chegou, sem nada saber contar. Não viveu as vaidades e nem brigou por honrarias inerentes ao seu tempo. Foi-se com a alma limpa e calejada de um santo! E, enquanto teve memória, não esqueceu de me ligar quase todos os dias e procurar saber como eu estava de saúde e de bolso!

Agora sou eu que peço aos ‘deuses’ não esquecer as boas amizades que ainda me restam, de Pendências a Lisboa, em Portugal. E continuar com lucidez essa gratidão até meus últimos dias, como a cartilha de minha mãe, me ensinara. Quero deletar apenas dessa teimosa ‘cuca’ mesmo, os poucos gatos pingados desafetos. Bater na minha mesa da cozinha, se falar os nomes destes!

Hoje é domingo, pede cachimbo. O Resto é resto e daqui nada se levará, como já foi dito sabiamente, há milênios!

                             Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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