Crônicas do domingo

A casa de minha avó em Pendências/RN

Cidade de Pendências RN

– Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Folclorista e Escritor.

Leio geralmente as lembranças dos memorialistas sobre as casas de seus avós. O chamado patriarca da família. O Chefe ou dono da casa. Nessa linha memorialística sempre releio algumas obras que me são referenciais de casas antigas familiares, como a de Carlos Lacerda (1914-1977) intitulada, ‘A Casa do Meu Avô’. Cresci em uma época que a mulher era só para criar os filhos e ficar ao lado do fogão. Minha avó materna dona Francisca Fernandes de Medeiros (1907-1979), com seus doze filhos, tal qual minha mãe Maria Estela Fernandes de Medeiros Costa (1925-1998) com dez, nunca trabalharam fora de seus lares. Quase todo ano um filho novo chegando não haveria tempo de ocupar-se com mais nada. No meu tempo de menino, o comércio e as repartições públicas eram geralmente ocupados por homens. Principalmente, em cidades interioranas, onde as mesmas eram conhecidas pelos nomes de seus maridos ou pais, como se esses fossem seus ‘proprietários’: dona Francisquinha de ‘seu’ Hermógenes ou dona Estela de ‘seu’ Geraldo. As pobres mulheres ditas de ‘vida fácil’ não tinham os nomes de seus maridos e pais, para referenda-las na sociedade tão puritana e machista dos séculos XIX e XX.

            O memorialista Eloy de Souza (1873-1959) nos deu um testemunho dessas regras implantadas as mulheres de seu tempo, em 1909, em sua ‘Conferência Costumes Locais’, em Natal: “Dona de casa, antigamente escrava de seu dono, filha de seu pai outrora serva…”. O tema é vasto, mas tenho que fixar minha memória no casarão de minha querida avó de Pendências. Menina rica e filha única do coronel de patenteJoão Alves Fernandes e Ana Fernandes. Casou-se adolescente em 1922 e ficou viúva em 1966. A partir de então, quase não sorria e nem muito menos tirou o luto, como diziam.

               As lembranças nem sempre são alegres ou podem ser enfeitadas. Então, minha avó ficou ‘comandando’ a casa, seus afazeres e as mulheres que eram mais do que empregadas, quase parte da família: Joana e Francisca, além de outras agregadas. Uma filha (Alda) e seu filho (Chagas) e um filho adotivo (Antônio José). O ambiente era sempre visitado pelos onze filhos. Seis homens e cinco mulheres. Fora os netos e netas que iam passar dias ou como eu, as férias escolares, do saudoso Grupo Professor Clementino Câmara, de Natal. Lembro-me muito bem de uma das empregadas, a dona Francisca. Bem escura de cabelos crespos. Usava óculos e fumava um cachimbo de fumo ‘fedorento’. Engomava as roupas em ferro de brasa, molhando e passando goma para dar brilho nas camisas de linho de meus tios Aécio e Almir. Confesso e aqui peço perdão, pelas vezes em que escondia o seu inseparável cachimbo: “Esse menino de dona Estela é um danado!”. Depois dessa ameaça, milagrosamente, a peça desaparecida era encontrada em qualquer parte da casa. Diziam ser neta de escravos. Sabia ler os romances de feiras, mas diferentemente de mim, não sabia escrever um simples bilhete. Achava muito curioso isto. Ler e não escrever!

Foto: Arquivo Medeiros Neto

            Bem, a referida casa, que não entro há mais de duas décadas, era assim. Duas janelas na frente. Um portão de ferro grosso ao lado. A porta ficava de lado. Na sala um sofá e duas cadeiras. Um centro e uma mesinha de canto, de madeira com tampo de vidro, onde ficavam as revistas ‘O Cruzeiro’. Nem precisa dizer que eu as folheava com prazer, principalmente as reportagens de David Nasser e as crônicas de Rachel de Queiróz. Sem falar no criativo e maldoso humor de Péricles, com o seu ‘Amigo da Onça’. Um grandioso relógio ‘cuco’ na parede saindo para anunciar as horas. Na salinha quase contínua, uma cristaleira antiga e muitos santos. Destacando o São Francisco, que era o santo protetor de meu avô. No quarto dos donos, um guarda roupa, com espelho na porta por dentro. Apesar de muito tempo meu avô já está enterrado no apelidado ‘Buraco de Camundá’, eram vistos seus paletós e chapéus de massa, de marca ‘Ramezone’.

As mulheres e crianças dormiam nos quartos dentro de casa e os meus tios solteiros, com liberdade, na chamada ‘república’ que ficava separada da moradia. A cozinha era dividida, com duas mesas e a parte de cozinhar com um fogão de lenha e um moderno em gás. Como não tinha energia, existiam as jarras e potes, além de uma geladeira, movida a querosene jacaré. Muitas visitas tinham medo de pegar um ‘ramo’ com aquela estranha água gelada. Meu tio Maneco Medeiros era um que ia direto ao pote para matar a sua sede. Tinha terraço com um grande depósito em madeira para vender sal. Uma despensa, sempre fechada, completa de frutas, sacos de mantimentos e carnes secas em penduradas. Um local afastado para ser usado como sanitário e outro somente para banhos. Não posso esquecer minhas estripulias no quintal, repleto de galinhas e um frondoso ‘pé’ de azedos tamarindos. Minha mãe ficava muito assombrada quando me via em seus galhos altos: Menino, pelo amor de Deus, não vá quebrar uma perna ou um braço!”“. Confesso que eu só tinha medo dos trovões e grandes sapos  me olhando. Ficava encantado com um casal de pavões mansos que ficavam quebrando as telhas.

            Tinham os pedintes que chegavam na hora do almoço, e minha avó manteve a tradição de seu marido. Comida farta para quem chegasse. O ‘Batista Doido’ vinha suado e fedorento com seu carrinho de lata de óleo Benedito. Comia como queria, com as mãos e no chão. Sem que minha avó percebesse, eu jogava um copo d’água no pobre para vê-lo correr em disparada. Minha mãe contava que ele teve um trauma na infância devido à água fria. Como dizem, ‘gato escaldado não chega perto de água fria’. Na frente da casa para dar-lhe sombra resistia uma algaroba. Antes que as luzes do motor apagassem, as conversas eram nas calçadas. Ficarão para outra vez as fantásticas histórias contadas na boca da noite por tio Maneco. Relembrar é como fogo na roupa e eu vou parar porque já sou meio chorão e sessentão!

NA LOCA DO POÇO DE SANT’ANA

Poço de Sant’Ana, em Caicó RN – Foto Blog do Primo

Gilberto Costa – Servidor da Previdência Social e poeta

Hoje, logo cedinho, fui prosear com a Serpente do Poço de Sant’Ana. Fazia tempo que não ocorria. A última vez em que estivemos a conversar eu contava com oito anos de idade. Lembro-me que fui pedir-lhe para que intercedesse junto aos meus pais para permitir que eu estudasse. Já não aguentava escutar histórias que diziam haver somente nos livros. Histórias contadas por crianças do meu entorno quando voltavam da escola. E eram as histórias de animais gigantes as que mais me impressionavam. E havia histórias de serpentes. Mas, ninguém falava da existência da Serpente do Poço de Sant’Ana. E nessa última conversa, indaguei do por quê dessa omissão. E ela me garantiu que logo eu saberia a causa.

Bem, fazia tempo que não conversávamos. E claro que a serpente estava sentida dessa ausência sem explicações de minha parte. É que quando crianças, estamos mais próximos da vida e seus encantos. Temos mais olhos para as cores. Temos mais ouvidos para as cantigas. Sentimos mais o cheiro das flores. Quando crianças, pisamos o chão com os pés descalços. Apalpamos com mais frequência a aluvião dos barreiros. E há mais abstrações. E conversamos com sereias e serpentes.

Mas, logo veio o perdão. E nosso papo fluiu como ocorrera em outrora. E nos atualizamos sobre o mundo de minhas andanças e o mundo que deixara para trás. A serpente fez elogios a minha maturidade e manifestou preocupação sobre a devastação ocorrida no entorno do Poço de Sant’Ana. Reclamou do cheiro das águas. Lamentou a ausência de seus vizinhos no santuário de encanto pretérito. Falou da saudade que tinha das traíras. Dos curimatãs. Dos piaus. Dos cascudos. Dos cágados. Das piabas manteigas  Dos camarões. Manifestou a tristeza por seus olhos não contemplarem mais frondosas oiticicas. Marizeiros Mofumbais. Taquarais.  Por não ver nem ouvir sabiás. Bem-te-vis. Rolinhas caboclas. Enfim, a serpente chorou. 

Fiquei a contemplar o soluço da serpente. Um tempo que não sei quanto durou. Um tempo que me fizera refletir e me transportar a outro tempo. Um tempo que o sertanejo seridoense não se permite que se deprecie. Que se acabe. Um tempo que une o passado ao presente. Um tempo que resiste a qualquer tempo que não seja o tempo da inocência.

Desperto-me de minha abstração. Tempo suficiente para enxergar o retorno da serpente aos seus aposentos na loca no Poço de Sant’Ana. Ela se volta para mim e sorri como a muito não o fazia. E foi minha vez de chorar de emoção.

3 Pessoas comentaram
Reneide Saldanha

O relato da crônica do escritor Gutemberg Costa é tão bem feita, que quando começamos a lê, vamos transformando em imagens, e essas vão ganhando vida e movimento, e se transformam rapidamente em senas de filme, senas de filme do cotidiano da vida!…parabéns!!!!

Affonso Furtado

É a primeira vez que leio as crônicas de nossa velho amigo e confrade Gutemberg Costa.Mantem a mesma linha de consagrado escritor
dos costumes e tradições da sociedade potiguar, sobejamente expostos em seus livros,amplamente acolhidos pelos leitores e meios de comunicação.

Fátima Maria Costa Soares de Lima

Parabéns ao querido amigo Gutemberg Costa! Perfeito relato da sua infância na belíssima casa dos avós, em Pendência, cidade linda e de um povo acolhedor. Gutenberg tenho uma norinha que é sua corrânea, a bela Renata, esposa do meu filho primogênito, Isaac. Amo Pendência, por várias vezes estive lá, em serviço, mesmo assim a noitinha curtimos a cidade nas suas Praças sempre frequentadas em
qualquer dia da semana. Lendo sua crônica vejo a riqueza dos detalhes ressaltados por você e que foram, realmente, marcantes para sua formação pessoal, tornando-o um homem culto, com princípios nobres e que carrega no coração suas origens de costumes familiares típicos do nosso amado Seridó! Bravo!!!!

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