Crônicas do domingo

Centro da cidade de Nísia Floresta, vendo-se a centenária
Igreja de Nossa Senhora do Ó

Velhas histórias de Papary, seu folclore, religiosidade e duas mulheres nascidas neste torrão

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direto, Escritor e Folclorista

Sabe-se que antes da quase totalidade da exterminação indígena no Rio Grande do Norte, os donos das terras eram os nativos Tupis. Aqui eles viviam sossegadamente plantando e pescando na grande e farta lagoa de peixes, conhecida com a denominação de “Paraguaçu” e depois “Papary”. Hoje, essa bela e histórica lagoa é reservada apenas para pesca e muito engrandece a localidade de Morrinhos, por sinal escolhida para meu descanso da agitação e poluição da Capital, onde vivi grande parte de minha vida e trabalho. Confesso que tenho o privilégio de todas as tardes ver o lindo por do sol na referida Lagoa e ainda poder conversar livremente nas calçadas!

Lagoa de Papary

E em relação aos antigos escravos e sua religiosidade popular trazidas de seus antepassados para estas bandas, registra o nosso Câmara Cascudo, em sua obra – História do Rio Grande do Norte, 1955, pág.: 194: – “um famoso negro que reinava nos folguedos do Rosário: “Miguel rei, escravo do Coronel Antônio Basílio Ribeiro Dantas”… era rei nas festas de Nossa Sra. do Rosário em Papari, realizadas no dia de Reis, 06 de janeiro. Era negro airoso, falador e dançarino. A Rainha era a preta Amélia… escrava do delegado Tomás José de Moura”. Segundo ainda o historiador e folclorista, o afamado e popular Rei Miguel era como os demais, integrantes da Irmandade religiosa Católica restrita aos negros e consequentemente, devotos de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, com ramificações na cultura afro. O citado Rei teria falecido na mesma Papary, em 14 de fevereiro de 1915, com 96 anos de idade e foi logo substituído no antigo reinado religioso e tradicional, pelo negro “Luís”, que era escravo do Dr. Francisco de Souza Ribeiro Dantas. A ritualística do então Rei e Rainha da Irmandade de Nossa Senhora dos Pretos do Rosário, não era tão apreciada pelos donos de engenhos e ao longo do tempo, esta foi desaparecendo, sem líderes, apoios e seguidores…

Hoje, felizmente o nosso folclore negro ainda existe em diversas manifestações, principalmente nos Congos, Zambés e Coco de Rodas.

Congos ( Foto ilustrativa)

A presença dos negros escravos era muito marcante e destacada devido aos engenhos de cana de açúcar, entre Papary e São José de Mipibu. Para se ter uma ideia, a região de São José de Mipibu, que compreendia Papary, antes da lei Áurea, tinha um contingente de 822 escravos, segundo o nosso primeiro historiador Ferreira Nobre (1824-1897), em sua obra, publicada em 1877, que nos dá notícia dessa então Vila de Papary, pág., 179: “o território desta vila pertenceu ao município da cidade de S. José de Mipibu, até que, por lei provincial Nº 242, de 12 de fevereiro de 1852, foi elevada à categoria de Vila, com o título de Vila de Papari. População é de 5.176 habitantes…” A data da elevação a categoria de vila é também corroborado pelo historiador Tavares de Lyra, em sua História do Rio Grande do Norte.

Engenho Pavilhão

Câmara Cascudo, em sua obra “Nomes da terra“, 1968, pág., 219 a 221, descreve os primórdios dessa referida antiga povoação conhecida ainda como Papary: “criado em 18 de fevereiro de 1852, sede na Vila Imperial de Papary. Desmembrando de São José de Mipibu”.

Depois esta passa a condição de Vila Papary em 01 de fevereiro de 1890, pela lei provincial Nº 12. Em 29 de março de 1938, na administração estadual do então interventor Rafael Fernandes, devido ao decreto número 457, é elevada a categoria de Cidade de Papary. Na gestão municipal do então prefeito Américo de Oliveira, o qual administrou Papary entre 1945 a 1949, através do decreto lei, número 146, de 23 de dezembro de 1948, passa-se a denominar-se – “Nísia Floresta“, que homenageia a ilustre filha da terra. A mudança ocorreu em virtude dos esforços do projeto apresentado e aprovado de autoria do então deputado estadual Arnaldo Barbalho Simonetti.

Sua feira localiza-se no centro, ao lado do prédio da Prefeitura, as sextas-feiras. Sempre estou por lá onde já fiz amizades e aproveito para almoçar na casa/restaurante de dona Graça. O melhor carneiro torrado do mundo e a sua irresistível fava. É o netinho da citada proprietária, que grita a minha chegada: “Vovó, chegou o homem do bode!”. Na sua imaginação, carneiro e bode, é a mesma coisa!

Ali no centro sempre visito o jovem Luiz, meu barbeiro. E por falar em barbeiro, assim que vim morar aqui fui atendido pelo velho apelidado de Piaba, que com mais de 80 anos, aposentou-se. Era um ponto de antigos clientes e amigos. Muitas divertidas histórias.

 Tenho parada obrigatória na Quitanda de esquina de ‘seu’ Francisco. Compro de tudo, menos batata doce: “Porque o senhor nunca me comprou batatas?”. E eu sempre rindo explico, que é por trauma de infância. Lá em casa, o pão e o bolo, eram raridades e a tal batata, reinava no café, almoço e janta!

Ando muito a pé a conselho médico e por gosto próprio. Conversando com um e outro. Parando nas rodas de histórias, para trazer na minha volta assuntos para meus escritos bestas: Cobra que não anda, não engole sapo!

E o meu peixe é sempre comprado perto da mencionada feira, em seu João. Tilápia, novinha tratada na hora, recheada de conversas, prosas e risadas. Antes dessa pandemia dava uma esticada até a residência do querido casal Procópio e Jarilda ali pertinho. Ele um ótimo historiador e escritor, nosso confrade no Instituto Histórico e Geográfico do RN e também do Ágape: café bem forte coado no pano e muitas conversas. Não posso esquecer o delicioso suco de mangaba que costumeiramente provo em sua rodoviária.

A Igreja Católica é dedicada a sua Padroeira, Nossa Senhora do Ó, e é comemorada com orações, novenas, missas, procissões e festas profanas, com parques infantis, barracas e shows, sempre na semana que antecede o dia 18 de dezembro.

Igreja de Nossa Senhor do Ó

A matriz foi construída, segundo vários historiadores, entre 1735 a 1756. A partir de 1833, deixa de ser Capela, desmembrando-se de vez da Matriz de São José de Mipibu, passando a ser Igreja Paroquial de Papary. Seu primeiro vigário foi o Padre Antônio Leiros, falecido a 21 de novembro de 1835. Sempre vou por ali em dias festivos da minha nova padroeira. Confesso que tenho a proteção de vários padroeiros. Vim do bairro do Alecrim, com as bênçãos de São Pedro e São Sebastião. E São João Batista de Pendências, embora morando em meu velho oratório, esteja o santo Padre João Maria.

E no centro de Nísia Floresta, está plantada a frondosa árvore sagrada africana – Baobá. É um patrimônio municipal desde 1979, muito visitado e fotografado pelos turistas. Diz ter sido plantada por Manoel de Moura Júnior, em 1877. Ano da grande seca no Rio Grande do Norte e em todo resto do Nordeste. Já a versão popular, conta que a mesma foi plantada por um escravo que sobreviveu ao naufrágio de um navio vindo da África, nas imediações da praia “Camurupim”. 

Centenária árvore Baobá

Sempre que posso vou fazer uma visita ao Museu Nísia Floresta, nas proximidades da referida Igreja. Um belo casarão ainda bem conservado que é administrado pelo amigo Raimundo Melo. E a convite da educadora e amiga Rejane, fui algumas vezes a Rádio FM Executivo. 

Museu de Nísia Floresta, no centro da cidade

Soube que vivo rodeado de 22 lagoas e algumas praias. Já estive tomando banho no rio Cururu, onde o peixe é pego num viveiro e frito ou cozido com pirão escaldado. Já tomei boas cachaças, na antiga bodega Joca Paixão, que fica no bairro do Porto. Uma tradição já tombada pelo povo desde 1947. E por falar em cachaça, o município tem em suas terras o Engenho Papary, que produz uma das premiadas no Brasil e exterior. Sou tradicionalista ‘roxo’ e aprovo a permanência e valorização das coisas antigas nesse mundo globalizado e cruel.

 Não se pode esquecer que a cidade que escolhi para viver o resto de minha vida é berço da escritora, educadora e poetisa Isabel Urbana de Albuquerque Gondim, nascida em 05 de julho de 1839 e falecida em 10 de outubro de 1933, em Natal.

Escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta

E também a grande escritora Nísia Floresta. Intelectual, escritora, educadora, poetisa e precursora do feminismo no Brasil, cujo nome de batismo era Dionísia Pinto Lisboa, nascida no Sítio Floresta, a 12 de outubro de 1810. Filha do advogado e artista Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa e de dona Antônia Clara Freire do Rivoredo. A escritora adotou o pseudônimo intelectual de – NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA. Juntando suas lembranças e homenagens ao final de seu nome: Sítio onde nascera. Sua nacionalidade e seu amado, segundo esposo – Augusto. E a ilustre escritora é muito elogiada no mundo inteiro e no Brasil por vários intelectuais do passado do porte de Oliveira Lima, Gilberto Freyre, Rocha Pombo e Câmara Cascudo, entre outros. Nísia Floresta faleceu em “Rouen”, uma cidade localizada na histórica região da Normandia, no noroeste da França, numa quarta-feira, na data de 24 de abril de 1885, aos 75 anos de idade. Em 1909, é erigido um monumento em sua homenagem, por iniciativa do congresso literário do RN, nas antigas ruínas de sua casa na velha Papary.    

Túmulo de Nísia Floresta

Seus restos mortais vieram e hoje, seu túmulo, construído em 03 de abril de 1955, é ponto de visitas e respeito cristão. Nísia Floresta é considerada uma mulher além de seu tempo, corajosa, polêmica, feminista e primeira em muitos aspectos, que com justiça e reconhecimento, deu seu nome ao seu chão abençoado – Papary. 04/10/2020 – Morada São Saruê, avistando a Lagoa Papary/ Nísia Floresta/RN.

2 Pessoas comentaram
Clsudionor Barbalho

Parabéns,adorei o texto, acho que deveria ser publicado na tribuna do norte aos domingos.

Reneide Saldanha

A singeleza e autenticidade da narração feita pelo escritor/pesquisador Gutemberg Costa, faz com que possamos visualizar através da imaginação, as cenas descritas…excelente!

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