COZINHADO DAS MENINAS

Rosemilton Silva – É jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ali no quintal da casa de Mané da Viúva parede e meia com o de Sinhazinha de João de Chana que dá na casa de Edson e bate no muro de Arnaldo Moreira que ouve o batuque da casa de Sebastião Germano e desemboca na esquina de Dona de Chiu.

Vejo Régia e Rejane prepararem um cozinhado de boneca mais Maria José de Sinhazinha, Genialda de Maria do Carmo, Loiça de Raminha para convidarem outras meninas da rua e celebrarem o começo de Natal de Jesus, enquanto Romualdo e Ramon, no outro lado do quintal, cuidavam de arrumarem os seus currais de boi de osso, quando dona Rosa chega me dizendo que minha cumade Maria Gorda tava me chamando lá fora trazendo pela mão Fernando Bocão que estava eufórico porque Everaldo tinha dito que Manoel Bernardino estava armando o carrossel de cavalinhos juntamente com Cirilo e mais uns dois ajudantes que ele não lembrava o nome mas me disse que o tocador não era Zé Galdino e sim João Amâncio com seu fole.

E começa a chegar os meninos e meninas do turno da manhã da escola de Neném Galdino. Alguns com as mãos ainda vermelhas da palmatória. Outros mais sorridentes por terem acertado todas as questões. Nivaldo de Raminha chega com seu caderno de desenho; Tino de João Chicó com sua bola de futebol acompanhado de Wilson de Cabral com seu carrinho de virola de pneu de caminhão que é empurrado por um arame grosso tendo uma volta parecida com um U na ponta. João de Dula com seu carrinho de rolimã; Dudu de Maria Anjo com seu Cadilac de lata montado em cima de molas de flandres e rodas de madeira e todos vêm se juntar ao meu carrinho de lata de leite cheio de areia, furada dos dois com um arame passado e um cordão para puxar.E vamos jogar biloca.

E o cozinhado vem recebendo os convidados e dona Rosa vai se preocupando com tanta gente. As meninas começam a brincar de Academia, de Tica, de Esconde-Esconde, de Ponte da Aliança, pula corda e outras brincadeiras. E dona Rosa me chama pra dizer que eu vá em Prima buscar uns puxa-puxa, passe na padaria de Pitico e compre uns pães doce com coco ralado passado no “espinhaço” porque já comprou pirulito e sonho de noiva além de ter em casa, coisa que Mané da Viúva não deixava faltar: choriço para o lanche de verdade.

Para encerrar a tarde, chega os meninos de Pedro Lucas, Jaelson e Jairo – Joacildo não vem porque ainda não chegou para as férias do Seminário -, com aquela maquininha de cinema que eles inventaram numa caixa de sapato. E haja cantoria: “Atirei o pau no gato to to/ Mas o gato totó…” “Lá na ponte da Aliança/ Todo mundo passa…” “Pirulito que bate, bate/ Pirulito que já bateu…” Enquanto os meninos aproveitam para trocar estampas do sabonete Eucalol retratando a vida dos escoteiros.

E todo mundo feliz da vida com seus brinquedos é chamado para um regabofe montado na mesa da cozinha por dona Rosa. Depois disso tudo, Mané da Viúva arma seu lambe-lambe e bate um retrato.

3 Pessoas comentaram
JOSE OLAVO RIBEIRO

Muito bom! Retrato do interior de antigamente.

Terezinha Tomaz

Quem morou no interior conhece tudo isso.

Angela

Cozinhado de folhas, sementes, pedrinhas… as filhas/bonecas de milho esperando para comer…que boas lembranças. Retrato da infância de uma geração criativa, feliz com coisas simples, que marcou a memória de quem viveu.

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