CIRQUE DE ZANGARELHAS

Valdívia Costa – É jornalista, natural de Jardim do Seridó /RN


A primeira vez que fui ao circo foi dentro de casa, a casa onde nasci no Zangarelhas. Eu era um bichinho do mato. Distante uns três quilômetros da civilização. O circo que vi tinha uma “lona” de lençol de fundo de rede.
Quatro cadeiras separaras estendia a “latada”, que coube eu, minha irmã e minha mãe embaixo. Éramos o público, o respeitável público daquele circo doméstico, embaixo de uma lona amarrada nas pontas pelas vassouras.


O apresentador era um palhaço. Um artista que chegou dizendo “hoje tem palhaçada” e mãe me cutucou pra eu aplaudir. Era um menino muito parecido com meu irmão mais velho, inclusive.
Em seguida a algumas piadas, o palhaço chamou “a cantora”. Imediatamente reconheci minha irmã. Mas, como quem não pode acreditar, olhei pra cadeira onde ela estava ao meu lado e estava vazia.
Eu disse: “Neta!” Mas mãe cochichou baixinho, pegando no meu braço: “faz de conta que você não conhece!”. Eu balancei a cabeça afirmativamente, já morrendo de rir. Achei a apresentação digna do meu pequeno aplauso.
O palhaço nos fez rir boa parte da manhã. O espetáculo me absorveu a tal ponto que, quando acabou, que vi o palhaço tirando o nariz de tampa de garrafa, foi triste.


Vi minha alegria escorregar dentro de mim devagarinho.
E fiquei sozinha, sentada na cadeira, olhando aquele sonho alegre ir se misturando à realidade. Ouvi a voz do palhaço se modificar, vi a batata inglesa ser retirada do graveto-microfone… ainda senti saudades, sem saber o que era, quando a “lona” do circo caiu ao chão, foi dobrada e virou o lençol de dormir da minha mãe. 


Fiquei calada durante o almoço, olhando a sala que há pouco foi um circo. Fiquei frustrada porque isso é natural quando a gente tem um choque de realidade aos cinco anos. Mas queria ver o circo de novo. Quando vi um circo “de verdade”, uns três anos depois, não consegui mais fazer o que minha mãe havia sugerido a 1ª vez: fingir.


Quando nos mudamos para a cidade, o circo aumentou de tamanho, ocupou o quintal quase todo. Por ser uma novidade na rua, o circo sem lona atraiu umas 20 crianças. Todos pagaram pra entrar. A moeda corrente no mundo mágico era de papel de cigarro. 


A criatividade sempre plantou frutos na minha cabeça. Como o coelho que brota da cartola, sem nunca ter entrado nela!

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