A REENCARNAÇÃO CHEGA ÀS HQs

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Itto Ogami é um Ronin, ou seja, um samurai que caiu em desgraça.

 Vaga pelas terras do Japão feudal tendo de seu apenas o orgulho férreo, o rígido código de honra dos samurais, uma incrível habilidade com a espada, seu filho Daigoro e um terrível desejo de fazer justiça.

Conhecido como Lobo Solitário, Itto Ogami é o herói principal da saga japonesa em quadrinhos – chamados Mangá, no Japão – que durante vários anos foi publicado por editoras diferentes no Brasil. Essa última edição que chega ao seu último número, o 28, é da Panini Comics.

Itto Ogami – o Lobo Solitário

Os autores, Kazuo Koike e Goseki Kojima, traçam um vasto e rico painel do Japão feudal, com suas práticas, crenças, costumes e tradições, muitas vezes de difícil compreensão para nós, ocidentais.  

Itto Ogami é o leal executor do Shogun, que por artes da traição do clã Yagyu na pessoa do seu chefe mestre Retsudo, perde cargo e esposa, morta violentamente. O samurai sobrevive junto com seu filho Daigoro.

A partir daí Ogami assume o caminho do Meifumadô, ou inferno dos budistas. Torna-se um Ronin, um guerreiro errante, tendo sempre em vista acertar as contas com mestre Retsudo, para assim limpar seu nome e sua honra.

No último episódio de uma série de milhares de páginas, ferido e pressentindo o fim, Ogami toma o filho Daigoro nos braços e apontando o rio, pergunta se ele sabe para onde aquelas águas correm. É o começo de um diálogo de caráter reencarnacionista e de profunda beleza poética.

O Samurai usa o rio como metáfora:

“O rio desemboca no mar e torna-se onda. Ondas grandes, ondas menores, elas vem e vão, vão e vem, muitas e muitas vezes sem cessar”. Ogami continua: “a vida dos seres humanos é como a onda. Eles nascem, vivem, morrem e nascem novamente”.

Pai e filho olham-se nos olhos: “Em breve o corpo do seu pai tornar-se-á um mudo cadáver. Mas a alma que há em mim é como a onda, jamais deixará de existir”.

 Aquele homem duro está profundamente emocionado.

“Quando chegar a hora, minha alma partirá, ondulando pela correnteza, para desembocar na outra margem da vida, a fim de reencarnar. Meu corpo pode padecer, mas minha alma é indestrutível. Assim como a sua”. Pai e filho, companheiros de tantas aventuras, agora choram.

“Nossas almas são eternas e jamais serão destruídas pelo tempo. Não se abale caso veja o corpo de seu pai ao chão. Não recue, mesmo que minha pele venha a rasgar ou o meu sangue a jorrar”.

Ogami observa o rio sinuoso.

“Não tema ao ver meus olhos cerrados ou minha boca calada. Na próxima encarnação eu continuarei a ser o seu pai. E você ainda será o meu filho”.

 E conclui, abraçando fortemente o filho contra o seu corpo:

“Nós somos e continuaremos a ser inseparáveis, eternamente pai e filho.”

Belíssimo, não? Os desenhos são um magnífico bico-de-pena que dão vida a um roteiro que valoriza a vida nos vilarejos e campos do Japão dos Shoguns e Samurais. Em uma palavra: obra-prima.

Aos que gostam de HQs, uma recomendação: procurem, urgentemente, nas bancas.

1 Pessoa comentou
Karlim d'Bee

Bela analogia.👏👏👏👏👏👏👏

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