VERANEIOS DA MINHA INFÂNCIA


Roberto Patriota é jornalista e escritor


Quando criança durante o período das férias escolares, toda a minha família realizava uma verdadeira mudança temporária de Natal para Touros. Essa transição era radical e incluía também as auxiliares do lar, o cachorro Sheik e até o papagaio se ele existisse, além de uma grande quantidade de objetos e utensílios domésticos. Em Touros permanecíamos até o retorno do calendário escolar, que naquela época costumava acontecer após o carnaval. Era um período mágico, de muita liberdade e diversão. Até a primeira metade da década de 1970 a vida na cidade de Touros caminhava calmamente, sem nenhuma pressa. Nessa época o acesso para a pacata praia só era possível através de Ceará-Mirim, via Pureza, Punaú e Santa Luzia. Partindo de Natal até Ceará-Mirim a estrada era pavimentado com calçamento, depois, todo o trecho até Touros era em estrada de terra.


Encontrar carros atolados na estrada, com pneu furado ou enguiçado por conta da trepidação causada pelos buracos e “costelas” era fato corriqueiro. Em vários trechos do trajeto, a areia volumosa e solta, atolava até jipe. Constituía um verdadeiro desafio chegar a Touros sem atropelos, principalmente durante a estação do inverno. As grandes poças de lama, pequenas “lagoas” que se formavam em todo o trecho mais baixo da estrada, tornavam as viagens quase sempre um difícil desafio a ser superado. Imprevistos aconteciam com frequência.


Não obstante as dificuldades, a recompensa era chegar e desfrutar de um pequeno paraíso natural cercado por um farto coqueiral e praias de águas mornas e amenas. Touros desse período era um lugar bucólico e aconchegante. A entrada da cidade era de uma frugalidade franciscana, composta por pequenas casas, muitas ainda de taipa, cobertas com palhas de coqueiros. A simplicidade junto com a paz era predominante, e a violência praticamente não existia. Todos dormiam sossegados, não se fazia necessário fechar portas ou janelas durante as noites e madrugadas.

No entanto a infra-estrutura da cidade praticamente inexistia, assim como as opções de comércio, saúde, comunicação e educação. Conseguir encontrar frutas, verduras e legumes no mercado público só em sonho. Outro fator limitante era conseguir ouvir rádio ou assistir TV. A única emissora que se conseguia “assistir”, apesar da imagem chuviscada e o som ininteligível, era a TV Universitária. Em dia de sorte a TV Tupi dava sua graça, mas só se conseguia ouvir ruído.


Outra dificuldade desse período era conseguir falar ao telefone. Havia apenas um único posto de serviço telefônico na cidade e dispunha de dois funcionários apenas. Uma telefonista e um mensageiro. Esse posto da Telern, ficava localizado lateral ao grupo escolar Cel. Antônio do Lago na rua Pedro II, e era o único canal de comunicação com a capital e o resto do país. Quando meu pai ligava de Natal para falar com minha mãe, ou com um dos filhos, a operação poderia demorava de quinze a vinte minutos, tempo de o mensageiro localizar alguém da família e avisar a pessoa para ir até a cabine telefônica atender a ligação. Acontecia frequentemente, da pessoa solicitada chegar ao posto da Telern e a ligação ter caído. Era uma tecnologia ainda precária se comparada com os avanços das comunicações de hoje. Mas naquela época ninguém se queixava dessas limitações. Imagine nos dias de hoje, ficar um dia inteiro sem sinal de Internet? Touros era quase uma vila pacata, e muito dessa época me vem frequentemente à memória. 


Como não lembrar de Vitalina na janela da sua casa esperando o regresso do seu amor que nunca voltou, ou de Damião Caquica, boêmio inveterado da vila, sempre sedento por mais um gole da boa cachaça, ou de João Baiacu, mecânico de primeira linha e motorista requisitado, ou de Pedro Bandarra e seus causos intermináveis ou de seu Lucas do Motor, homem inteligente e cheio de charadas e que por décadas foi responsável pela energia a motor diesel da cidade. Por esse tempo o líder político de maior expressão na região era o deputado Antônio Câmara, o “Toinho Câmara”, deputado estadual, federal e anos depois conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, representava a aluizismo verde, agremiação política que na época era considerada praticamente imbatível na região.


A única grande loja da cidade era o armazém do Sr. Joaquim Gomes da Câmara, ficava localizado na avenida prefeito José Américo, vizinho à casa do tabelião Lindonor Patriota. O armazém vendia um pouco de tudo, verdadeira loja de secos & molhados. Lá era possível encontrar cereal, alguns poucos medicamentos, tecidos, calçados, queijos, bebidas, alguns eletros, panelas, copos, talheres e até gasolina. Era o único lugar em Touros que vendia o precioso combustível, comercializado em galões de 20 litros. Nessa época, Joaquim Gomes já era um homem maduro, mesmo assim, colocava o pesado galão de gasolina no ombro e com um funil coberto por uma flanela realizava o abastecimento dos veículos. Um outro grande desafio de Touros desse período era conseguir comprar carne bovina. O único marchante da região só abatia o boi se a quantidade de clientes fosse suficiente para vender toda a carne do animal. Quando a procura era pequena, nada de carne vermelha. Nesse caso a solução era saborear uma boa peixada com pirão escaldado.


Mas, bom mesmo durante o verão tourense era pela manhã, pegar cavaletes nas ondas do mar, bater uma “pelada” na praia e a tarde jogar sinuca em uma mercearia na praça do mercado, próximo ao bar de Luca Saco, onde hoje está localizado o Cartório de Touros, ou cavalgar na fazenda ou na praia. Já à noite a programação se limitava ao bate-papo junto à jangada de concreto que existia na lateral da matriz do Bom Jesus. No sábado quase sempre tinha som e não banda no clube municipal que ficava localizado aonde hoje se encontra o Centro de Turismo. Uma radiola com discos de vinil e duas caixas de som fazia a alegria de todos ao som dos Pholhas, Beatles, Secos & Molhados, Roberto Carlos, Rita Lee entre muitos outros sucessos dos anos 70. Ouvia-se muita música internacional naquela época e pouco forró. Só em eventos como vaquejadas e período junino é que tocava o bom “forró pé de serra”. Além do clube municipal existia o Samburá, bar e danceteria, uma espécie de boate. Era administrado rigidamente, pelo saudoso casal, João e Ivonete Câmara. A boate ficava localizada próximo ao mercado municipal em um prédio de esquina, durante os finais de semana estava sempre repleto de frequentadores. Foi lá que aprendi a dançar coladinho ao brilho da luz negra. O Samburá era muito bem frequentado e raramente havia alguma alteração.


O point etílico de Touros desse período era mesmo o Bar da Ponte, ou bar do Luiz Neri como era mais conhecido. Havia também o Bar Cova da Onça, de Miguel Neri, irmão de Luiz. Ambos localizados na Praça Bom Jesus. O Cova da Onça funcionava na esquina do prédio aonde hoje se encontra a Prefeitura Municipal. Na praia, as únicas opções era o bar Brisa Del Maré, de Luiz Biriguidinha, e um pequeno barzinho sem nome na fachada, mas que era conhecido como Jangadeiro. Lá havia sempre uma grande concentração de pescadores. Anos depois surgiu o Bar Beira Rio, de José Maurício Gomes, ficava localizado na margem do Rio Maceió, no início da Av. Ministro Paulo de Almeida Machado. Tempos mais tarde, o bar mudou-se para a praia recebendo a denominação de restaurante “O Castelo”, foi construído no mesmo local aonde antes funcionava o bar Jangadeiro.


No verão de 1974, inspirados nos blocos de Natal, junto com os meus irmãos Ricardo, Andréa e Socorro, primos Eduardo e Wagner e amigos como José Avelino, Cleudo Joventino, Roberto Máximo, Adailton Lima, Evânia Leite, Andréa e Kaline Lucena entre outros, criamos o bloco, Eles & Elas. O bloco contava com apenas uma alegoria, (carroção), uma pequena banda com alguns tocadores e era decorado rusticamente com palhas de coqueiros e fitas. Tanto a alegoria do bloco como o trator pertencia à fazenda do meu pai, Nilson Patriota. O bloco, Eles & Elas, foi uma grande novidade para o pacato carnaval tourense de 1974, tornando-se o grande sucesso da folia daquele ano. O bloco serviu de inspiração para que anos mais tarde outras agremiações do gênero surgissem na cidade, tornando essa modalidade carnavalesca uma forte tendência durante as décadas seguintes.


Na década de 70, o número de veranistas era pequeno, poucas famílias frequentavam o verão de Touros. Na praia só existia a casa do pecuarista e comerciante, Luiz Varela de França. Ele residia em Ceará-Mirim e passava todo o verão junto com sua família em Touros. Para muitos, ele foi o primeiro veranista da cidade, por ter construído sua casa de praia no final da década de cinquenta com o objetivo de veranear, em um tempo que não existia esse tipo de habito no litoral norte. Anos depois o casal Eider e Gernira Moura construíram um sobrado de verão próximo à casa de Luis Varela. Em 1980, os irmãos Antonio e Vicente Câmara edificaram suas casas de veraneio também a beira mar, próximo da formação rochosa conhecida por “Tourinho”. Ali perto também defronte para a praia, o empresário Jair Alecrim fez a sua casa de verão deixando para trás os verões da Barra do Cunhaú. A família Ribeiro também por ali se instalou, assim como as famílias França, Leite, Lopes, Farias, Patriota enfileirando casas em direção ao distrito de Carnaubinha. Antes dessa expansão a “área dos veranistas” não existia, havia uma cerca em cima do “Tourinho”, que dividia o limite urbano da cidade ao acesso à praia de Carnaubinha. A cerca segundo se comentava, foi colocada ali pela Prefeitura Municipal, para evitar que bois, vacas, burros, cabras e bodes criados nos arredores, invadissem o perímetro urbano da cidade.


A “estrada” para Carnaubinha era apenas uma trilha em cima das dunas, só mesmo Jipes conseguiam vencer os atoleiros. Quando os moradores da então isolada Carnaubinha precisavam ir a Touros, enfrentavam esse difícil trajeto caminhando pela orla durante as marés baixas. Nos trechos mais arenosos da “estrada” até o pacato distrito, os prefeitos municipais costumavam colocar buchas de coco ou piçarro para amenizar os atoleiros mais difíceis. No entanto esse tipo de providência de pouco adiantava. Era sempre um transtorno chegar a Carnaubinha em carro comum, poucos conseguiam. Foi em meados da década de setenta, durante a gestão do ex-prefeito Pedro Ferreira de Farias, o “Pedro Chimbinha” como era mais conhecido, que esse panorama começou a mudar. O então prefeito teve a sábia idéia de doar lotes de terrenos do trecho beira mar entre Touros e Carnaubinha. Entretanto essa doação só se tornava efetivada se no prazo estabelecido de dois anos o futuro proprietário do lote construísse ali uma casa. Foi a partir dessa medida que teve início à expansão e crescimento do veraneio tourense. 


Dentro de poucos anos toda essa área ficou repleta de casas e até um clube, o Touros Praia Clube, também conhecido como o “clube dos veranistas” foi erguido pelos novos visitantes temporários. Com o surgimento dessa área nobre da cidade, a estrada recebeu maior atenção por parte da Prefeitura, que logo tratou de pavimentar, inicialmente com barro e piçarro, depois com calçamento e finalmente com asfalto. Foi também nesse período que o comerciante de João Câmara, Antônio da Maré Mansa deu inicio a Feira de Touros vendendo sandálias de sola e outros artigos do gênero. Touros desse período era uma cidade calma e muito pouco habitada. Após o termino do carnaval as ruas ficavam desertas, as poucas lojas vazias e a praia abandonada. Logo batia uma forte melancolia. Era hora do regresso para Natal, escola e labuta. Ao deixar Touros após meses de veraneio um aperto no peito me acompanhava durante todo o trajeto da viagem de volta a Natal.

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