Tentativa de golpe nos EUA inflada por Trump é um alerta para o Brasil, avaliam cientistas sociais da UFRN

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante uma entrevista coletiva no Rose Garden da Casa Branca, em Washington (EUA)

As ameaças do bolsonarismo à democracia no Brasil não são de hoje e, certamente, estarão presentes nas eleições de 2022. Pelo menos, é o que pensam os cientistas sociais da UFRN ouvidos pela Agência Saiba Mais, depois da tentativa inédita de golpe dentro do Congresso norte-americano, nesta última quarta (6). O país, notável apoiador de golpes e ditaduras em outras nações, registrou uma invasão de apoiadores de Donald Trump ao Capitólio que resultou em quatro mortes e outras pessoas feridas. Durante a sessão, deputados e senadores discutiam a confirmação da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais. Os manifestantes haviam sido incentivados por Trump a fazer a manifestação. Dois prédios do Capitólio chegaram a ser evacuados, assim como escritórios e prédios vizinhos, por suspeita de bombas. Vários pacotes suspeitos foram encontrados na região. O evento, que era apenas burocrático para leitura dos votos do Colégio Eleitoral e certificação do resultado das eleições, foi retomado depois que a situação ficou sob controle.

O episódio foi classificado como “grave” pelos cientistas sociais Willington Germano e Antônio Spinelli, ambos com atuação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Só nesta quinta (7), o presidente da República Jair Bolsonaro se pronunciou sobre o assunto. Ele disse que “sem voto impresso, o problema no Brasil em 2022 será maior que o dos EUA”.

O aviso não foi ignorado, levando em conta a postura submissa do presidente brasileiro e sua tentativa de copiar o presidente norte-americano naquilo que tem de pior. Os pesquisadores da UFRN não descartam que o mesmo seja tentado no Brasil. Mas, Antônio Spinelli lembra que as ameaças de Bolsonaro aos resultados das eleições é muito anterior a 2022 e remonta ao resultado eleitoral do qual saiu vitorioso, em 2018:

“O presidente já está fazendo isso previamente. Antes mesmo que aconteça as eleições ele já está contestando a forma como funciona o nosso sistema de votação. Diz, inclusive, que no processo anterior já houve fraude. Ele acha que teve uma votação muito mais ampla. Portanto, teoricamente, essa tentativa de golpe vista nos Estados Unidos pode acontecer por aqui. É bom lembrar que na campanha Bolsonaro dizia que o único resultado que aceitaria seria o da vitória. Se dizia isso naquela época, quando era apenas candidato, imagine agora que está no cargo de presidente. Obviamente, isso vai depender da movimentação das forças políticas, da resistência que se possa opor a isso. Temos um governo extremamente autoritário, com posições de extrema-direita. Esse risco é concreto, a não ser que as instituições e a população se convençam de que é necessário defender as liberdades e a democracia. O que está acontecendo nos Estados Unidos é um alerta para todo mundo”, avalia o cientista social Antônio Spinelli, professor da UFRN.

Ainda na quarta (6), dia da invasão ao Congresso, enquanto Bolsonaro permaneceu em silêncio, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, se manifestou contra os atos antidemocráticos nos Estados Unidos, ao dizer que “pessoas de bem, independentemente de ideologia, não apoiam a barbárie”.

A declaração de Barroso foi extremamente importante e seria interessante que outras autoridades da República também assumissem essa posição devido as evidentes proximidades que existem entre nós e os Estados Unidos. É preciso que as autoridades demonstrem que estão firmes na defesa do regime Republicano e das liberdades democráticas, do povo. O presidente não tomou essa atitude, nem vai tomar. Ele tem questionado nosso sistema eleitoral e pedido o voto impresso, o que é um retrocesso porque você permite que haja um controle sobre o eleitor, particularmente, aquele de origem popular. Isso também permite que haja uma expansão da compra de votos. Aí sim, seria instaurada a fraude eleitoral”, critica Spinelli, que reforça a segurança da urna eletrônica brasileira e a incapacidade do governo em resolver questões reais e importantes para o país:

Institucionalidade democrática do Brasil é muito frágil”, diz Spinelli

Nosso sistema é até mais seguro que o norte-americano, mas veja bem, claro que a democracia deles é mais segura, são mais de 200 anos de eleições regulares sem rupturas institucionais, apesar de outras fragilidades dessa democracia e dos governos dos EUA, como o fato de terem, em alguns momentos, apoiado ditaduras mundo afora e terem patrocinado golpes de estado. É o contrário do Brasil, onde a institucionalidade democrática é muito frágil, onde há uma instabilidade estrutural, permanente. Para nós, esse risco é muito maior, porque se lá aconteceu o que aconteceu, embora tenha sido simbolicamente uma ferida e não algo profundo apesar das mortes, imagine aqui entre nós, onde as instituições são muito frágeis e a instabilidade tem sido permanente ao longo do tempo. Isso é agravado pelo fato de termos um governo manifestamente incompetente, incapaz de enfrentar a pandemia, de resolver problemas como o do desmatamento das nossas florestas, dos incêndios que aconteceram recentemente. É uma série de coisas que demonstram a incapacidade do governo e a falta de vontade política para resolver essas questões”, desabafa Spinelli.

Mirella Lopes – Agência Saiba Mais

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