QUALQUER MANEIRA DE AMOR VALERÁ

NILO EMERENCIANO – Arquiteto, escritor e articulista

Ganimedes era um jovem pastor boa pinta que chamou a atenção de Zeus, sempre atento a mortais dando sopa. O deus, que nunca mediu distância para obter o que queria, transformou-se em águia (apenas mais um dos seus ardis), sequestrou o rapaz e com a sem-cerimônia dos deuses da antiguidade levou a cabo seus desejos pouco divinos ainda em pleno voo. Como prêmio (?) Ganimedes foi posto a serviço dos deuses no Olimpo e depois imortalizado como uma das luas de Júpiter.

Um belo tema para os poetas, mas essa relação entre pessoas do mesmo sexo na maior parte do tempo não foi bem aceita pelos grupos sociais.

Uma coisa é certa: a prática sempre existiu, sendo tolerada, ridicularizada ou perseguida dependendo do local e do momento histórico específico. No Brasil de hoje, um homossexual é assassinado a cada 16 horas, segundo dados da organização dos Direitos Humanos. Sem contar os casos de agressão, ameaças e discriminação econômica, familiar, suicídios e bulling. Muito dessa intolerância deve-se ao silêncio cúmplice ou ao discurso intolerante que prevalece nas diversas confissões religiosas. Alguns religiosos esquecem os princípios éticos e de amor que invariavelmente estão presentes nas bases fundantes das religiões e assumem um discurso absolutamente excludente.

Vejo agora, nas notícias da semana, que o Papa Francisco deu seu aval à decisão do Vaticano que classifica a homossexualidade como pecado e proíbe a união gay, ou, pelo menos, a bênção sobre esse tipo de relacionamento. Causa estranheza esse retrocesso porque no ano passado Francisco havia feito uma declaração forte, defendendo que casais homoafetivos fossem protegidos por leis de união civil. Essa declaração do papa sinalizava um avanço na postura da Igreja com relação a tema tão delicado. “Pessoas homossexuais tem o direito de estar em família. Elas são filhas de Deus e têm direito a uma família”, foram, na ocasião, suas palavras.

Na prática, essas decisões pouca diferença fazem, já que os casais continuam se formando com ou sem as bênçãos da Igreja, e já não há quase ninguém no escuro do armário. Ao contrário: os LGBTs estão nas ruas, no trabalho, nos shoppings, em todas as instâncias, ocupando o noticiário, conquistando os espaços e obtendo evidência. Tudo isso quando temos um Presidente da República que afirma com crueldade que “quando seu filho começa a ficar assim, meio gayzinho, é só dar um pau nele que resolve”, o que só estimula ainda mais a discriminação e a violência. Nada a estranhar vindo de quem desacredita a vacina contra a Covid.

Deveria ser senso comum que colocássemos o amor e suas implicações – compreensão, benevolência, tolerância e fraternidade – como prática fundamental de nossas vivências. Devemos estar abertos ao conhecimento científico e seguir passo a passo o progresso. E se a ciência já afirmou que homossexualidade não é vício, não é opção, não é doença, porque deveríamos nos colocar claramente na contramão do conhecimento científico?

Vamos por de lado a nossa pedra como ensinava Jesus, e tratar de compreender melhor sobre o que estamos falando. E ouvir Chico Xavier, que em 1971, no programa Pinga Fogo, já nos convidava à reflexão: “Se as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na tactividade com que as mãos executam trabalhos manuais, nos pés, se todas essas potências foram dadas ao homem para a educação, para o rendimento no bem, em nome de Deus, seria o sexo em suas várias manifestações sentenciado às trevas?”.

NATAL/RN

2 Pessoas comentaram
Terezinha Tomaz

Muito bom. O importante é amar as pessoas.

Aécio Medeiros

A pessoa homossexual não escolheu ser assim, ja nasceu sendo e usando seu livre arbítrio pode fazer o que quiser do seu corpo desde que não invada a privacidade e o respeito do próximo. Qualquer forma de amar valerá , homo ou heterossexual.

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