Poucas & Boas

Valério Mesquita ([email protected])

01) No Palácio Potengi dos anos 50/57/58, pontificava a figura de Antônio Soares Filho, chefe do Gabinete Civil. Bom papo, o saudoso Toinho mandou mobiliar uma sala que estava vazia, só para os papos de fim de expediente com as grandes figuras da paróquia, onde rolavam as novidades políticas. Até Dinarte, quando encerrava os despachos, aparecia por lá. Numa das vezes, o governador recomendou a Antônio Soares para encaminhar um rapaz ao dr. José Nilson de Sá, diretor do DER, recomendando-o o emprego de desenhista. No DER, quando soube da chegada do rapaz, Zé Nilson, já desconfiado, resmungava: “Eu não sei por que Dinarte botou na cabeça sempre a vaga de desenhista! Olha, manda esse rapaz desenhar uma boeira, uma ponte, um tubulão”. Após alguns instantes, a secretária retornou com o diagnóstico: “Dr. Zé Nilson, o rapaz não desenha coisa nenhuma!”. “Suspenda, que eu vou falar com o governador”, respondeu o diretor. À noite, na casa de Aldo Medeiros, nem precisou Zé Nilson provocar o assunto, pois Dinarte foi logo indagando: “Zé Nilson, você recebeu hoje um rapaz, filho dum compadre meu?”. “Recebi, governador. Mas o rapaz não sabe desenhar absolutamente nada?”. “Ô Zé Nilson, ensina… Ensina que ele aprende!!”. 

02) Quem não se lembra da passagem do mestre Nilson Patriota, escritor, imortal da Academia de Letras, pelos caminhos tortuosos e torturantes da política? Como jornalista dirigiu o “Correio do Povo”, o jornal de Dinarte na política de alta tensão dos anos 60. O primeiro fato aconteceu na momentosa vinda de Jânio Quadros a Natal. Palanque armado na antiga Praça Pio X, hoje Catedral, sol a pino, calor de 40 graus, Jânio de pileque, discursava entre Dinarte e Aluízio, rompidíssimos politicamente. De momento, num arroubo histriônico, Jânio perdeu o equilíbrio e ameaçou despencar de cara no meio do povão. Como um raio, vigilante como um Samurai, Nilson Patriota o agarrou pela barriga, salvando-o de uma queda monumental e desastrosa.

03) Anos depois, o nosso Patriota estava deputado na Assembleia, quando chegou o édito imperial da Revolução de Março para cassar o mandato do deputado João Aureliano, o famoso Coleguinha. Nessa época, a Assembleia Legislativa tinha 40 parlamentares. À sessão para a leitura em plenário do pedido de cassação, no horário do expediente, compareceram 28 deputados além de coronéis, capitães, etc., que ornamentaram a galeria. Quando se esperava a unanimidade, o deputado Nilson Patriota pede a palavra para encaminhar a votação e se dirige a tribuna. Num ponderado mais incisivo discurso, foi o único parlamentar a discordar do pedido revolucionário: “Cassar Coleguinha, por quê? Não desejo ver sair daqui algemado num camburão um companheiro nosso e nem admito votação secreta!”. Nilson, em sua coragem e destemor, foi acompanhado no voto pelo deputado Francisco Seráfico Dantas, mas derrotado no placar. Coleguinha fugiu de Natal para não ser preso, mas ficou aqui o exemplo da bravura de Patriota. 

04) De outra feita, em pleno período do arbítrio, chega de Recife o capitão Lacerda com ordens do 4º Exército para prender o prefeito Djalma Maranhão e o vice Luiz Gonzaga dos Santos, o Luiz Tabacão. Com uma botinada abriu a porta do Poder Legislativo e interrogou: “Onde está o vice-prefeito?”. Entre os assustados presentes, pelo inesperado da cena, estava o jornalista Leonardo Bezerra que polidamente explicou: “Aqui é a Assembleia Legislativa. A Câmara Municipal fica na Ribeira, esquina com o Banco do Brasil”. A Assembleia funcionava à época, num prédio da Praça André de Albuquerque. Não precisa dizer que lá embaixo, diante dessa “insustentável leveza de ser” o pobre Luiz Tabacão não ofereceu nenhuma resistência.

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