Os Pregões de ruas da Natal do meu tempo

Vendedo, com seu taboleiro de geléia

           Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Folclorista e escritor

Os vendedores ambulantes fazem parte de estudos da nossa ‘folk comunicação’, sabiamente embebida na cultura popular. Sabe-se que, historicamente, muitos escravos assim que foram ‘libertados’ em 1888, como forma de sobrevivência, tiveram que sair às ruas anunciando mercadorias em seus tabuleiros nas cabeças ou cestas nos braços: “… Fruta boaaa… Vai chegandoo, novinhaa meu sinhôôô… docinhoo quentinhoo prá comêê, me compra Iôô, me compraa Iaiáá…”. Assim, aprendemos a ‘vender cantando’ com o negro criativo e não com o considerado ‘colonizador branco’…

  Nosso mestre Câmara Cascudo, com sua visão futurista, estudou tudo e dedica um verbete em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”: “Os pregões de rua são vozes ou pequenas melodias com que os vendedores ambulantes anunciam a sua mercadoria. São conhecidos no mundo inteiro e em todos os tempos. Podemos dividi-los em duas categorias: os individuais, em que o vendedor escolhe uma maneira de apregoar, valendo-se muitas vezes de melodias conhecidas, de emboladas, modinhas, maxixes, sambas e até mesmo de árias vulgarizadas, e os genéricos, que são utilizados por todos os vendedores do mesmo artigo como os vassoreiros e compradores de garrafas vazias…”.

         Outros estudiosos do nosso folclore já escreveram a respeito dos pregões populares de rua, entre eles, destacamos Théo Brandão, o qual apresenta a temática sobre os “Os Pregões de Trem”. E o Nelson Rossi, com o seu – “Pregão nas feiras Baianas”. Já o estudioso da música popular, José Ramos Tinhorão observou os seus cânticos em um belo texto intitulado de – “Os Sons que vêm da Rua”. O saudoso amigo e folclorista Mário Souto Maior relembrou o seu passado em seu texto evocativo: – “Pregões do Recife Antigo”. Como quase todo memorialista, o velho Mário também reclamava do progresso ambulante de rua no final de sua vida: “Os pregões de hoje têm sons próprios: a trombeta é do vendedor de picolé, a sineta é do pipoqueiro, a gaitinha é do vendedor de cuscuz…”. Nada da melodia característica e humor dos antigos vendedores de porta em porta nas ruas do nosso tempo infantil!

Hoje, quero apenas recordar alguns dos destacados vendedores da querida Avenida 1, rua da feira do bairro do Alecrim, na qual vivi grande parte de minha vida. Começo relembrando o desespero financeiro de minha saudosa mãe, dona Estela, uma pobre dona de casa, para atender a fome por baganas de seus sete filhos. Os gritos passavam bem em nossa porta, ou melhor, cantarolados como “marketing” de venda. Fosse picolé, pipoca, algodão doce, pirulito, arroz doce, cocada, geléia de côco, rolete de cana, cuscuz, tapioca, raiva, alfenim, bolo preto, mangaba, cocada, mugunzá, sequilhos, grudes ou outras deliciosas guloseimas. Tempo feliz sem o conhecimento dos atuais colesterol e glicose.

Vendedor de geléia de côco

Até as redes eram vendidas aos gritos: Redeeee boooa pra dormirrr! Só quem não dava seu grito de guerra comercial era o vendedor de cavaco chinês. Para anunciar seu produto a meninada só precisava ouvir o zoar  já conhecido do toque de seu triângulo. O vendedor de vassourão, vassoura e espanador, usava esta melodia: “Vassouraaa, vassourãooo e espanadôô, quem vai querêê… Vassouraaaa… Vamos comprááá, é de piaçááá/ vassouraaa feita pra não se acabááá”. Não me esqueço de um senhor de estatura baixa, bem escuro, que gostava de andar vestido de branco, usava óculos fundo de garrafa e carregava nas costas um grande depósito arredondado de zinco, com a tampa de madeira para guardar as suas gostosas “raivas”, chamando-as com som estridente e repetitivo: “Olhe a alegria, alegria, alegria… Vai passando a alegria, alegria, alegria… quero todo mundo com alegria, raiva nãooo”. Esse marcou tanto a sua mercadoria que ganhou dos meninos do meu tempo o apelido de – ‘Seu Alegria’.

Vendedor de redes

Lembro-me muito bem do negro alto que era conhecido por ‘Cambraia’, com seu estilo muito pessoal e característico de seu vozeirão, chamava a atenção de toda a rua: ‘Diário de Nataaal’. Dava um ‘susto’ danado com seu grito em muitas crianças, como eu, que por acaso estivesse brincando ainda nas calçadas silenciosas: “Vão dormir que lá vem o negro Cambraia”. Existiu ainda uma negra “Baiana” que saia cantarolando a fruta disponível em seu tabuleiro na cabeça, com um vozeirão, sem necessidade de amplificador por mais potente que tivesse no mundo: “Olhe a mangabaaa, mangabaaa, mangabaaaa. Minha senhora, olhe o cajúúú, siriguelaaa, cajááá, mangaaa espada e mangaaa rosa, jaboticabaaaa, é novinha e tirada do péee… vai passando a mangabaaa boa pra seu ‘refrescooo’…”.

          Neste rol ainda tinha o velho e magro vendedor de mungunzá, com sua técnica de pregão humorístico, chamava de imediato a atenção de todo o Bairro do Alecrim, com este canto: “Tem coco, cachorro mijou dentro, tem coco, é saboroso, tá acabando e não vendo fiadoo…”. Em pouco tempo, seus dois caldeirões cheios, carregados em um pau/galão de madeira nos ombros, voltava vazio para sua casa que ficava no bairro de Lagoa Seca.

O vendedor de Cavaco Chinês, era conhecido pelo toque do seu triângulo

Tivemos também o engraçado seu ‘Raimundo das bugigangas’, o qual trazia toda a mercadoria pendurada no pescoço, braços, mãos ou no camisão de brim azul de vários bolsos. Não sei como levava tudo aquilo consigo: agulhas, correias de máquina de costura, caneta bic, saboneteira, pente, escova de dente, espelhinho redondo, entre outras dezenas de produtos para oferecer com humor de seu vozeirão: “Olhe o alfinete para segurar as pregas/ agulha de mão para cozer as cuecas samba canção do seu marido/ correia de máquina de costura para não viver pedindo emprestado a da sua vizinha/ lápis comum e caneta esferográfica para anotar o fiado da bodega/ cartilha de abecê pra não de burro morrê/ serrinha prá serrar as pontas… eu disse das unhas, minha senhora/ carretel de linha da boa e barata /dedal pra evitá furá o seu dedo de princesa/elástico para não cair a calçola… a comadre gosta mais do grosso ou do fino? Gilete pra tirá a barba do seu marido que ta parecendo um bode/ pente fino prá acabá piolhos de sua cabeça, mulher/ Broche prá cabelo/ enfiadeira de sapato preto ou marrom/ compre o canivete, mas na raiva não vá matar seu marido!…”. Diante da variedade e de sua graça, minha saudosa genitora dona Estela costumeiramente era sua freguesa. Fui testemunha ocular de suas boas risadas antes de pagá-lo. Mas tinha morador que desaprovava as brincadeiras um tanto picantes deste ‘armarinho’ ambulante.

Acabaram-se os saudosos e cantarolados pregões. E o que se vê nos dias atuais são os automóveis das frutas ou do ovo, acoplados de som, sem graça e calor humano. Do tipo: “Éééé picolééé é de Caicóóó”. “Chegando o carro da fruta!”. “Olhe a água mineral em sua porta…”. “Passando o carro do ovo em sua rua”. Hoje, compramos tudo pela internet, face ou zap. Só penso nas crianças que não tiverem o privilégio de conversar com os vendedores ou ouvir seus cânticos de vendas de suas mercadorias. Eles, sempre sorridentes, engraçados e gentis, até nos davam o produto gratuitamente, se nossas mães os enjeitassem por falta de dinheiro na ocasião: ”Eu não vou deixar o seu menino ficar na vontade e não comer minha cocada preta de rapadura. Dona Estela, a senhora paga quando tiver…”.

Picolé de Caicó

E atualmente, infelizmente só estamos vendo o tão recente passado só mesmo em museus ou graças aos relatos de poucos memorialistas e saudosistas de plantão. Amanhã é o dia da criançada e daqui mando um cheiro do vovô sessentão, para Maria Estela e João Rafael. Agora chega de saudades folclóricas!

                                                 Morada São Saruê, Nísia Floresta, 11/10/2020.

3 Pessoas comentaram
Chagas

Boas memórias. Parabéns

Crisolita THE Bonifacio

Adorei reviver tudo isso! Alcancei, quando criança, muito dessas ofertas. Uma das quais mais me marcou foi a venda do pirulito. Me criei na Av Deodoro e sempre após o almoço aguardava, com alegria, a passagem do.pirulito.

Antonio Navarro

São tantas lembranças, lendo o artigo. Me lembrou os vendedores ‘a prestação’ , estes sobrevivem até hoje vendendo de porta em porta uma série de utilidades domésticas, cadeiras de balanço, tamborete, brinquedos, cama, mesa, banho… Fazendo a alegria do povo simples dos nossos rincões!
Parabéns pela crônica!

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