Os cachorros e eu

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Pertenço a terceira geração de uma família que jamais criou gatos ou cachorros, costume que se perpetuou até o nascimento da minha sobrinha, na década de 90. Não se sabe explicar de onde surgiu a ideia de ela criar um cachorro. O fato é que por se tratar da única criança da família, todos os seus desejos possíveis, eram realizados e assim chegou em nossa casa o primeiro cachorro, para atender à solicitação da menina dos nossos olhos.

O cachorrinho não tinha raça pura ou pedigree. Era uma mistura de Pequinês com vira-lata e encheu nossa casa e nossa vida de muita alegria. Ele era um cãozinho esperto, brincalhão e profundamente fiel. Eu já ouvira falar sobre a fidelidade de cão, mas jamais imaginei o quanto fiel e companheiro pode ser um cachorrinho. Ele logo recebeu o nome de Guga e passou a morar na minha casa, porque minha sobrinha não podia cria-lo em um apartamento.

Guga conquistou a todos e viveu conosco durante 19 anos, período que modificou toda a resistência que eu tinha construído sobre criar um cachorro. O dia em que ele partiu foi doloroso demais e decidimos não mais criar outros cãozinhos para evitar o sofrimento da partida.

Mas logo descobrimos que a vida pode ser muito insípida e desprovida de alegria sem a presença de um cachorro. Mas, logo a minha sobrinha, já bastante crescida, solucionou o problema nos presenteando com um cachorrinho da raça Cocker Spaniel, ao qual ela deu o nome de Juca.

O cão da raça Cocker Spaniel é dócil, gentil, obediente e bonito. O nosso tinha uma pelagem preta e um latido tão forte, que amedrontava a todos os desconhecidos, mesmo sendo um cachorrinho dócil. Mas ele nasceu marcado com o vírus de uma doença mortal para cães, conforme explicou o primeiro veterinário que o examinou.

Ele tinha Leishmaniose canina, uma infecção parasitária, que segundo o veterinário, é causada por protozoários que atacam o sistema imunológico do animal. Mas ele também afirmou que Juca poderia conviver muito bem com a doença, desde que tomasse uma medicação diariamente. E assim aconteceu. Jamais esquecemos de dar seu remédio, para que a doença não se revelasse.

Um certo dia, porém, quando Juca já contava com 15 anos, começou a sangrar pelo nariz sem qualquer razão aparente. Imediatamente foi levado a um hospital veterinário, onde recebemos a sentença que nos destroçou: a Leishmaniose se desenvolvera e Juca estava condenado.

De acordo com os veterinários do hospital, a única alternativa era sacrificá-lo, porque a tal doença não tem cura e ainda tem um agravante: ela faz o cachorro sofrer demais e pode atingir os humanos, matando-os em 24 horas.

No nosso caso, a situação era bastante delicada porque tenho uma idosa doente em casa. Além disso, de acordo com os veterinários, a doença poderia se espalhar pelo quarteirão do meu bairro e nós termos que responder judicialmente pelo fato.

Caberia a mim a responsabilidade de abreviar o sofrimento do animalzinho, ou deixá-lo sofrer até que o anjo da morte viesse buscá-lo e colocar fim ao sofrimento que o dominava. Eu já não tinha forças para vê-lo definhar a cada visita que fazia ao hospital. Então, depois de muito refletir, decidi assinar a documentação autorizando sua eutanásia, mas confesso que esta foi a decisão mais difícil que já tomei em toda a minha vida.

Minha dor e meu remorso pela decisão foram tão grande que, como católica consciente de que não posso tirar a vida de um ser que Deus colocou no mundo, fui me confessar. Recebi absolvição, porque na visão do meu mentor espiritual, eu pratiquei um gesto de caridade, já que não havia salvação para o cãozinho. Além disso, eu ainda pratiquei um gesto de cuidado e zelo com os humanos ao redor dele. Especialmente para com a minha mãe, que já está bastante idosa.

Depois dessa experiência tomei a decisão de jamais voltar a criar outro bichinho de estimação, porque eles têm vida curta e sua partida se transforma em grande sofrimento para nós. Depois da partida de Juca, cachorros na minha vida, só mesmo aqueles de dois pés terão espaço.

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