O SINO DA MATRIZ

julho 14, 2024

Valério Mesquita – Escritor (mesquita.

Valério Mesquita - Escritor (mesquita.valerio@gmail.com)

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba possuía um sino antigo, fincado na fachada superior do templo, que durante muitos anos se constituiu no cartão postal da cidade. O seu som dolente e pungente reunia os católicos de perto e da distância. As badaladas da Ave Maria, às 18 horas, envolvia de contrição e respeito toda urbe cristã, tal a magnitude do toque, a severidade do timbre do bronze que conferia à sagrada construção de 1882, uma visão mística a quem se postasse de frente.

Na santa missa, durante a elevação do cálice, a sonorização propagava ondas potentes e magnéticas que faziam os ausentes se benzerem. Ainda repercute nas ruas e nos caminhos o dobre de finados, executado com tanta perfeição que mais parecia uma música eletrônica saída do órgão celestial de um campanário rogando acolhida, como uma prece, pela alma do falecido. O toque do sino imprimia fé e dignidade cristã ao cortejo fúnebre pelas ruas de Macaíba.

Foto Ilustrativa - Banco de imagens Argosfoto / Image Bank Argosfoto



Nas catedrais e igrejas do mundo inteiro, os sinos sempre exerceram um papel evangelizador invisível, porque mítico, e mágico, pois só o catolicismo o utiliza como símbolo e marca registrada de sua fé.

De um tempo para cá (há mais de 30 anos), a sonoridade forte do velho sino emudeceu. Por que parou, parou por quê? Perguntam-se os paroquianos.

Sobre o fato, rolam muitas histórias. Uma delas cômica. Num candente toque de finados a corda enroscou-se na perna do sacristão, o saudoso Adelino Moreira, quase o arremessando janela abaixo, tal a força e o peso do instrumento.

O padre Alcides Pereira teria decretado a aposentadoria do sino e fechou a janela de cobogó para ele não dobrar mais. O fato é que não se ouviu mais o austero sino da Matriz. Ouvi, ultimamente, o som do atual. Achei-o diminuto e agudo. Não se coaduna com a dimensão do templo de mais de 140 anos de idade. O som é roufenho, fraco como se o bronze tivesse contraído sinusite.

Com essa dúvida, certa vez, procurei a secretária paroquial, Jalva Pereira dos Santos, que me informou que o sino é o mesmo. Ele foi restaurado na Base Naval de Natal porque apresentava uma rachadura. O lamento que faço é porque morreu o som personalíssimo e forte de antigamente. Envelhecido por tantas canções de louvor e contrição, além de cirurgiado, o sino da Matriz perdeu a voz. As suas “cordas vocais” se debilitaram e já não emite o mesmo sinal, a mesma bênção, a mesma mensagem cifrada do seu som característico. Apenas, hoje, escuto o eco intermitente como se fosse o suave barulho das renováveis ondas do mar. 

Uma resposta para “O SINO DA MATRIZ”

  1. Elza Maria Freire disse:

    O padre deve ter surtado. O sino não fazia mal a ninguém.. Ele é nascido em Lagoa Salgada que à época era distrito de São José de Mipibu, mas não chegou a ser pároco em Mipibu, até aonde eu sei. Senão … O que poderia ter sido de nós, mipibuense, sem o belo badalar sonoro e marcante dos preciosos sinos da nossa bela Igreja Matriz de São José de Mipibu , e que nos acompanham desde a infância?