Ô saudade da gota (X)

Rosemilton Silva – Jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Homi, pense numa saudade da bixiga taboca é ver o sol ir se escondendo devagarzinho por trás da serra, coisa que ele faz com uma velocidade que a gente nem espera e quando vê ele já se foi deixando um fiapo de luz nostálgico – arra!!! – que o só o por do sol sabe fazer com maestria – minino, é hoje que tem poesia pelo andar do carro de boi e seu cantar lindo, prolongado numa pequena variação de tom mas sem perder a classe nem abusar do ouvido alheio, o que não deixa de ser um aboio lento e gemido não reclamante.

E tudo isso está ligado a proximidade do Natal que mexe com a natureza até do coitado do peru que não tem nada a ver com a história de Belém. E aí a saudade começa a ver luzes que lembram vagalumes nos tempos de inverno piscando em árvores ou pequenos vôos mas parecendo lapinhas enfeitadas alumiadas a luz de vela ou da energia do motor que ronca bravamente pra colorir nossa imaginação no caminhar lento como o dia que se vai embora mesmo que haja quem reclame da velocidade do tempo.

E vem até aquela recordação da pressa em se arrumar pra escola mesmo que já se saiba que as aulas foram encerradas, provas revisadas, boletins entregues e o orgulho dos pais de ver as notas azuis ou a tristeza de saber que foram vermelhas. Ah, mas são poucos, muito poucos aqueles que não conseguiram passar de ano.

Apois num é que o peito sente o alívio de escutar vozes atravessando telhados, portas e janelas, risos soltos e abundantes anunciando o fim do dia enquanto pratos, xícaras, talheres, travessas vão sendo postos sem afobação para o anúncio e chamado de que o jantar já está pronto embora o nariz já tenha sentido o cheiro gostoso da comida que se mistura ao sabor dos pratos preferidos, feitos com carinho e degustado com avidez, mas sem pressa. A proximidade do Natal não impõe pressa, nem mesmo na hora de recolher as cadeiras da calçada.

Ah, a calçada! Quem não sente um pouquinho de inveja e nostalgia das brincadeiras infantis e das conversas de adultos que não se misturavam? As vésperas do Natal, a brincadeira vai tomando conta, mas o cochicho corre solto. Cada um repete milhares de vezes o que espera de Papai Noel enquanto os adultos discutem preços e onde encontrar determinados mimos para serem servidos na ceia do Natal do Senhor!

De longe se ouve a cantoria do Boi de Reis e do Pastoril ou Lapinha como alguns chamam. Os festejos natalinos dão um colorido especial a pequena cidade e as pessoas se amam mais que normalmente elas demonstram ao longo de tudo já que todos se conhecem e as rixas são pequenas nem são percebidas no dia a dia.

Apois me dê uma licencinha mode eu ir ali na bodega pegar uma nesga de fumo de Arapiraca pra fazê um rapé e uma quarta de açúcar e outa de café pra torrá na rapadura boró.

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