O DIABO NA TERRA DO SOL

                                                                     

NILO EMERENCIANO –  Arquiteto, escritor e articulista.                                                                     

Será que o diabo existe e é mau como o pintam? Chupa manga? Ou será tudo apenas fruto da crendice e invenção dos povos primitivos?  

Em pleno século XXI em que, tal como na Idade Média, somos assolados por uma terrível pandemia que mata centena de milhares de pessoas, é possível que alguns atribuam ao tinhoso a culpa pelo mal? O Coronavírus terá sido planejado na antessala do inferno? Teremos que, além de tomarmos a vacina, gritar em alto e bom som: xô, satanás?  

O diabo chegou ao Brasil trazido pelos europeus com toda pompa e circunstância. De barba, catinga de enxofre, pés de bode, rabo e chifres. E um tridente a guisa de cetro. Aqui ganhou capa preta, corcova, passou a tocar viola e frequentar forrós. Acompanhou-se de boêmios, prostitutas e ladrões. Passou a tomar cachaça. Mas achou dura concorrência. É que na terra já se lidava com entidades mais ingênuas: Juruparis, Caiporas e Sacis, capetinhas que não brigam com Deus e ainda protegem plantas e animais. O diabo então, velho e esperto, como forma de sobreviver, se adaptou aos costumes locais. Até porque surgia mais um fortíssimo rival vindo da África junto com os escravos: Exu. O antigo Lúcifer perdeu de vez a pompa. Sofreu uma crise de identidade. Passou a ser subornado por um pouco de comida e uma cachacinha deixada nas encruzilhadas. Ganhou diversos apelidos: Exu-caveira, Arranca- toco, Sete Encruza, Capeta, Coisa-ruim, Tinhoso, Rabudo, Chifrudo, Zé Cotó. Teve até que aguentar a convivência difícil do valente capitão Virgulino, vulgo Lampião, que chegou no inferno quebrando todos os protocolos.  

Quando, depois de desmoralizado e despachado nas encruzilhadas, Satã achou que ia sossegar em uma pacata aposentadoria, veio a televisão. Sua humilhação tornou-se espetáculo de TV. Belzebu passou a ser enxotado por qualquer tele evangélico, longe dos longos exorcismos da Idade Média, quando ainda o temiam.  

Podre diabo. Além da queda, coice. Em poucos milênios passou de favorito de Deus a saco de pancadas no Brasil.  

E depois, o que mais vai acontecer?  

Lê-se nos evangelhos que no fim, o mal vai ser separado do bem e satã vai confessar seus erros e arrepender-se. Será o fim do mal no mundo. Vencido e desmoralizado, o diabo faz uma autocrítica e se converte. É a rendição final.

 O Juízo Final, D’ Beato Fra Angelico (Galeria Nacional, Roma)

Allan Kardec tem a seguinte explicação: “Satanás é evidentemente a personificação do mal sob forma alegórica, visto não poder se admitir que exista um ser mau a lutar, como de potência a potência, com a divindade”.  

Aí está. Respiremos aliviados. O bom e velho diabo não passa de criação dos homens.  

Melhor deixá-lo de lado e cuidar dos diabinhos das nossas deficiências morais, muito mais vivas, perigosas e recalcitrantes.  

E atentar para alguns personagens que se travestem de demônios para infernizar as nossas vidas, ocupando algumas vezes os cargos mais altos de onde podem, usando os longos e afiados tridentes do poder, causar a todos nós males dramáticos, profundos e duradouros. Com esses devemos ser duros e taxativos: Xô, satanás!!!  

Natal / RN  

4 Pessoas comentaram
Gutenberg Costa

Parabéns ao mestre cronista. Arquiteta as letras com o coração.Descreveu o diabo a quatro e o mandou para o quinto dos infernos, com maestria!

Terezinha Tomaz

Muito cuidado com os personagens do poder.

Aécio Medeiros

Em Brasília tem diabos que não
acabam mais.

Elizabete

Muito inteligente a forma de nos alertar sobre o diabo e suas adaptações sobre a terra!! Parabéns!!

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