NOVILÍNGUA

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

No livro 1984, de George Orwel, o regime implanta uma língua nova, a novilíngua, com a finalidade de manipular fatos e controlar o pensamento dos cidadãos. Guimarães Rosa, em Grande Sertão, cria belos neologismos, como por exemplo, Riobaldo, ao ver o corpo nu de Diadorim, se perguntando: Será que amereci pouco?

A verdade é que a língua é um elemento vivo e me compraz acompanhar essas transformações, esses elementos novos que são rapidamente incorporados ao linguajar coloquial e muito depois chegam aos dicionários. Uma frase que há anos diríamos assim:

Neguinha, precisamos conversar sobre nosso rolo, pois acho que já deu e é hora de um de nós dar um fim a tudo isso, sacou?

Hoje, atualizada, seria, talvez:

– Minha afrodescendentezinha, vamos fazer uma DR, pois vejo que já deu e o lance é vazar. Entendeu, ou quer que desenhe?

E não vamos lutar contra isso. Lembremos que nós falamos – e os mais velhos faziam cara feia – brasa mora, garota papo firme, carango, barra limpa, é isso aí, falou e disse. Nunca me passou pela cabeça chamar o velho ônibus número 1, da empresa Sena, de busão. Sucata, lata velha, talvez. Mas confesso que estou desatualizado. O que me chega é através de meus filhos, mas até eles já passaram da fase de usar gírias novas.

Recebi a solicitação de um texto assim: letras Time, tamanho 12, espaço simples, justificado. Ri comigo mesmo, pois sou do tempo de uma lauda ou lauda e meia.

Sinto muita falta da velha e boa correspondência. Nada como receber cartas, saber das novidades, matar saudades. Inimaginável, hoje. A não ser notificações de algum tipo. Minha caixa de correio está criando teias de aranha. Nem cobranças chegam, pois são todas feitas por e-mails. Acho que nem os entregadores as levam a sério, pois jogam pelas brechas do portão os folders dos supermercados. Meu pai era telegrafista da Western, e uma das funções das atendentes era orientar os clientes a redigirem as mensagens economizando nas palavras. Aquilo fazia dos telegramas um modelo de concisão. Mas francamente, acho que estão exagerando.

Modelo de um telegrama

Não consegui entender ainda o que danado é crush, porque o ótimo refrigerante de laranjada em garrafa escura há muito saiu de circulação. Mas quando uma amiga me diz que o seu crush é bolsominion, desconfio que seja um paquera (ainda se fala paquera?) eleitor do nosso atual presidente. Crush será mais que flerte e menos que ficante? Dancei ao som de Renato e Seus Blue Caps em “assustados”, bebendo inocentes doses de “leite de onça”. Nem passava pela minha cabeça baladas e red bull.

As gatinhas quando não estavam interessadas no rapaz diziam: “passando, abacaxi, que tomei leite”. E quando o guapo jovem agradava exclamavam, “ai, da base”! Frente a uma aglomeração logo se perguntava “morreu galego”? Em Mossoró, em uma boate dos anos setenta, uma moça de longe exclamou ao me ver: – Bichinho! E ainda em Mossoró se alguém “quebrava a cara” se dizia “rasgou a boca”, e para algo triste, “é de cortar coração”. O que hoje se fala “tiração de onda” era curtir com a cara, zonar, por aí. Bulling era encarnar, zoeirar. E havia o machismo sempre presente.

“Assustados”, nas casas dos amigos (as), bebendo inocentes doses de “leite de onça” e ouvindo as “paradas musicais”, do momento

Um amigo, a caminho da casa da namorada (pois é, havia namoros na casa da moça, sentados no sofá da sala), sempre parava na esquina onde estava a “patota”. E dizia  – Estou indo pra casa da carniça. Algum espírito de porco, que sempre há, achou de dedurar. E na noite seguinte o amigo chegou triste, se juntou ao grupo e lamentou: – Cheguei e ela gritou na lata: vá embora, negro urubu.

Repararam? Favela agora é comunidade. Quadrilhas são chamadas facções. Otário virou mané;  larápios, descuidistas e golpistas se tornaram 171 ou simplesmente ladrões. Se mortos, CPFs cancelados. Por falar nisso, políticos continuam… políticos.

Pois é. O tempo passou. Entramos em uma fria, pegamos um rabo de foguete, rasgamos a boca e estamos em uma muvuca de cortar o coração. Mas vamos usar as velhas interjeições, eia, sus,  upa, e sair chispando dessa sinuca de bico em que nos metemos. Preciso desenhar?

E como dizia meu pai usando uma gíria dos tempos de doze: michou e ai e pof!

NATAL/RN

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Aécio Medeiros.

Esse é um relato perfeito dos costumes da juventude das décadas dos anos 60 e 70. Eu vivi
todo esse tempo que foi uma verdadeira revolução da juventude.

Terezinha Tomaz

Os costumes vão mudando. Hoje é tudo conectado.

Angela

Sensacional. Realismo vivido por muitos e na maior curtição. É o natural, o ciclo que muda. O chato mesmo é que essa geração pensa que só ela é diferente e se acha a “última bolacha no pacote”.

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