Naquela mesa tá faltando Ela…

Vanda Franco – Professora e filha da homenageada

O título acima foi tomado da música do compositor Sérgio Bittencourt, “Naquela Mesa”, feita em homenagem ao seu pai, Jacob do Bandolim, após seu falecimento.

            Recorro à genialidade do autor na tentativa de imprimir no papel a imensurável dor que a ausência da minha mãe deixou ao desencarnar e se encantar, completando, assim, o ciclo natural da vida: nascer, viver e morrer, determinado por Deus.

            No percurso da sua vida, mamãe formou uma família numerosa. Teve dezoito filhos. Vivos, são treze. Nunca lamentava ou maldizia a vida. Destemida, tinha o trabalho como condição natural para superar as dificuldades. Sempre cultivou o hábito de, após as refeições, ficar na mesa conversando com os filhos, contando as histórias de suas experiências de vida marcadas de obstáculos, aparentemente, intransponíveis, para uma jovem órfã, morando no interior da Paraíba, nos limites do engenho de cana de açúcar, nos anos cinquenta.

            As histórias recheadas de episódios tristes e desconcertantes, soavam como aquelas histórias de heroínas de conto de fadas, que superavam todos os desafios e a todos venciam. Engrandecendo, nos filhos, a admiração, o orgulho e a confiança na mãe guerreira, “fortaleza”, que a nada temia. Mas, nas minhas memórias, hoje, ela estava mais para a princesa ARIADNA, da mitologia grega, que ajudou Teseu a se orientar no caminho do labirinto para matar Minotauro, o monstro que engolia gente. Assim como Ariadna, mamãe tinha o novelo nas mãos e sempre indicava-nos o início do fio, para que nós, os filhos, soubéssemos voltar quando perdidos nos labirintos da vida, nos dando afeto, carinho, compreensão e nos chamando à razão!

            Mas, o tempo, esse misterioso e silencioso fenômeno, impõe suas leis. Traça os contornos e muda as coisas na velocidade da luz. Os filhos casaram. A casa foi se esvaziando. Os ruídos das vozes dos filhos diminuíram. Então, ela percebeu que a mesa da sala de jantar estava vazia. Mudou a mesa para área de trás da casa. Colocou toalhas coloridas, bem próxima do jardim de flores, das plantas medicinais que cultivava. Em todas as tardes, se plantava ali, arrumada e perfumada, à espera dos filhos para o café da tarde. O aroma do café invadia toda casa. O pão quentinho. A tapioca, o cuscuz, a canjica, a pamonha e o pé de moleque. Não tardava, ia chegando um a um. E a mesa ficava completa.

            Conversas soltas, risos, falácias e fofocas. E entre uma xícara e outras, mamãe acompanhava o semblante de cada filho e filha. Ela cubava. Como sempre falava. E a intuição de mãe percebia quando não estavam bem. Raramente falhava. E não sossegava enquanto não descobria o drama que afligia a alma da filha ou do filho. Muitos não confessavam, nem agradeciam, mas saíam aliviados ou envaidecidos. Pois, sabiam que naquela mesa, havia um porto seguro para ancorar e direcionar o leme da vida. Poucos refletiam sobre seus conselhos carregados de sabedoria e aprendizados. Pois nem sempre ela falava o que eles queriam ouvir, mas o que era mais adequado para uma possível solução do problema. Assim, a rotina de todos os dias e todas as datas comemorativas.

            Mamãe continuava altiva, íntegra, dando conselhos aos filhos. Esquecendo às vezes de se aconselhar diante das ações impiedosas do tempo. A saúde fragilizou-se. Ela resistia. Não entendia as mudanças físicas, cognitivas e comportamentais que rapidamente foram ocorrendo de maneira avassaladora e incontrolável. Não conseguia mais coordenar o pensamento. Esquecia o que havia falado minutos antes. Não conseguia passar um áudio no celular para os filhos e netos. Os passos trôpegos, as mãos já não levavam a colher à boca. Diagnóstico vulcânico: tumor fronto-temporal esquerdo cerebral interno em progressão com rebaixamento do nível de consciência.

            A notícia caiu impiedosa e cruenta como labaredas cinzentas queimando minha alma, feito vulcão em erupção, depois de anos adormecido. Perguntei ao neurologista se era de minha mãe que ele estava falando. Sim. Infelizmente, respondeu ele. Daquele instante, minha mãe, em poucos dias, ficou prostrada numa cama, com tratamento paliativos, sem chance de cura. Fatal. Silenciou. E em pouco mais de dois meses, se encantou. Se foi. Desassossego, agonia, angústia tomaram minha alma e meu espírito. A saudade machucando feito ponta de punhal cortando a pele e sangrando meu coração.

            Ainda não voltei a sentar naquela mesa do quintal. Perdeu o encanto. A toalha descoloriu e as flores secaram. Os pássaros emudeceram. Devem ter voado acompanhando mamãe a caminho do paraíso. E, assim, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, fico me perguntando, repetindo seus versos:

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?

Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?

            Talvez, Deus se lembre de tirar nossas mães para nos salvar do nosso egoísmo, de nossa prepotência, da nossa soberba e vaidade.  Talvez para nos alertar que a vida na terra é efêmera, passageira, finita. E a morte serve para refletir sobre como estamos nos relacionando com nossa família, amigos, companheiros, com nossa comunidade. Como estamos cuidando de quem convive conosco. Sou leal, sou solidário, generoso, sincero? Eu respeito o outro? Sei fazer autocrítica? Sei pedir desculpas? Reconhecer meus erros? Já que não sabemos a hora que iremos partir, morrer. Por que não sermos mais autênticos e solidários com quem convivemos? Por que não valorizarmos o diálogo?

            Ah, minha mãe, aprendi muito com você. Principalmente a defender as verdades das coisas. O respeito e o amor. Obrigada pelos momentos inesquecíveis que vivemos. Especialmente das nossas gargalhadas relembrando os causos ocorridos nas feiras das manhãs dos sábados.

            Naquela mesa está faltando ela e a saudade dela está doendo em mim.

De uma filha saudosa!

6 Pessoas comentaram
Ana Tereza

Que linda e merecida homenagem.
D. Maria era uma mulher admirável!
Tomei conhecimento lendo a homenagem de Vanda a D. Maria.
Fiquei muito triste por seu falecimento.
Gostava e admirava muito D. Maria.
Que Deus a receba em um bom lugar: O lugar dos justos.
Meus sentimentos aos filhos.
Na palavra mãe cabe todo amor, aliás cabe o infinito…as mães nunca deveriam morrer…é verdade!
Tereza Barbalho

Leo Franco

Que lindo texto, me emocionou muito.

Didi Avelino

Wanda, mesmo doendo, machucando, como é bom deixar o coração falar daquilo que é caro pra nós.
Parabéns pelo belo texto, por abordar uma temática tão sublime e significativa para nossos corações: MÃE.
Como não comover-se com descrição tão perfeita, e coincidente , dessa maravilhosa mâe que representa tão bem às nossas.
Luz, paz e felicidade espiritual para sua mãezinha na Celestial Morada.

Didi Avelino

Wanda, mesmo doendo, machucando, como é bom deixar o coração falar daquilo que é caro pra nós.
Parabéns pelo belo texto, por abordar uma temática tão sublime e significativa para nossos corações: MÃE.
Como não comover-se com descrição tão perfeita, e coincidente , dessa maravilhosa mâe que representa tão bem às nossas.
Luz, paz e felicidade espiritual para sua mãezinha na Celestial Morada.

Maria Cilene Silva Soares

Minha amiga que linda homenagem, acredito que ñ foi fácil rever essas fotos de D.Maria, mas Deus sabe de todas as coisas, e ñ deixaria um ser humano tão bom, sofrer muito,que ela descanse em paz!

Viviane Franco Olveira Faustino

Que linda homenagem.
Passou um filme nos meus pensamentos.
Que saudades vovó 😢
A senhora sempre será lembrada e estará sempre no meu coração.
Aprendi muito com seus conselhos.Meus filhos tem muito orgulho da bisavó que a senhora foi.
Descanse em paz ao lado do pai eterno.

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