Lembranças de meus antigos alfaiates

Foto Ilustração

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor e Folclorista.

           Um leitor dessas minhas besteiras domingueiras, recentemente, me indagou, provocando-me e indagando-me, se eu tive algum alfaiate quando jovem e se ainda o tinha no rol de minhas lembranças?

Gutenberg Costa com um de seus ternos, confeccionado por alfaiate

E aí voltei ao tempo, e estou relembrando, quando precisei de serviços de um alfaiate pela primeira vez. Meu primeiro alfaiate foi o saudoso senhor de nome, ‘Sebastião’, que morava quase em frente à minha casa da rua da feira do Alecrim. Ele trabalhava em sua residência e consertou algumas de minhas camisas sociais e calças. Tentou muito, mas nunca conseguiu que eu aprendesse a dar o nó sozinho numa gravata. Então, eu as levava e ele pacientemente já deixava o laço pronto, esperando, eu só apertar no pescoço na hora em que precisasse colocar o velho e único paletó de cor bege.

            Cresci vendo minha mãe e minha duas irmãs indo em busca de consertos e confecções de seus vestidos, nas costureiras da região do bairro do Alecrim. Depois vi chegar uma máquina Singer de costura lá em casa. Bojo de madeira e o restante de ferro. E pedal com correia de couro. Tomava conta dela, minha mãe (Estela Medeiros) e uma irmã (Maria das Graças). Quando minha mãe se foi eu herdei a dita máquina, que está aqui na minha casa, bem guardada e funcionando, só que a espera de uma profissional. Já tenho uma costureira aqui em Nísia Floresta e outra em São José de Mipibu, para meus atendimentos.

Foto: Ilustração

Confesso que sou muito chato para roupas. Calças sociais têm que ser a moda antiga, camisas só com bolso, até para ir à praia. Nada de roupas riscadas ou desbotadas que me façam recordar o passado de menino pobre em que dona Estela, tinha que colocar minhas velhas calças azuis, dentro de um caldeirão com água fervente e uma bola de anil azul, para renová-las. Um milagre! E a cuja calça virava nova. Deixava de sair de casa até que minha santa genitora ‘remendasse’ um pequeno furinho numa calça, para a namoradinha nem desconfiar. Hoje, sofro e ando muito, para encontrar roupas adequadas ao meu gosto a moda antiga. Usei uns tempos suspensórios, mas, chamado de coisa de velho, deixei e estes, estão guardados.

            Bem, mas o assunto aqui é meus antigos alfaiates. Nos anos 90, fui algumas vezes ao saudoso alfaiate da Ribeira, ‘seu’ Laércio. Afamado no corte de roupas masculinas. Em 1993, fui a seu ponto, com o amigo fotógrafo Canindé Soares, que o retratou trabalhando com sua tesoura grande e afiada, em diversos ângulos. Depois o ingênuo Canindé, emprestou a uma pessoa, cerca de mais de quarenta fotografias de personalidades da Ribeira e nunca o recebeu de volta, o referido pacote histórico. E o Laércio foi junto. Papai já dizia, ‘quem empresta, nem pra si presta!’

Na Cidade Alta, edifício Barão do Rio Branco, ia sempre que precisava ajustar meus poucos ternos. Apertar quando emagrecia e folgar quando engordava, com ‘seu’ ‘Chiquinho’. Cobrava mais caro do que os outros, devido sua clientela de ricos, que o procurava. Duas salas, com luxo, café e clientes conversando. De políticos, médicos, advogados a juízes. Serviços de primeira qualidade. E, diga-se de passagem, de pobre e gaiato medito, só eu por lá…

Alfaiate Chiquinho

            No meu Alecrim, no finalzinho da Avenida 1, quase chegando à Base da Marinha, do lado direito do sol, trabalhou em seu ponto, o meu mais demorado alfaiate, conhecido como ‘Ebenézer’. Magrinho, branco de olhos azuis e grande prosador, que fez a maioria de minhas calças e camisas sociais. Lá mesmo, eu escolhia a cor e a qualidade dos tecidos. E o modelo que deseja para usar. Uns fregueses iam pessoalmente, como eu que ficava para conversas. Outros mandavam os pedidos através de seus motoristas ou empregadas. Outros iam quase às escondidas, por se tratar em um bairro populoso e o atelier do alfaiate, ser simples, sem atendentes e salão de espera ou ar condicionado. Mas ao saírem Ebenézer, me dizia em segredo: “Esse que saiu agora apressado é o doutor ‘Fulano de tal’. Esse é o juiz ‘Beltrano de tal’. Aquele é o médico, doutor ‘Sicrano de tal’”.

Alfaiate Ebenézer “fez incontáveis ternos e conjuntos de roupas para mim”

Cada alfaiate colocava a sua própria etiqueta nas roupas feitas, como marca pessoal de seus ateliês, como exclusividade de seus clientes. E o velho Ebenézer,  fez incontáveis ternos e conjuntos de roupas para mim. Este me ensinou combinar cores e usar determinadas roupas, para cada ocasião. Modelos de gravatas, meias e até sapatos. Ensinou-me que não precisava ser milionário, para se vestir elegantemente. A minha briga com o mesmo era muito pior do que a da cobra com o tijuassu. Eu o dizia para pechinchar: tá caro, me faça mais barato, não sou rico. E ele, rindo, me respondia: “Pelo que vejo até de graça, você ainda vai reclamar meu jovem!”.

E assim, cresci com o conselho de minha mãe, que todos os dias, dizia-me: “meu filho só saia de casa, bem limpo, perfumado e bem vestido!”. E diante dessa regra passei a vida inteira em traje social para trabalhar, causando até inveja a alguns chefes que tive na repartição em que trabalhei. Todo dia uma roupa diferente e mudando sempre de cores nos sapatos e nas meias. Tom sobre tom! Só aos sábados, bermudas e sandálias pretas de couro. Tanta roupa eu tinha, que foi preciso ao aposentar-me fazer doação de quase todas. O velho camiseiro nem cabia mais.

O saudoso compadre Celso da Silveira, quando me via chegar em sua casa, todo nos trinques, ria e profetizava, que eu ao me aposentar ia querer ficar trabalhando em casa, de bermudas e camisas de mangas curtas, com sandálias japonesas. E o sábio Celso, tinha total razão, pois parece que é na aposentadoria, não velhice, que surge mais forte o nosso gosto para só querer o simples e a liberdade, como marcas registradas, do nosso cotidiano.

Me recordo agora, das visitas surpresas, que fiz ao mestre pernambucano Mário Souto Maior e a preocupação, de sua esposa, dona Carmem: “Meu velho, vá mudar pelo menos de camisa, que Gutenberg é nossa visita agora…”. E o folclorista de Olinda, rindo para meu lado, me dava a maior lição de bem viver: “Carmem, Gutenberg Costa é de casa e ele já sabe, que essas minhas camisas já estão amansadas. São as que eu mais gosto e uso em casa!”.

Pensando nisso, minhas duas filhas, vivem me alertando todos os dias, que eu preciso mudar o meu ‘look’. E eu faço e vivo como o saudoso amigo Mário. Não sei que palavreado americanizado é esse, mas sei muito bem que não deixarei de usar de agora em diante, tudo já amansado na minha vida. Qualidade de vida e paz são, o suficiente para se viver muitíssimo bem na morada São Saruê, como denominei meu paraíso, onde tenho que destacar que não sou amigo do Rei. Sei que sou de feira e minhas filhas e netos, podem nem se lembrarem disto nesse mundo deles. Há tempos, que deixei de pisar no acelerador, preferindo o freio, mesmo!

Há, ia esquecendo, que vi antes da pandemia, o velho alfaiate Ebenézer, do mesmo jeito, parece que se conservou no formol, alegre e brincalhão, dizendo que já ultrapassou seus 90 anos. Andando mais ligeiro e esperto do que eu, morando em São José de Mipibu. É a vida, cheia de surpresas tristes e alegres em nossa curtíssima trajetória, de onde nada se leva, lembrando sempre que mortalha, não tem bolso e nem muito menos caixão tem gaveta

Morada São Saruê/Nísia Floresta-RN.

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