Lembranças de Barbearias

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Pós Graduado em Educação Ambiental, Escritor e Folclorista

         A presença das barbearias em nossa vida é marcante e muita gente não as esquece. Os homens, geralmente, as procuram sempre para cortar os seus cabelos e ajeitar as suas barbas. Aprendi a falar a maneira correta de tratar a minha barba, com o saudoso mestre e amigo Veríssimo de Melo, o qual um dia contou-me que um seu neto, teria chamado a atenção para sua resposta de que naquele momento estava ‘fazendo’ a barba: “Vovô, o senhor não está fazendo, o senhor está tirando!”. E o velho amigo nunca usou barba, apenas quando mais jovem um bigode. Nunca vi meu pai, ‘seu’ Geraldo Costa, com barba em sua vida, nem em suas fotos bem antigas. A minha apareceu mesmo, sorrateiramente, aos 15 anos, me ajudando de certa forma a entrar em clubes e afins, o que me deixava já com a aparência de 18.

E por falar em barba, quando dona Estela Medeiros, minha mãe, me via com a minha crescendo, passava logo o seu costumeiro carão: “Vá tirar que com barba você fica velho e feio”. Nem precisa dizer-lhes que uma opinião de minha genitora era uma ordem, por isso só vim a usar a minha barba fechada depois de sua partida. Entre minhas irmãs, a maioria é a favor de sua retirada, mas resolvi deixar como minha marca no rosto para o resto de minha vida. Confesso que dá trabalho, despesas e cuidados higiênicos.

Alguns casos engraçados já me ocorreram, como uma vez, em Parnamirim, um barbeiro já idoso e sem ouvir muito bem seus clientes, confundiu o meu pedido: ‘o senhor pode baixar um pouco a minha barba’. Sentei-me na cadeira e caí no esperado sono. Quando despertei foi que vi no espelho a minha frente que eu já estava com a minha barba totalmente retirada. Nem vou dizer de minha grande raiva já que fiquei trancado 15 dias até que a barba crescesse novamente. E o povo, com seu humor diz que – “Quem alisa cara de outro macho é barbeiro!”.

Lembro-me muito bem do meu primeiro barbeiro, ‘seu’ Orlando, magrinho, um pouco baixo, branco de cabeça pequena. Atendia seus clientes em seu ‘ponto’ na Avenida 1, esquina com a Avenida 6. Como esquecer as dores de cabeça e meu choro, quando passava aquela infernal máquina arrancando meus cabelos da cabeça. Lágrimas nos olhos e dor de cabeça o resto do dia…

E o pior da história infantil era que, quando eu chegava em casa, tinha que passar pela censura de meu pai: “Volte e diga ao Orlando que seu cabelo está grande. Diga a ele que corte bem baixinho. Quem está pagando sou eu. Quando for com seu dinheiro, você deixe do seu jeito”. Era o tempo vivido sob a égide da santa palmatória e na lei de Chico de Brito. Essa minha triste ditadura só durou até aos 14 anos, pois eu já trabalhando, com meu dinheirinho no bolso, fugia do salão do velho Orlando como o diabo da cruz!

Barbearia Guedes, uma das mais antigas de Natal (Foto Arquivo

Fui crescendo e fiz uso por décadas dos serviços do barbeiro Nunes, em seu pequeno salão da Avenida 2, quase de esquina com a Avenida 7. Ali me sentava e ouvia muitas histórias e causos engraçados. Dizem que as maiores mentiras do mundo são contadas como verdadeiras nos salões de barbearias. E tenho dessas, muita coisa anotada e gravada na minha cachola. Nunes é de família de barbeiros e há cerca de um ano atrás, o vi no bairro do Alecrim, caminhando devagarinho e pelo que calculei o mesmo já ultrapassa as 80 primaveras. Cheguei em sua cadeira aos 15 anos. Ele logo na dita ocasião, profetizara duas coisas para meu futuro: “Vai embranquecer cedo o cabelo, mas não vai morrer careca não!”.

Quando meu pai se foi desta, em 1994, eu que gosto de quinquilharias, herdei seu velho estojo de barbear, que para ser usado tinha que abrir e colocar uma “gillete”. Ainda sinto o cheiro bom e refrescante de seu creme marca ‘Bozzano’. Papai nunca ia a barbeiros e quase todos os dias ele mesmo tirava a sua própria barba. Dizia que havia se acostumado com a exigência dos americanos, no tempo da Segunda Guerra, quando ele era dono e motorista de carro de aluguel de ‘praça’, ou seja, os antigos táxis: usar sapatos pretos bem engraxados, camisa branca social com gravata, calça preta social e muito perfumado para atender os militares fregueses. Nada de barba ou cabelo grande.

Depois que Nunes fechou seu ponto, passei aos serviços de ‘seu’ João, em seu tradicional salão coletivo da rua da feira do Alecrim. Cabeção, baixo e forte, o João Barbeiro, ainda está lá atendendo seus antigos fregueses.

Quando vim morar em Nísia Floresta, ainda encontrei o velho barbeiro apelidado de ‘Piaba’ atendendo em seu salão, na rua da feira. O mesmo já contava com 80 anos, mas conversava e prosava com seus clientes até aposentar-se e fechar de vez o seu antigo ponto. Uma de suas histórias anotada por mim foi a sua primeira viagem de avião. Uma beleza para lembrar e dar boas risadas em meu cotidiano, nem sempre tão alegre. Piaba devia ser homenageado em vida, como um patrimônio humano de Nísia Floresta.

Nunca gostei de cuidar de minha barba em casa. Acho enfadonho e trabalhoso. E o bom mesmo é sentar na cadeira de um experiente barbeiro, nem tão velho e nem tão jovem. O salão não precisa de muito luxo, mas de conversas entre os clientes. Sempre cochilo, mas se tiver cafezinho forte e histórias eu fico esperto. Nunca cortei cabelo ou tratei a minha barba com mulheres. Para elas, eu reservo, a cada 15 dias, minhas unhas dos pés e mãos. Em minhas viagens, sempre procuro os tradicionais salões de barbearias dos lugares. Observo a sua decoração ambiental e limpeza. Algumas até dispõe de revistas, cafés, sucos e cervejas. Tem barbeiros calados e aqueles que, como eu, beberam água de chocalho e disparam nas conversas, querendo saber do meu tempo de criança na feira do Alecrim e quem foram meus avós.

Gutenberg Costa na Barbearia do Isaías, na Cidade Alta, em Natal

Hoje, em cada esquina existem os modernos salões, mas escaldado e muito desconfiado com certas novidades, prefiro os já conhecidos barbeiros que se tornaram grandes amigos. Em Natal, o Isaías, alegre e maior falador da vida alheia do mundo, me atende em seu salão da Rua Jundiaí, quase esquina com a Rio Branco, da Cidade Alta. Em Nísia Floresta, vou ao jovem músico e barbeiro, de nome Luiz, que vai me atendendo e conversando sobre música nordestina, das antigas e boas. O Luiz toca de violão a sanfona e eu nem sino de Igreja…

Gutenberg Costa, na Barbearia do Luiz, em Nísia Floresta

Em Pendências, terra de meus ancestrais maternos, eu me recordo muito bem dos velhos barbeiros que me atendiam como os saudosos Aurino, Zé Côco e Chico Albino. Atualmente, quando chego lá vou aos serviços do velho Dedé, com seu salão já modernizado que fica no centro da referida cidade. Lá ao se sentar fica-se de imediato sabedor da vida do padre, juiz, delegado e do prefeito. A última vez que lá estive, lhe comprei um velho relógio que o mesmo vende para ajudar nas despesas de sua casa. Dizem que pobre burro, morre de fome…

Em Parnamirim quem me atendia em seu salão no centro era o amigo fotógrafo Emerson Amaral, da Tribuna do Norte. Mudou-se e deixou-me sem as conversas e seu saudoso cafezinho. E para encerrar, eu digo, como esquecer os antigos apetrechos deles: navalha sendo amolada em um pedaço de pau. A espuma sendo chacoalhada em um potinho branco arredondado de louça. O talco despejado com a ajuda de uma escovinha no pescoço. O perfume colônia barato, mas cheirando passado na barba. Uma pedra ‘Ume’ sempre à disposição para estancar o sangue de um possível acidente com a amolada navalha.

Para acabar essa delonga, recordo também dos velhos e humildes barbeiros ambulantes, com seus tamboretes, atendendo seus fregueses nos alpendres, nas calçadas e nas feiras nordestinas. Tudo isso, está guardado e bem emoldurado em minha galeria de lembranças do passado.

Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN. 

3 Pessoas comentaram
Antonio Navarro

Me passou um filme.
Parabéns pela escrita. Ao ler Parece-me que está contando em Voz alta um causo!!

Grace Kelly

Que seria da VIDA sem memórias que tanto sentido fazem… efeito rejuvenecedor!

Arthunio Maux

Curtir bem! quem bem escreve sobre o passado que sabe sentir.
Vocação pura para escritor saudosista e apaixonado pelo FOLCLORE.
PARABÉNS GUTENBERG.

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