Lembranças de alguns circos do meu tempo

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Pós graduado em Educação Ambiental, Escritor e Folclorista.

Outro dia, um leitor meu aqui me fez a seguinte pergunta/provocação desafiando a minha ainda boa memória. O mesmo queria saber se eu recordava dos circos do meu passado de criança e adolescente? Vou tentar respondê-lo. Pareço agora um garoto sentado naquelas cadeiras duras do velho cinema São Luiz, do meu bairro do Alecrim e vendo na sua tela tudo, tim por tim…

Os circos para os ricos do meu tempo eram armados em um alto, a direita da Praça Tamandaré no Baldo. Esses tinham carros luxuosos e enfeitados. Quando chegavam a Natal, faziam seus desfiles nos principais bairros. Traziam caminhões e grandes carroções com elefantes, leões, tigres, macacos chipanzés, zebras e cavalos pequenos. As ruas tomavam de crianças observando tudo e, na volta para casa, começava o desespero das mães e dos pais. Eu, menino pobre, nem sonhava ir assistir aos circos Tihany, Orfei e Garcia, entre outros.

Eu tinha que enganar a namoradinha e, lamentavelmente, dizer que estava doente, pois além dos ingressos, tinha sorvetes e pipocas.Só depois dos meus 14 anos, quando já trabalhava e ganhava meu dinheiro, é que pude ir ver os velhos circos, sempre sentado no chamado – poleiro-, afinal era mais barato. As cadeiras frontais bem confortáveis ficavam para a classe rica. Às vezes, corria de boca em boca os maldosos boatos que amedrontavam todo mundo de minha rua, do tipo: O elefante está solto nas ruas… O leão fugiu da jaula do circo…

O importante era assistir e contar o que tinha visto aos que não foram. Como foi? O que você viu? E a gente enfeitava, sem mentir muito: tinha mulheres bonitas nas cordas, palhaços engraçados com seus calhambeques e animais que assustavam as crianças, mas faziam parte do circo. Os anões também eram exemplos de admiração e, geralmente, levavam um pé na bunda dos sacanas dos palhaços.

Existiram inúmeros deles, mas só recordo de poucos, como o Piolim, o qual ficou conhecido como o ‘Rei dos Palhaços’, no Brasil e dando a sua data de nascimento, como o Dia do Palhaço, dia 27 de março.

Existiram os famosos Arrelia, Fuzarca, Torresmo, Pimentinha, Chicharão e o inesquecível Carequinha, tão amado das crianças, que até disco infantil gravou. Tenho ainda aqui em meus arquivos um LP dele, com as suas tradicionais brincadeiras e cantigas.

Sabe-se que o primeiro palhaço negro no Brasil tão racista, foi o genial Benjamin de Oliveira (1870-1954), o qual, além da arte circense, cantava, compunha e era ator. E por ter sido um palhaço negro e vindo de família pobre, não ficou tão famoso quantos os brancos, que geralmente eram os donos ou filhos de donos dos grandes circos.

Os circos mais fracos ficavam na esquina da Rua Presidente Sarmento, (antiga Av. 4), com a Alexandrino de Alencar, no Bairro da Conceição, divisa com o Alecrim. Ali, assisti muitos espetáculos circenses, entre eles, o Circo Continental que tinha lona e palhaços engraçados. Outros circos pequenos eram logo apelidados de ‘tomara que não chova’, sem as lonas de cima, só umas cercas fechadas ao lado. Sem animais e desfiles pelas ruas com suas principais atrações. Quem saia mesmo para divulgá-los eram os seus palhaços. Vestidos a caráter com seus sapatos longos e a chamada de rua como infalível marketing para atrair a criançada pobre do bairro e vizinhanças: “Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor! Tem circo mais tarde? Tem sim, senhor!”

E as brincadeiras cômicas e satíricas dos ditos palhaços, várias vezes, terminavam em palavrões e o pobre do artista, mesmo em cima de duas varas compridas, chamadas de cavalo de pau, ia se ver com o delegado Mário Paulino… mas, o mesmo tinha a solidariedade e a defesa de toda criança e saia do xilindró em poucas horas, fazendo festa novamente pelas ruas.

A garotinha Maria Estela ( neta do escritor Gutenberg) ,
no Circo Americano, armado em Natal

À noite, o dito palhaço ficava na bilheteria até quase a hora de vestir suas calças largas coloridas e frouxas propositalmente. Gravatas vermelhas caindo no chão e chapéus cobrindo as velhas perucas. O circo pequeno e humilde se tornava uma grandiosa festança popular para alegrar os adultos e crianças. Olha lá o mágico, a mulher se transformando em uma gigante macaca e um rapaz magrinho dançando em cima de uma bicicleta.

E os cantores, cantoras e artistas convidados eram muitos: “Senhoras e Senhores, com vocês o palhaço e cantor aqui de Natal, Zé do Rojão”. Vem agora à rádio/atriz, Nice Fernandes, da Rádio Cabugi, interpretando a sua personagem da Rádio Patrulha, Cafufa. O coroné Bolachinha, o palhaço Faísca do famoso pastoril. O jovem cantor Carlos Alexandre… todos hoje alegrando o céu…

No período de minhas férias escolares, do Natal ao Carnaval eu ia para a cidade de Pendências, rever meus familiares maternos. Lá encontrava muitos pequenos circos, na maioria sem lonas para suas coberturas. Alguns de tão humildes e simples, que nós tínhamos que levar os tamboretes ou cadeiras para sentarmos. O perigo era trazer trocado ou esquecer por lá. A confusão era grande e sobrava para a santa dona Estela Medeiros, minha mãe.

Como esquecer os velhos dramas teatrais, ali representados, com dubladores e as músicas interpretadas das lamuriosas canções de Vicente Celestino, (1894-1968), com sua história sobre o Ébrio e o Teixeirinha (1927-1985), com o seu Coração de Luto. Podia não entender muito o que se via ou ouvia, mas era dramático e muita gente adulta, chorava feito manteiga derretida…

Já disse várias vezes, que lembrando o meu passado, não me sobram mágoas e, muito menos, tristezas. Se não podia levar a paquera da escola aos circos mais caros, convidava para o circo tomara que não chova. E se não podia de jeito nenhum, inventava uma gripe ou dor de barriga. E digo-lhes que, milagrosamente, não chovia nos velhos circos sem lona em cima e a alegria era a mesma, como cantava o genial Ataulfo Alves, (1909-1969): “eu era feliz e não sabia”…

Agora cabe a cada leitor domingueiro aqui fazer suas relações de seus circos, palhaços e anotar tudo para os netos e bisnetos. Hoje tudo que vivemos está em museus e nós sendo chamados de “grupo de risco”… somos quase riscados do mapa! E lembro desde já que amanhã é o dia de homenagearmos os viventes entre nós! O resto ficará em nossas memórias!

Até domingo próximo. Viva o circo! Viva a alegria! Viva a vida!

Morada São Saruê, 01 de novembro de 2020. Nísia Floresta/RN.

7 Pessoas comentaram
Fátima Freire

Que belas lembranças recordei dos circos em MIPIBU, nesta vivência que não é pra ser esquecida!
Lembro de um Circo (que a memória não me deixa lembrar o seu nome), que fora Armado de frente ao nosso Mercado Público. Aqui no Centro da Cidade! Que tinha um Cavalo Branco que dançava, com uma Bela Moça que o domava, que elegantemente sentada sob Ele! Era o momento muito esperado! Lembro de outros Circos que eram armados: ou no terreno do “Café MIPIBU” ou no “Sítio Aberto”! O povo do “meu tempo”, conhece o espaço que estou falando! E meu Pai Manoel Amaro (in-memorian), como bom e assíduo frequentador, nos levava para as Matinês. Eram momentos de diversão, na nossa Infância & Adolescência, sem contar com o Cinema de SEU DÉCIO!
Parabéns por não deixar morrer a nossa vivência do passado.
Que os jovens de hoje, saibam como podíamos viver, se divertir muito bem! Sem Droga e sem Internet.

Crisolita THE Bonifacio

Emocionantes recordações!

Jose H Alves

Belíssimo texto

Antonio Navarro

Riquíssima leitura deste domingo. Em tempos de pandemia e smartphones a arte circense teima em existir: contra todas as estatísticas.

Grace Kelly

Sentimento tão bom ao ler….quanto estar presente nestes tempos!!

Moaldenir Freire

A cultura é uma das mais belas riquezas que o ser humano pode ter, depois dessa leitura revivi o circo, aprendi Quem foi o primeiro palhaço negro no Brasil e fiz uma viagem no tempo.

Angela

Bom viver e reviver esses momentos/lembranças felizes e tão diferentes dos atuais. Havia mais liberdade (vigiada, responsável) e muito mais alegria nas coisas simples. Mas, a cada época seus próprios costumes. E a vida segue…

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