HISTÓRIA: Campanha da Fraternidade foi idealizada em Nísia Floresta/RN

Primeira Campanha da Fraternidade aconteceu na comunidade Timbó, no RN
(Foto: Arquivo Arquidiocese de Natal)

A Igreja Católica este ano, 57 anos da Campanha da Fraternidade. Idealizada pela Arquidiocese de Natal, em 1962, apenas em âmbito local, a Campanha foi propagada no ano seguinte à região Nordeste e, por fim, em 1964, se tornou um evento nacional, com grande importância no calendário católico brasileiro.

O Blog O ALERTA transcreve um texto do G1RN e atualiza para os seus leitores, onde tudo começou, relembrando a primeira edição da Campanha da Fraternidade.

“A Campanha da Fraternidade surgiu como mais uma inovação no contexto do Movimento de Natal. Impossível dimensionar tamanha ousadia sem aquilatar o clima de renovação e de entusiasmo vivenciado nos anos 50 e 60 com o objetivo de direcionar o poder da Igreja em favor da maioria da população, os pobres e injustiçados”, disse Otto Euphrásio de Santana, pároco de Nísia Floresta à época.

A comunidade católica local queria um instrumento que viabilizasse a caridade, a exemplo do que estava sendo praticado no período pós-guerra na Europa e Estados Unidos. “Tal inquietação gerou um sentimento de imperiosa necessidade de criar um mecanismo que arcasse com o custeio dos programas sócio pastorais e se transformasse num instrumento de educação cidadã permanente”, revelou Otto.

Envelope da primeira  CF em âmbito nacional (Foto: Arquivo Arquidiocese de Natal)

A ação pioneira aconteceu na comunidade Timbó, em Nísia Floresta, a 35 quilômetros da capital. O modelo adotado na campanha foi sugerido por Dom Heitor Sales, que conhecia uma ação semelhante na Alemanha.

“Quando morei na Alemanha conheci uma campanha que incentivava a doação do sacrifício durante a quaresma. Lá, muitos deixavam de fumar charuto, logo, o valor que seria usado para alimentar este vício era revertido em doações para ajudar a população de países pobres. Achei a iniciativa positiva e sugeri que adaptássemos o modelo aqui no estado”, lembrou  Dom Heitor Sales.

Ainda segundo Dom Heitor, –  que acompanhou os primeiros passos da Campanha junto ao então administrador apostólico, dom Eugênio de Araújo Sales, falecido em 2012, – a ideia da campanha era alimentar os famintos por comida e conhecimento. Para isso, a sociedade toda deveria se envolvida na causa.

“Durante a Quaresma, quando se recolhe as doações, é tempo de partilhar. Durante a CF passamos a mensagem de que é preciso dividir o que temos com os outros. Cada um temos esta obrigação. Não somos uma ilha isolada no oceano, temos que nos ajudar mutuamente. Esta é a principal função da campanha”, defendeu Dom Heitor.

Os fiéis contribuem com a campanha, que além de arrecadar doações, dentro de envelopes específicos, ainda dissemina os ensinamentos cristãos a cerca do tema que  aborda a cada ano. Desde a criação, 49 temas foram focos de reflexão da Igreja.

“Não consigo eleger um tema que tenha sido mais importante. Sempre escolhemos abordagens que sejam importantes para a sociedade, levando em consideração o momento em que vive a humanidade”, explicou o bispo. “Como esse ano teremos a Jornada da Juventude no Brasil – evento que reunirá  2 milhões de jovens, de todo o mundo, no Rio de Janeiro, e contará com a presença papal –  esse é um bom momento de falar sobre e, para a juventude. Por isso, esse ano o tema é Fraternidade e Juventude”, acrescentou.


Comunidade do Timbó

O povoado, localizado no município de Nísia Floresta, na Grande Natal, era muito pobre e não possuía padre, por isso foi escolhido para receber a primeira edição da campanha. O objetivo era ajudar a comunidade com roupas, comida e alfabetização, além de disseminar a mensagem de Deus.

“A gente queria elevar o nível social da comunidade. Ensinado a população a ler e escrever, doando vestimentas e alimentando o corpo e o espírito”, lembrou Dom Heitor.


Para tanto, se fez necessário envolver a comunidade cristã na busca por doações.

“O valor arrecadado é anunciado ao final da campanha e o dinheiro é dividido entre a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), arquidiocese e paróquias. A verba é usada para a manutenção da missão da Igreja – evangelizar – e para a ajuda social”, enfatizou Dom Heitor.

O padre recém ordenado, Otto Euphrásio de Santana, se ofereceu para realizar missas dominicais na comunidade e percebeu que os moradores precisavam de auxílio.

“Percebemos que o gesto concreto de solidariedade fraterna não podia se restringir a uma contribuição em dinheiro na coleta da Missa do domingo. Fazia-se necessário criar uma forma de oferecer ao povo a oportunidade de expressar sua vivência fraterna. Que chegasse a todos em suas casas e em seus locais de trabalho e de convivência. Que fosse acessível à grande maioria dos que não frequentavam a Missa dominical. E que se materializasse em realidades de sua cultura local”, lembrou Otto, que deixou a vida religiosa mas ainda se dedica às obras da Igreja.

A partir desta constatação, nasceu a Marcha da Fraternidade. Revestida de festa, na forma de uma caminhada a pé. De casa em casa os voluntários coletavam o que o povo queria e podia ofertar. O importante era a expressão de participação, de solidariedade.

“Durante a preparação mobilizávamos os meios de comunicação existentes: serviço de som, alguns instrumentos musicais, numa improvisada banda de música, cartazes e faixas. Todos os modos de locomoção: jumento, carroças, carros de boi, bicicletas, tratores e automóveis. O povo sabia que podia contribuir com o que tivesse disponível em casa. Tudo era muito bem recebido, pois vindo do coração”, conta Otto.

As doações simbolizavam bem as características do povoado: ovos, galinhas, hortaliças diversas (quiabo, maxixe, batata doce, chuchu, coentro, cebolinha, jerimum), frutas (jaca, abacate, banana, laranja, seriguela), caranguejo, camarão, bolacha, feijão e milho.

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