FIGURAS MIPIBUENSES (7) José Augusto Fagundes

         Ele era conhecido por memorizar datas (dia, mês e ano) além dos fatos importantes ocorridas em São José de Mipibu. Era comum vê-lo sempre lendo um jornal ou revista. Por isso estava sempre ”por dentro” dos acontecimentos  da terrinha, do Rio Grande do Norte e do país.

         De São José de Mipibu, ele acompanhava as informações do que se passava, ao sentar-se em frente a sua casa, como fazia costumeiramente, após tirar uma soneca, depois do almoço, como autêntico nordestino.

         Todos que passavam a frente de sua casa, o cumprimentava e ele aproveitava para tirar “dois dedos de prosa”, ficando informado do que se passava  na cidade.Por isso traçamos o perfil de José Augusto Fagundes, ou simplesmente, “Zé Fagundes”, para os que o conhecia.

Zé Augusto por ocasião das comemorações dos seus 90 anos de idade

         Natural de Santo Antonio, quando ainda era conhecida por “Santo Antonio do Salto da Onça”, na região Agreste potiguar.  Filho do casal Antônio de Oliveira Fagundes e Maria Anunciada de Lima. Nasceu no dia 7 de setembro de 1924, por ocasião das comemorações 102º aniversário da Independência do Brasil.

Ao jornal impresso O ALERTA, transcrevemos a entrevista, concedida ao jornalista José Alves, em agosto de 2014 e atualizada, agora, para o blog ALERTA.

Foto que ilustrou a matéria no Jornal O AlertaAgosto 2014

“Minha infância e adolescência foi muito feliz”, disse Zé Fagundes com ar saudosista. Estudou até o 6º ano no Grupo Escolar Dr. Manoel Dantas, em Santo Antônio, tendo frequentado a Congregação Mariana, entidade ligada à Igreja Católica.

Era um garoto travesso quando adolescente. E relatou uma história, quando tinha 12 anos que quase lhe custou à vida: “Havia na cidade dois homens (pai e filho) de apelidos João “Penca” e Pedro “Gavião”. “Certo dia, eles passavam próximo a minha casa e eu os chamei pelos apelidos,  eles correram atrás de mim e me pegaram. Minha sorte foi que um morador viu a discussão e me salvou. No seguinte, esse senhor relatou a meu pai o acontecido. Minha mãe ao tomar conhecimento me deu uma surra que até hoje não esqueço”.

Zé Fagundes foi um jovem namorador e galanteador. “Namorei muito, até achar a mulher ideal para casar.” Casei pela primeira vez, no dia 30 de novembro de 1947, com Maria de Lourdes Fagundes. Desse matrimônio nasceram cinco filhos – Antônio de Oliveira Fagundes Neto, José Ademar Fagundes (Neném) in memoriam, Olga Maria Fagundes, Nilton Fagundes e José Maria Fagundes (‘Branco’). “Todos vivos, graças a Deus”.

Com os filhos

Deixou 10 netos: Alex Sandro, Tallita, Flavio, Bruno, Breno, Sara, Ricardo, Marilac, Cleuber e Helder; e 10 bisnetos: Ariel, Nataniel, Marcos Vinicius, Lara Cecília, Valentina, Helena e Heloísa (gêmeas), Maria Isis e Miguel e Bernanrdo ( gêmeos).

Com os netos, filhos e noras

No dia 16 de dezembro de 1976, Maria de Lourdes veio a falecer, deixando os filhos já criados.

Dois anos depois, contraiu matrimônio com Odaísa de Carvalho Fagundes, no dia 14 de outubro de 1978, que veio a falecer, em 20 de agosto de 2017.

Na entrevista, Zé Fagundes disse que o primeiro emprego foi como comerciante. “Profissão que exerci durante doze anos”. No dia 12 de abril de 1955, fiz o concurso de Guarda Fiscal do Estado (hoje, Auditor Fiscal). Passei em 61º lugar, sendo nomeado para a cidade de Penha, atualmente Canguaretama.

 Foi transferido 36 vezes. Entre idas e vindas trabalhou em 16 cidades e lembra-se de todas elas: Canguaretama, Santo Antônio, Nova Cruz, Passa e Fica, São José de Mipibu, Monte Alegre, Boa Saúde, Brejinho, Parelhas, Equador, Currais Novos, Mossoró, Areia Branca, Baraúna, Vera Cruz e Nísia Floresta. Também trabalhei em todos os postos de fronteiras do Rio Grande do Norte, do Guajú à São Romão.

“Fui transferido para Agência Fiscal de São José de Mipibu, no dia 23 de agosto de 1959, em substituição ao colega Manuel Aprígio de Souza. Para a minha surpresa encontrei uma forte resistência para que meu colega não fosse substituído, devido ao ciclo de amizade que o mesmo já havia formado, principalmente, com as lideranças políticas da cidade. Tivemos que ir ao Secretário da Fazenda e ficou definido que nós dois trabalharíamos juntos em Mipibu”, lembrou.

Na entrevista, Zé Fagundes “puxou pela memória” e lembrou um fato engraçado que ocorreu quando chegou a São José de Mipibu: “Estava de luto do meu pai e só andava de preto, assim me apelidaram de ‘Zé da Calça Preta’, apelido dado pelo dentista e político Dr. Floriano Cavalcante”.

Entrevista concedida ao Jornal O Alerta – Agosto 2014

“Desde a minha chegada à cidade, na época de eleições, sempre era convocado para ser mesário, fazendo a contagem manual dos votos que eram apurados em São José de Mipibu. Levei juntamente com meu amigo Mário Guimarães, o nome de ‘ladrão’, pelos eleitores que aguardavam o resultado das urnas, e que o resultado não era favorável ao seu candidato”.

Outro fato engraçado ocorrido, desta vez, quando trabalhava: “foi com o Sr. Zezé Isaías, quando apresentei a cobrança dos impostos devidos, ele me chamou de desonesto. Apresentei denúncia ao delegado de polícia, que ao questioná-lo, alegou ser analfabeto. Disse ao ser interrogado que queria me chamar de desumano e não de desonesto. Este fato ficou marcado na cidade e por algum tempo a população brincava com ele: “É desonesto ou desumano?” (deu uma boa gargalhada).

“Lembro-me que quando conheci o nosso saudoso Monsenhor Antônio Barro, vigário de São José de Mipibu. Ele me perguntou se eu era católico e eu lhe respondi que era Católico, Apostólico, Romano. A partir daí surgiu uma grande amizade entre ele e nossa família, que perdurou até a sua “partida”, do velho sacerdote.

Hasteamento das bandeiras, no início da Festa dos Padroeiros

“Um fato interessante ocorrido na cidade foi à doação de um terreno feita pelo pernambucano José Farias, à Igreja onde hoje é o Terminal Rodoviário. Na época, houve uma polêmica muito grande entre a Prefeitura Municipal, administrada pelo ex-prefeito Hélio Ferreira e a Igreja, que tinha a frente Monsenhor Antonio Barros. A questão foi parar nos tribunais que deram ganho de causa ao Município”, comenta.

Zé Fagundes lembra outro fato: “ só que dessa vez participei. Foi  um ofício que recebi do então governador Dinarte Mariz. A correspondência determinava que eu deveria entregar ao prefeito da cidade, Bernardo de Souza Coutinho, a importância de 30 contos de réis. Como só tinha 10 contos aqui na Coletoria de  São José de Mipibu, tive que ir à Penha (Canguaretama) juntamente com Seu Coutinho, onde o coletor local fez a entrega de mais 20 contos de réis. Esse dinheiro era destinado à compra do terreno onde seria o Campo do Arsenal F. C. O terreno, onde hoje é o Hospital Regional, pertencia ao Sr. João Maú”.

Zé Fagundes diz que ao chegar, em 1959, a São José de Mipibu, já existia água encanada e energia. A distribuição de água e a energia era fornecida pela Usina Luz e Força, de propriedade do Sr. Júlio Ramalho. Somente no dia 17 de agosto de 1964, chegou a tão desejada “luz de Paulo Afonso”, pelo então governador Aluizio Alves.  A partir daí chegou o progresso à cidade.

Comentou que: “logo quando cheguei aqui só existiam dois jipes, de alugueis  (os taxis da época), de propriedade do Sr. Otávio e Ranulfo e uma linha de ônibus de Lauro Macedo, adquirida posteriormente por Antônio Honório. Carro de luxo só existia o do Sr. João Beckmans Dantas (pai do atual prefeito Arlindo Dantas)”.

“Antigamente a Associação Esportiva Mipibuense realizava grandes festas e eu estava presente juntamente com toda a sociedade Mipibuense. Hoje em dia, não mais existe. Foi demolida e o terreno doado à Maçonaria. Restam-nos apenas as lembranças…”

Os últimos dias de vida a diversão dele era passear, ler, cantar e estar com a família. Toda tarde se sentava na calçada de casa para ver o movimento do povo na rua e saber o que está se passando na cidade .

Com a Irmã Iva Korb, da Congregação das Irmãs da Divina Providência,
em visita ao Abrigo Anízia Pessoa, de São José de Mipibu

Zé Fagundes faleceu no dia 15 de outubro de 2015, com 91 anos de idade. Uma observação, que O ALERTA, pesquisou: Durante os 55 anos que residiu em São José de Mipibu, Zé Fagundes não foi agraciado com o título de Cidadão Mipibuense, honraria que é outorgada pela Câmara Municipal.

Nilton Fagundes, Zé Fagundes e o arcebispo Metropolitano,
Dom Jaime Vieira Rocha, por ocasião da visita pastor
al

(Texto atualizado da entrevista ao jornal O Alerta (agosto 2014) e fotos cedidas pela família)

4 Pessoas comentaram
JOSE OLAVO RIBEIRO

Grande figura humana. Sempre respeitoso e bem humorado.

Elza Maria Freire

Sempre com uma leitura entre as mãos, estivesse sentado na varanda ou na calçada da sua sua casa. Essa, era uma das marcas registradas do senhor José Fagundes. Essa inesquecível imagem ainda povoa e enriquece as boas lembranças da Praça Monsenhor Paiva, hoje, um pouco empobrecida sem esse seu belo exemplo . Homem de memória invejável e de peculiaridades próprias. O cálculo matemático que ele fazia para acertar – exatamente – o dia
da semana em que nasceu alguém, por exemplo !!!!! Bastava que falássemos o dia , mês e ano do nosso nascimento e ele já acertava o dia da semana em questão de minutos. Alguma dúvida? Bastava consultar um Calendário Permanente, e constatar ! Não errava nunca ! Com certeza, ele continua fazendo esse primoroso exercício matemático lá no Céu.

Didi Avelino

Personagem marcante de São José de Mipibu e pessoa querida por toda comunidade, José Fagundes fez parte do seleto grupo de “mipibuenses ilustres” que era referência na cidade para as novas gerações. Deixou saudades.

Olga Maria fagunded

Nós filhos de José Augusto Fagundes. Estamos muito agradecidos a Dede por ter homenageado nosso pai, contando assim, algumas passagem de sua vida. Como tbem aos comentários dos nossos amigos,se referindo a Ze Fagundes. Nossa gratidão e carinho a todos.

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