FIGURAS MIPIBUENSES (4) Pedro Freire

Pedro Freire nasceu no dia 13 de outubro de 1925, no sítio Lagoa do Espinho, na localidade Boa Saúde, na época, distrito de São José de Mipibu. Filho caçula de Francisco Peixoto de Melo e de Maria Freire de Melo. Foi criado num lar de pessoas humildes, apesar de seu pai possuir algumas terras e tomar conta, como gerente e capataz, de outras. Teve uma infância simples, como qualquer criança que viveu naquela época, num lugar que era muito distante dos centros maiores.

Dos muitos irmãos que teve apenas dois sobreviveram: Mirtes Dias e João Freire. Ainda pequeno, viveu boa parte de seus primeiros anos com parentes que residiam na cidade de Canguaretama, na localidade de Lagoa de São João, para que pudesse estudar, visto que o local onde nascera não oferecia condições para tal.

Conheceu São José de Mipibu, em 1936, quando tinha apenas 11 anos de idade. Sua irmã mais velha e seus pais, preocupados com os estudos dos outros dois, resolveram mudar-se para essa cidade, na época, uma das mais importantes da região. Seu pai, com os recursos advindos da venda dos bens que possuía, adquiriu uma residência, juntamente com uma bodega, localizado na frente da casa. Ficava localizada na confluência das ruas Dr. Jerônimo com a Rua Cônego Lustosa, então conhecida como “Ladeira do Japão”.

Pedro Freire e o irmão dividiam seus afazeres, entre estudar e ajudar o pai no comércio. Um desses afazeres também consistia em vender cocadas que sua mãe fazia, na estação do trem, que outrora, passava por São José de Mipibu. Estudou no “Grupo Escolar”, hoje Escola Estadual Barão de Mipibu. Conviveu nessa época com muitas pessoas que se tornariam ilustres mipibuenses, como padres, prefeitos, escritores, dentre outros.

Como curiosidade relativa aos seus estudos, vale citar um fato que ocorreu quando por influência de alguns familiares o matricularam como interno no Colégio  Salesiano, em Natal. Ficou pouco tempo, porque quando soube que estava lá como preparatório para se tornar padre, fugiu da escola e retornou para São José de Mipibu.

Talvez por ser membro de uma família católica e muito religiosa, talvez, também, pelo fato de na sua juventude não haver muitas opções para os jovens da época, logo se interessou pelos afazeres da igreja católica. Ele e o seu irmão, João Freire, tratado carinhosamente por ‘Dão’, passaram a ser coroinhas da Paróquia de Sant’Ana e São Joaquim. Essa ocupação lhe permitia viajar como parte da  comitiva  sacerdote, visitando várias  capelas das comunidades.

Por volta de 1939, vítima de uma epidemia que assolava a região Nordeste contraiu febre tifo. Esteve durante alguns meses entre a vida e a morte. Neste tempo, a Medicina não tinha os recursos que tem hoje e os doentes das cidades do interior só tinham alguma chance de recuperação quando deslocados para os hospitais das grandes cidades. Por ironia, todos os conhecidos que estavam vitimados pela mesma doença e que foram tratados em Natal, não conseguiram sobreviver. Pedro Freire que ficou em São José, por insistência de seu pai, conseguiu se recuperar.

Em 1946, alistou-se na Aeronáutica e passou a ser soldado da Base Aérea de Parnamirim. Alguns anos mais tarde, já como Cabo, passaria à patente de Sargento  na especialidade de escrevente, no ano de 1954.

Cabo Freire – Foto 1946

Casou-se em 1953, com Maria da Conceição Gomes de Melo. Nesse mesmo ano nasceu o seu primeiro filho, Maurício Freire. Como Sargento escrevente, tornou-se, o mais rápido datilógrafo que a Aeronáutica já teve (comentário dos que o conheceram).

Alojamento de Praças – Base aérea de Natal – 1945

Seu espírito brincalhão e sua facilidade para fazer amizades logo o tornaram conhecido em toda a caserna, fazendo com que obtivesse algumas regalias junto aos seus superiores. Em São José de Mipibu, não foi diferente. Distante dos trabalhos da igreja, sempre era requisitado para animar todo o tipo de festa ou comemoração, como:, quadrilha junina, pastoril, quermesse, bingo, leilão, etc.

Adorava morar em São José de Mipibu. No entanto, em 1959,como militar, foi transferido para o Rio de Janeiro/RJ. Nessa cidade, viveu por dois anos, sempre com a sua família. Nesse período, já tinha mais uma integrante, uma menina nascida em 1955, que recebeu o nome de Tânia. Assim que chegou ao Rio de Janeiro, nasce mais um filho, que recebeu o nome de Henrique Luis.  

Em 1961, ocorreu mais uma transferência. Dessa vez para a cidade de Brasília, a mais nova capital do Brasil. Trabalhou na Esplanada dos Ministérios, mais precisamente, no Ministério da Aeronáutica. Como recompensa a sua dedicação, em 1968, foi agraciado com uma transferência, tida como prêmio, para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Lá trabalhou como Chefe do Correio Aéreo Nacional.

Santa Cruz, na época, servia de ponto de apoio para as tripulações dos aviões do Correio Aéreo Nacional – CAN que transportavam malotes e passageiros para os países visinhos e necessitavam transpor a Cordilheira dos Andes. Como não podiam concluir suas viagens em um mesmo dia, era em Santa Cruz que os tripulantes das aeronaves pernoitavam. Foram dois anos vivendo nessa  cidade.

Em 1970, já de volta ao Brasil, passou a morar definitivamente no Rio de Janeiro. Sempre visitava São José de Mipibu, por ocasião das férias. E o transcorrer dos dias vividos no Rio de Janeiro consistia em falar, com saudades, das férias passadas e combinar as próximas, tendo sempre como destino, São José.

 Sempre teve vontade de voltar a residir em São José, porém a oportunidade só surgiu vinte e poucos anos depois. Queria voltar, mas não queria ficar longe do centro da cidade, longe das praças, longe da saudosa Matriz, longe do papo bom com os diversos amigos.

Uma casa apareceu. Surgiu enfim a grande oportunidade e não era uma casa qualquer. Era a Casa Paroquial. Parecia uma graça divina para quem sempre acreditou em Deus e sempre esteve ligado à Igreja. Houve por fim a mudança.

Em 1993 Pedro Freire voltou a morar na cidade de onde nunca deveria ter saído. Conviver novamente com o restante dos familiares, os amigos… Foi tudo o que sempre quis.

Homenagem ao escritor e historiador Pedro Freire

Como pagar por tamanha bênção? Como retribuir tamanha dádiva? Escrevendo. Passou a escrever histórias da cidade que sempre amou. De início, alguns artigos pequenos e despretensiosos, no Jornal O ALERTA. Depois ocupou cadeira cativa na pagina 7 (Arte & Cultura), com artigos mais logos, detalhados e pesquisados, inclusive com fotografias, mas sempre com um toque pessoal de quem viveu o fato ocorrido.

Parecia que tinha nascido para tal fim. Logo se tornou conhecido e alvo das visitas de estudantes de todos os níveis. Até universitários o procuravam e todos, indistintamente eram atendidos. Pedro Freire sentia prazer e orgulho quando era procurado por algum estudante. Como entender, num tempo como este que alguém que se doou tanto e nunca cobrou nada em troca?

Pedro Freire (sentado) atento a fala do folclorista Deífilo Gurgel,
numa Semana Cultural, promovido por Amauri Freire

Pedro Freire faleceu numa manhã ensolarada, num dia comum, daqueles que parece que nada vai dar errado. Um dia que começou tão bonito, terminou de forma melancólica e triste. Por volta das 11h do dia 11 de janeiro de 2008, faleceu de forma súbita, sem poder concluir a história mais bonita – a história de sua própria vida.  

Túmulo de Pedro Freire no Cemitério Municipal de São José de Mipibu

            Seu filho, Mauricio Gomes de Melo escreveu sua biografia, onde  retrata com fidelidade, o que tanto amou  em vida – São Jose de Mipibu-, passando a ser conhecido por ‘Senhor Memória’, por pesquisar e escrever os costumes e a historia desta terra.

1 Pessoa comentou
João Maria de Lima

Grande homem, que deve ficar registrado na história de São José do Mipibu.

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