FIGURAS MIPIBUENSES (4) Moacir Barbosa

                Moacir Barbosa nasceu em Montanhas/RN, no dia 25 de agosto de 1944.  Filho adotivo de Maria de Lourdes Moura e Alcides Barbosa de Moura. Foi educado nas melhores escolas de Natal.  Como filho primogênito, teve todas as regalias possíveis.  

Seus pais biológicos eram naturais de Laranjeiras do Abdias, comunidade rural de São José de Mipibu. O pai, embolador de côco e sua mãe uma senhora muito sofrida, que após adquirir tuberculose teve que fazer a doação de Moacir ao casal, para que o mesmo não morresse. Quando cresceu, Moacir tomou ciência de que era filho adotivo. Como bom filho que foi, jamais desprezou sua família biológica e nem tão pouco a que o adotou.  

Ainda muito jovem aprendeu a tocar violão, sendo um verdadeiro autodidata na arte de tocar e cantar. Desde cedo sempre teve um gosto apurado pela leitura e literatura brasileira. Era afeito à leitura. Ainda garoto, ingressou no seminário Capuchinho, na cidade de Bom Conselho, onde lá passou dois anos como seminarista.

Ao deixar o seminário casou-se com Maria Salete. Na época, ele tinha 19 anos e ela, 23 anos. O enlace matrimonial se deu em 1º de setembro de 1963.

Tiveram doze filhos, mas apenas cinco sobreviveram: Zeneide, Marcos, Moacir, Fran Moura e Auridéa.

A sua filha, professora Fran Moura, assim se expressa sobre seus pais: “Tenho orgulho dos meus saudosos pais… (Moacir e Salete), deles guardo muitas recordações, principalmente, do meu pai que foi o melhor pai do mundo. Tinha os olhos verdes, era branco e tinha 1,54 de altura. Ele corria comigo na praia dos Artistas, em Natal, comia pipoca de saquinho e bebia água de côco. Jogava futebol comigo e meus irmãos no quintal de casa. Ensaiava as músicas e pedia para eu ficar com as letras para corrigi-lo, caso errasse. Oferecia bons livros para ler e me incentivava a prosseguir nos estudos. Ele me fazia carinho quando eu chorava”.

 Em busca de trabalho,  saiu com destino ao Estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro). Lá, trabalhou no Jornal ‘O Dia’ e na Rádio Guanabara. Enfrentou muitas barreiras, principalmente, por ser nordestino.

               No ano de 1972 veio residir em São José de Mipibu. Incentivado pelos amigos Tenente Buriti e José Ramires, passou a residir na Rua Coronel Antonio Basílio.

Moacir era amante da poesia costumava reunir em sua humilde residência os amigos boêmios para as grandes noites de seresta e das lindas declamações de poemas. Alguns desses amigos, são aqui lembrados: Francisco Brasil de Araújo, Bênto Rabêlo, Berilo Wanderley, Dona Amélia Wanderley, o poeta Luís de França Morais, Nivaldo Tomé, Seu Badú, João de Souza, Tenente Buriti e tantos outros, verdadeiros amantes da poesia, da música e da literatura.  Em 1971 teve o soneto: ‘O Gato Morto’, publicado na revista ilustrativa, literária e noticiosa “A JURITI”, nº 33 – junho/julho nº 107/108.

Em 1973 o Brasil vivia em plena Ditadura Militar (1964-1985. Na madrugada do dia 23 de setembro, teve seu lar cercado por homens armados que o levaram preso. Não resistiu, afinal nada tinha a temer. Foi levado algemado e encapuzado como se fosse o pior dos marginais. Sob a acusação de ser comunista, sofreu bárbaras torturas. Unhas arrancadas, corpo queimado de cigarros e as mais atrozes torturas. Felizmente teve mais sorte que alguns de seus amigos que foram mortos, cujos corpos jamais foram encontrados.

Fran Moura lembra com muita clareza o dia em que foi posto em liberdade. “Meu pai voltou um pouco magro e bastante abatido, mas, estava vivo. Foi o momento que mais marcou a nossa pequena família”, lembra emocionada.

“Papai  foi um homem além do seu tempo, pois em 1984 (eu tinha 14 anos) ele me chamou e falou sobre minha sexualidade, coisa que alguns pais de hoje não aceitam falar. Recordo quando me disse: Independente do que você for, você será sempre minha filha, mas jamais seja vulgar em sua conduta. E assim cresci me sentindo amada e aceita!”

Tempos depois, Moacir começou a participar do programa no rádio, ‘Seresta do Coração’ na Rádio Nordeste e depois na Rádio Rural, ao lado de Francisco Brasil e tantos outros seresteiros.

 Em outubro de 1975 foi admitido na Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Serviço Publico Federal), no cargo de Guarda de Endemias. Mas, em janeiro de 1980 pediu demissão da SUCAM.

No dia 1º de janeiro de 1983, fundou em São José de Mipibu, o jornal, mimeografado, ‘A LUTA’. No dia 18 de junho de 1985, teve publicado no jornal A República o seu poema “A minha mãe”.

Em 10 de junho de 1985 teve seu nome registrado da Ordem dos Músicos do Brasil, tendo o titulo de Cantos/Violão, carteira nº 1.486 e inscrição 1.486, Gênero Popular.  

“A música é tão divina que não consigo executá-la com perfeição”. Nessa frase, ele demonstrou toda a sua paixão pela música. Foi um boêmio, um sonhador, mas acima de tudo um grande poeta.  

Era um exímio artesão na arte de fazer botões, foi o único a produzir botões de jogos de mesa e fazer campos de compensados para os jovens amantes desse tipo de esporte.

“O ‘Poeta Obscuro’, assim era chamado. Lembrava o poeta paraibano, Augusto dos Anjos, quando cantava a morte ou a angústia de quem vive, no dizer de Vinicius de Morais. “Mãe, Morta e o Gato Morto” são exemplos bem marcantes dessa tendência. Outras vezes, como, em ‘Marilda’, ‘Cismando’ ou ‘Tempos de Outrora’ deixava transparecer o agudo lirismo de Castro Alves. Esses eram seus poetas preferidos” relembra Fran Moura.  

“Meus pais só se separam por morte, ele ainda muito jovem nos deixou, com apenas 41 e anos, minha ficou viúva até a data de desencarnar. Um amor lindo o amor dos meus pais”, comenta.

Na noite do dia 19 de agosto, Moacir deu seu último suspiro, morreu aos 41 anos. Faleceu vítima de infarto agudo do miocárdio, cardiopatia hipertensiva e nefro esclerose maligna. Foi sepultado em Natal.

“Hoje me sinto uma criança ainda, quando recordo dos meus pais e remexo no Baú das Memórias da minha infância em São José de Mipibu/RN, cidade que me adotou, afinal não nasci em Mipibu”.

 E uma lágrima que teima em cair…

(Com colaboração de Fran Moura ( texto e fotos)

4 Pessoas comentaram
Elza

Linda história doces lembranças

JOSE OLAVO RIBEIRO

Grande pessoa! Fez um time de botão do Vasco para mim! Um dia melhores que tive. Jogávamos botão também, na casa do Sr José Rinaldo, tabelião em São José, de saudosa memória.

JOSE OLAVO RIBEIRO

Um dos melhores que já tive.

Sandra Moura

Linda historia,meu tio que se foi eu ainda criança,só o conhecia através do que meu pai me contava a historia dele com tanto carinho,agora passei a conhecer e ter ciência do homem maravilhoso que foi meu tio,

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