Dia de lembranças…

Manoel Bezerra – Pesquisador/Bacharel e licenciando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN (1998–2003)

Dia 14 de janeiro, dia de festa na Bahia de São Salvador. Dia do Senhor do Bonfim. Fui duas vezes para a festa. Na companhia do potiguar mais baiano.

Como sempre, tudo muito bem planejado, saímos de Natal, dois dias antes, num 12 de janeiro. Ficamos hospedados no Hotel Imperial, em plena Avenida Sete. Da camareira ao gerente todos falavam com esse Norte-riograndense, como um velho conhecido. Em sua mala de viagem nunca faltava castanha de caju, biscoitos vai e vem e doce de leite. Distribuía com todos que visitavam seu apartamento.

Na primeira vez, me fez uma surpresa: venha aqui em casa contar umas moedas. Chegando lá disse: essa botija é sua para viajar. Resumindo: tinha dinheiro suficiente para passar a semana em Salvador. Depois de separadas por valores, terminamos em um supermercado que tinha uma máquina de contar moedas.

Ele era uma pessoa de poucos amigos. Quando escolhia alguém para ser amigo era para eternidade. Fomos de ônibus até a “Terra da Felicidade”, como gostava de chamar Salvador. Durante a viagem foi contando a sua experiência em Salvador. Seu trabalho nas áreas de maior vulnerabilidade social dos soteropolitanos.

Lembro-me que tinha uma caixa de fotografias que quando batia saudade me mostrava os locais e as atividades realizadas. Guardava para um novo encontro.

Ficamos em quarto separados, segundo ele, roncava muito. Avisou, antes de ir para o quarto: amanhã você vai participar de uma festa de Santana ou Daguia gigante.

às seis horas da manhã já estávamos na rua. Como um profundo conhecedor das coisas da Bahia, ia falando de cada prédio, de cada rua… Escolheu um lugar onde poderíamos assistir a tudo, como gostava de dizer, “numa mesa de pista”. Começa o espetáculo. Todas as irmandades com seus estandartes, membros e o povo simples da Bahia. Um grande bloco sem cordas ou sem separação, todos irmanados na devoção ao Senhor Bonfim, entoando o Senhor do Bonfim: Dessa sagrada colina, Mansão da misericórdia, Dai-nos a graça divina, Da Justiça e da concórdia,  de autoria de Caetano Veloso e Gilberto Gil, vai penetrando na alma da gente de um jeito, que confesso, era um transe coletivo. Tipo o hino de Santana, de Caicó:  Senhora doce e clemente, mãe da graça e do perdão Abrigai-nos docemente dentro em vosso coração… Ou de Nossa Senhora Daguia,  do Acari  “Se o campo em festa floresce, se o perfume a flor derrama   é sempre um canto, uma prece à virgem a quem mais se ama”. Os versos de dos hinos seridoenses são da assuense Palmira Wanderley. Quem é do Seridó sabe bem do estou falando.

Após esse grande espetáculo fui levado para almoçar na Praça. Explico já. Em Salvador é muito comum a venda de alimentação na rua. O local era no Porto da Barra. Em uma pequena praça uma senhora monta e desmonta todo santo dia seus tabuleiros. O mais importante: ela diz o cardápio e vai colocando, a cada sim uma surpresa. Deixa a comida do Restaurante do Sesc, no Pelourinho, no chinelo como se diz. A sobremesa foi servido o melhor quindim que comi até hoje.

Após se refastelar nesse almoço fomos em direção ‘Além do Carmo’. Parecia que estava em uma obra de Jorge Amado. Ele Conhecia cada igreja, casarão e beco. Foi me mostrar um dos mais belos pôr do sol da cidade. O ‘Além do Carmo’ fica em uma colina de lado para a Baia de Todos os Santos, e o sol vai mergulhando lentamente no mar da Bahia, como diz Caetano Veloso.

Em outra oportunidade numa quarta-feira de Cinzas, fomos até a Colina Sagrada para ver as Filhas de Santo, que tinham acabado de passar por um ritual do candomblé. Meus olhos não sabia para onde olhar de tanta curiosidade e informações ao mesmo tempo.

Viajar com Antônio Galdino de Sousa Neto, era sempre uma surpresa agradável. 

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