Crônicas do domingo

A chegada de meu amigo Dom Pedro Casaldáliga no Céu

Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Folclorista e escritor.

Quando parte um amigo ou alma do bem, os cordelistas logo lançam seus folhetos com títulos contando da chegada desses ao céu. Que bom que muitas pessoas vêm ao mundo diferenciar a banalidade do mal. Sabemos historicamente que a Igreja Católica do passado foi omissa na matança de negros, índios e pobres. A nossa Canudos, do beato cearense Antônio Conselheiro, foi um exemplo bem brasileiro disso. Depois, poucos religiosos em nome do catolicismo pediram desculpas pelos seus graves erros históricos já cometidos. Mas, infelizmente, em nome de Deus, ainda se cometem muitas misérias em pleno século XXI…

Vamos dar início a prosa de hoje, que não é, digamos assim, tão alegre e cheia de bom humor como as minhas costumeiras. Declaro que já conhecia o bravo Bispo Catalão, (16-02-1928) de reportagens e fotografias em algumas revistas brasileiras dos anos 70/80. Tempos de certos assuntos proibidos! Só o conheci pessoalmente em setembro de 1993, quando cheguei numa manhã de sol forte no sertão baiano de Canudos. Um dia anterior à comemoração do centenário de fundação daquela comunidade, que fora dizimada criminosamente em 1897.

Era dia de feira na referida cidadezinha e eu, com muita fome de uma noite de viagem em um ônibus bem velho, fui de imediato tomar meu café matinal canudense. A senhora barraqueira bem alegre me serviu bode assado, com cuscuz e café. Era o que tinha ali para vender naquele ano de grande seca e eu contando os trocados nos bolsos para voltar a Natal. Um velho de cor escura e rosto muito enrugado, demonstrando mais de oitenta anos, se servindo ao meu lado, perguntou-me na bucha: ”O que o jovem veio fazer por estas bandas?”. Ficou espantado com minha resposta: “meu senhor, vim de Natal no Rio Grande do Norte, ver as comemorações dos cem anos de fundação dessa terra abençoada”. Ele encerrou nossa conversa com uma observação bem profética: “Fique sabendo que deixar de ganhar dinheiro para ouvir histórias do povo não dá futuro para ninguém!”.

Orientado onde era a casa do Padre de Canudos/BA, eu parti ligeiro, com meu gravador e uma pequena máquina Kodak. Fotografei a feira, o povo e o açude Cocorobó. Também entrevistei algumas pessoas mais velhas sobre o que restava da oralidade da antiga guerra entre beatos e militares brasileiros há cem anos passados. Cheguei à casa paroquial bem cedo e já encontrei muitos repórteres na fila para ouvir o Bispo de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, que ia comandar a esperada comemorativa celebração religiosa. Vi um senhor magrinho, de óculos, com chapéu de palha na cabeça, sandálias de couro, camisa de manga curta e um anel de ‘tucum’, feito de palmeira da Amazônia. O Bispo que eu conversei, diferentemente da maioria dos outros, não ostentava ouro, motorista particular, seguranças ou roupas suntuosas. No meio de nossa conversa, ele até riu muito com uma confusão causada por uma jornalista que chegara perto de nós e se dirigira a mim, como se eu fora o Bispo. Segundo ele, era eu que estava mais arrumado para ser o biótipo. Tomamos suco com bolachas e assim que soube que eu não tinha lugar para hospedar-me, chamou o Padre e disse-lhe: “Arranje um cantinho aqui para hospedar meu amigo que veio sozinho de muito longe”. O Bispo e eu dormimos em duas boas redes baianas. Quem diria um Bispo dormir em uma rede em um quarto simples. Convidou-me para acompanhar-lhe pela cidade a pé. Ele abraçando e abençoando o povo, entrando em casebres, tal quais aqueles primeiros cristãos que iam as cidades estranhas, sem riquezas nos matulões.

Durante a celebração religiosa, Dom Pedro Casaldáliga convida o único Pastor representante da Igreja Batista local e uma Mãe de Santo, para juntos oficiarem os atos litúrgicos. Os três religiosos, devidamente harmoniosos e cada um ao seu modo e com suas mensagens, emocionaram as milhares de pessoas presentes, vindas de toda parte do Brasil. Quase todos foram às lágrimas quando o pequeno e magrinho Pedro, aos gritos, pediu ‘Perdão’, em nome da Igreja Católica, pela carnificina ocorrida naquele povo canudense!

Aconselhado pelo amigo Bispo, fui às margens do Açude, outrora Arraial do Bom Jesus, encher uma garrafinha de suas místicas águas, lavadas de sangue dos antigos mártires! Pedro dizia-me que eles eram verdadeiramente nossos Santos nordestinos. Canonizados pela fé do povo também sofrido!

Ao me despedir daquele grande homem, lhe falei que era um pesquisador pobre e tinha um projeto de um novo livro em andamento, intitulado – ‘Profetas do Nordeste’, que trataria dos líderes: Padre Ibiapina, Antônio Conselheiro, Padre Cícero, Beato José Lourenço e Frei Damião. Disse-lhe também que era fruto de minhas pesquisas e andanças pela Paraíba, Ceará e Bahia, sem apoio institucional algum. E gostaria muito de sua apresentação ao sonhado livro. Ele, gentilmente, pediu-me para enviar os originais para a sua terra escolhida em Mato Grosso. Pouco tempo depois veio pelos Correios à prometida apresentação com palavras de incentivo ao seu novo amigo Potiguar: “Gutenberg Costa pode escrever este livro com autoridade, por dois títulos incontestáveis que ele possui: é um especialista na matéria e é um apaixonado na causa… Gutenberg nos dá o retrato, gritado com paixão e analisado com realismo, desses nordestinos protótipos…”.  Além da citada apresentação, veio dentro do envelope, uma cartinha, me desejando muito sucesso e que eu desse por ele um fraternal abraço para seus dois outros amigos potiguares: Dom Nivaldo Monte e Horácio Paiva. 

Quando mostrei o dito comentário/prefácio de Pedro ao saudoso amigo e editor Carlos Lima, esse ficou alegre e disse-me: “Você é um guerreiro! Vamos publicar o seu livro e colocar na capa que o prefácio é de Dom Pedro Casaldáliga”.  O milagre do Bispo deu certo e em pouco tempo a edição ficou esgotada. Nem precisa dizer que do amigo Pedro vieram muitas cartas, cartões e livros. Agora, dia 8 de agosto, meu aniversário, recebo a notícia da partida do meu querido Bispo. Com toda certeza, seu xará o recebeu de braços abertos dizendo-o: “Entre, aqui é o lugar certo para quem passou a vida longe do luxo e lutando pelos humildes!”. Viva São Pedro Casaldáliga!

Ô saudade da gota!  (III)

Rosemilton Silva – É jornalista

Ouvindo o eco do trovão que assusta embandeirando serra a dentro, me dá uma saudade danada dos banhos de bica com a água batendo forte na cabeça e espalhando por toda calçada, enquanto uns meninos vão aproveitando a água descendo rua abaixo, escorada no meio fio com sua correnteza mais ou menos forte e a molecada mais embaixo vai se lambuzando na água barrenta do barro que vai brotando do chão para baixar a poeira e amenizar o calor.

E assim, até o homem todo preto que vem da própria cor da pele e do pó do carvão que salta dos sacos feito da aroeira, que dá uma brasa duradoura para cozinhar a comida ou encher o ferro de engomar que vai sendo balançado de um lado para o outro, enquanto as faíscas vão lembrando que a brasa está avivada, prontinha para engomar o linho, a mescla, a chita, o fustão…

Homi, apois num é que olhando pra rua Grande dá pra ver o vaqueiro com seu aboio lindo tangendo um boi brab, com viseira pra fechar parte dos olhos indo no rumo do matadouro, enquanto a meninada tenta aproveitar a farra pra dizer que não tem medo do barbatão. E aí vem na lembrança, o cabra forte trazendo nas costas um quarto de boi para ser retalhado na banca do marchante durante a feira.

Me vem na mente olhando um pouco mais pra baixo onde a lona do circo começa e ser assombreada pelo sol do entardecer, dá pra ver a movimentação do palhaço cantando “O raio do sol suspende a lua” e a meninada responde: “Olha o palhaço no meio da rua!”. “Hoje tem espetáculo?” “Tem sim, senhor!” “Às 8 horas da noite?” “É sim, senhor” e terminada a peregrinação anunciando o espetáculo pelas ruas da cidadezinha, a meninada vai ser carimbada no braço, vai tomar banho com o dito cujo suspenso pra não molhar o carimbo e perder o ingresso para ir se divertir no circo mais tarde.

Descendo ainda mais, os olhos já marejados turvando a visão mas sem matar a saudade lembrada na beira do rio onde começa uma pelada bem longe das casas para a bola não cair no quintal ou esbarrar na porta e o dono ficar sem aquele “capotão” que teve a câmara de ar recentemente consertada porque rasgaram com faca depois de atravessar uma janela e bater no rádio da sala de estar.

Mais duas lágrimas escorreram pelas maçãs do rosto quando o “rescordá” atravessa a rua da saudade vendo a meninada jogar “biloca” com suas bolinhas de gude sendo apostada ou então usando o dinheiro de papel feito de carteiras de cigarros cada uma tendo um valor diferente, dependendo do formato e da marca. Já outros, puxam suas “baratinhas” de lata e madeira, bem desenhadas até com feixe de mola. Mas bom mesmo é pedir ao pai a MerckSwiss para dar uma voltinha e fazer inveja a alguns.

Dá pra ver pela brecha do portão do quintal que as meninas se deliciam com os cozinhados e as festas de suas bonecas exibidas como verdadeiros troféus. Ah, ainda tem a inveja provocada por alguém que tem uma daquelas bonecas que falam ou cantam. É impossível manter na mente verdadeiras “casas” montadas com suas cozinhas, apetrechos e até há quem faça uma trempe para cozinhar comida verdadeira. Mais tarde, as brincadeiras serão nas calçadas a luz da lua porque será cheia e sob o olhar dos adultos que, aparentemente, fingem não dar importância ou verem o que está acontecendo.

Ah, que saudade da gota, das conversas na esquina da Cooperativa, nas mesas de um café que também pode ser num bar. Conversas animadas ou tristes dependendo dos acontecimentos do dia. Agora me dê licença porque o choro bateu forte e vou ali tomar uma água com açúcar para diminuir a tensão em Mãe Quininha que vai me oferecer, com certeza, um café bem forte com uma tapioca molhada no leite de côco que ela acabou de fazer com umas duas sardinhas assadas tirada daquela latinha oval.

A Rainha sem coroa

Francisca Teixeira – “dona Maninha”

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Francisca Teixeira, a quem todos em João Câmara conhecem carinhosamente como dona Maninha, foi esposa do ex-prefeito Chico da Bomba e responsável por sua destacada atuação na política do Mato Grande. Por ser detentora de um porte altivo, elegante e firme, recebeu de seus adversários políticos, o apelido de rainha sem coroa.Mas se alguém imaginava que tal apelido iria aborrecê-la, enganou-se redondamente, porque ela não deu a mínima. Até gostou do termo, assumindo publicamente ser uma rainha – apenas faltava-lhe a coroa.

Vereadora por mais de uma legislatura, Maninha era filha de um abastado fazendeiro da Baixa de Angicos e atuava na política sem jamais esquecer suas raízes profundamente fincadas nas fazendas da família. Assim, circulava com desenvoltura entre os dois mundos.

Depois que seu pai partiu para a eternidade, coube a ela a responsabilidade de administrar as terras deixadas por ele, uma vez que seus irmãos decidiram trilhar outros caminhos longe do Rio Grande do Norte. E ela que sempre demonstrou a habilidade necessária para conduzir os trabalhos que uma fazenda requer, acabou por aumentar as propriedades herdadas dos pais.

Sem demonstrar qualquer dificuldade, ela logo tratou de aumentar o gado, duplicando a quantidade de bois para corte e vacas leiteiras, como também fez crescer o plantel de cabras, carneiros, porcos e galinhas. Jamais demonstrou hesitação em lidar com os trabalhadores, os quais sempre a trataram com respeito e consideração.

A única vez em que Maninha enfrentou algum obstáculo na administração de uma das suas fazendas, ocorreu quando o vaqueiro de sua mais profunda confiança decidiu pedir demissão, porque queria se mudar com a família, para tentar a sorte em Goiás.Ela ainda tentou dissuadi-lo da ideia, mas, como ele estava determinado à mudança, ela, embora lamentando a perda, pediu ao contador para providencia o pagamento do vaqueiro e ele partiu.

A notícia de que dona Maninha estava precisando de um vaqueiro logo se espalhou pela região e um candidato para o cargo se apresentou. Tratava-se um gaúcho que chegara à região do Mato Grande fugindo das enchentes e geadas do Rio Grande do Sul.

Durante a entrevista, a experiente fazendeira se deu por satisfeita com a conversa do gaúcho e decidiu contratá-lo. Mostrou a ele as dependências onde iria morar, mostrou a fazenda e por fim entregou-lhe todo o material necessário para a ordenha das vacas, entre os quais, o banquinho usado pelo vaqueiro anterior.

Enquanto o gaúcho guardava o equipamento, Maninha lhe fez uma advertência: “quando você tirar o leite das vacas, coloque um copo na janela do meu quarto, porque quando eu acordo, gosto de tomar o leite quentinho, tirado na hora”. O gaúcho respondeu prontamente: “não se preocupe, porque eu iniciarei o trabalho conforme combinamos”.

No dia seguinte, Maninha acordou, abriu a janela, mas o copo de leite não estava lá, como havia sido combinado. Olhou para o curral e mal podia acreditar naquilo que seus olhos viam, tamanho era o alvoraço entre os animais.

Rapidamente trocou de roupa e correu para o curral a fim de saber o que estava acontecendo. As vacas corriam de um lado para o outro, enquanto o vaqueiro corria em seu encalço, tentando laça-las, sem sucesso. Ele já caíra várias vezes, de forma que tinha esterco e lama espalhada por todo o corpo.

“Gaúcho, o que está acontecendo aqui? Cadê o leite?” – Indagou ela. O vaqueiro cansado, mal conseguia balbuciar uma palavra. Depois de um tempo disse: “ainda não consegui, dona Maninha, mas estou tentando desde às 4:00h da manhã”.  “Não conseguiu, o quê, homem de Deus?” – Perguntou ela, entre surpresa e irritada. “Não consigo fazer as vacas sentarem nesse banquinho para que eu possa tirar o leite”. Disse o Gaúcho, demonstrando que não sabia tirar leite de vaca.

A rainha sem coroa explodiu numa gostosa gargalhada e mandou chamar seu compadre Alarico para solucionar a questão da ordenha das vacas. O gaúcho saiu para tomar banho e, envergonhado, deixou a fazenda e decidiu procurar emprego na empresa eólica que se instalou na região.(21/07/2020)

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