Bocas e Boas

Valério Mesquita ([email protected])

01) Mossoró foi a Pasárgada do prefeito Dix-Huit Rosado. Seu encanto, fascínio e sedução. Nessa época, ele era o seu alcaide o domador da fúria das águas do rio Mossoró que, nas invernadas, inundavam parte da cidadela. Implementado o seu projeto de dicotomia do rio Mossoró, julgou superado o problema das enchentes definitivamente. Mas, como era do seu espírito indômito, na época do inverno, permanecia vigilante, caminhando altaneiro pelas margens, buscando notícias de chuvas caídas na região da tromba do elefante. Numa tarde, João de Malaquias, vigia dos depósitos das lojas Checernay que ficavam próximos ao rio Mossoró e pastorador primeiro dos anúncios de enchentes, foi assim interrogado pelo prefeito Dix-Huit: “Alguma notícia, João, de águas provindas do município de Pau dos Ferros?”. Na sua sapiente humildade, João de Malaquias foi profundo: “Não dá pra saber Dr. Dix-Huit, porque as águas estão chegando misturadas…”

02) Presença do governo em Mossoró. Os eventos políticos e administrativos entraram noite adentro. Após reuniões e inspeções, o coronel Gadelha, comandante geral da PM, resolveu procurar com o ajudante uma farmácia na cidade para curar uma forte dor de cabeça. Após uma certa procura, divisou ao longe um letreiro: “Farmácia Dia e Noite”. Sentiu um alívio prévio e ordenou ao motorista para se aproximar. Para a sua surpresa estava fechada. Pensou que fosse engano, pois afinal, era 01:30 da madrugada e resolveu bater a porta. De dentro da farmácia ninguém saiu mas um vizinho ao lado, acordado pelas pancadas, assomou à janela para dizer: “Ela só abre de dia ou de noite e agora já é madrugada”. Gadelha agradeceu e sumiu sem entender bulhufas do fuso horário nem dos costumes do país de Mossoró.

03) Luiz de Oliveira, do Assu, foi um bem-sucedido comerciante. Seu estabelecimento de secos e molhados vendia em grosso e a varejo. Parte do seu sucesso era devido à avareza. Não dava um “pão a um doido”, diziam na cidade. Na semana santa, observando a paisagem da calçada do comércio avistou o pai e o sogro que certamente viriam pegar algum auxilio, pois eram pobres. De repente, Luiz chamou a esposa: “Joaninha, lá vem teu pai e o meu. Encha aí as sacolas deles com alguma coisa, que eu vou sair por aí. Eu não posso assistir dar o que é meu”.

04) Nos anos 1960, a feira livre do Assu era mais desenvolvida e frequentada por feirantes de Angicos, Afonso Bezerra, Augusto Severo e vizinhanças. O misto de Petronilo, um Chevrolet gigante, rodava lotado, cobrindo o mato de poeira, mas à tarde estava de volta. Os feirantes soltavam pilhérias com quem cruzava. O velho Neo Pinto, morador do sítio Quixabeirinha, todas as tardes tirava uma soneca no alpendre à beira da estrada. Murilo Caiana, um passageiro presepeiro, gritava sempre: “Tá descansando, heim, corno véio?”. O riso era geral e a viagem prosseguia. Um dia, o caminhão furou um pneu a poucos mais de quinhentos metros da casa de Neo Pinto. O grito de “corno véio” ainda ecoava no ar. Neo Pinto levantou da rede, apanhou uma espingarda calibre 36 e aproximando-se do caminhão cumprimentou: “Boa tarde, pessoal!”. Responderam uníssonos: “Boa tarde!”. O velho interrogou: “Eu queria saber quem é o f.d.p. que grita toda vez: ‘Tá descansando corno veio?’. Todo sábado eu escuto isso!”. E engatilhando a arma: “Fala gente! Quem grita isso?”. Ninguém falou. “Vamos bando de cornos!”, gritou Neo, já irado. “Não tem homem, não?”. Todos olharam para Murilo Caiana, cobrando uma atitude. O engraçado, amarelo de medo, tentou remendar: “Meu patrão, quem falou foi eu… Porém, o senhor entendeu errado. Eu digo assim: Tá descansando, heim, corpo véio?”. E ainda, meio tremulo, concluiu: “O senhor desculpe. Daqui pra frente, não digo mais nada”. A merda descia no mocotó…

 

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