Aventuras de Gugu- o menino que não queria estudar

Imagem Ilustrativa

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Meu pai costumava contar que viveu sua infância num sítio localizado no município de Santana dos Matos. Vivia, portanto, de forma livre, brincando sem medo, no meio do mato. Nadava nos açudes, pescava, caçava passarinhos e cavalgava no lombo dos burros e cavalos sem o uso da cela, liberdade completamente desconhecida para as crianças de hoje. Com tanta disposição e espaço para brincar, ele, como era natural, detestava estudar.

Meu avô, embora sendo um homem rude afeito à vida do campo, sabia da importância dos estudos na vida dos jovens e não poupava esforços para fazer os filhos estudarem. Assim, ele contratou um padre para ensinar aos filhos, as disciplinas mais importantes da época, nas quais se destacavam Português, Latim, e Matemática, entre outras. Meus tios levavam o estudo a sério, especialmente por causa do medo do cinturão do meu avô.

Meu pai, sendo o mais novo dos filhos, levava tudo na brincadeira e não cansava de aprontar travessuras. Logo, não escapava do cinturão do pai. As surras, porém, logo eram esquecidas e ele tratava de aprontar outra e mais outra travessura.

O padre contratado pelo meu avô, além de excelente professor, também entalhava imagens em madeira, usando um pequeno canivete. Certa vez, sentindo-se entediado, meu pai decidiu esconder o canivete do padre, para brincar depois da aula que fora forçado a assistir. E assim fez. Brincou o quanto quis com o canivete e depois decidiu jogá-lo dentro de uma cisterna que havia no quintal da casa, já que água sempre foi um grande problema na região.

Brincou bastante o resto do dia e já estava dormindo por volta de meia noite, quando acordou com a voz do padre chamando e batendo à porta da casa. Ele logo pensou na travessura que havia feito. Meu avô acordou, atendeu ao padre e ouviu quando este disse que viera buscar o canivete.

Ele logo pulou da cama, porque sabia a confusão na qual se metera. Meu avô perguntou pelo canivete e ele sabia que não adiantava mentir. Assim, disse logo que havia jogado dentro da cisterna. Era madrugada, fazia muito frio, mas ele sem questionar, atendeu à ordem do pai, que o mandou tomar um banho e depois mergulhar na cisterna para pegar o canivete. Sua única alternativa era obedecer. Depois da terceira tentativa, ele encontrou o canivete, que entregou ao padre com um pedido de desculpas. Levou uma surra para esquentar o couro e em seguida voltou à cama.

Apesar de todo o empenho do meu avô, meu pai dizia que não queria estudar de jeito nenhum. O que ele queria mesmo, era brincar. Afinal, tinha algo em torno de 10 anos e acabara de perder a mãe. Vivia inventando travessuras junto com outras crianças de sua idade, sem medo de nada, sem grandes preocupações ou responsabilidades.

Foi graças a uma destas aventuras que lhe rendeu uma boa surra, que ele compreendeu a importância de aprender a ler e escrever, passando a estudar enfim. Tudo aconteceu quando meu avô atrelou um burro à uma carroça e ordenou a meu pai que fosse até a cidade para comprar mantimentos no armazém de um compadre dele, conforme ocorria toda semana. De posse da lista com os produtos que deveria comprar, meu pai partiu para a cidade.

Como já era bastante conhecido pelo dono do armazém, este o atendeu com presteza e o ajudou a colocar as compras na carroça, a fim de que ele não tardasse a retornar para casa. Ocorre que, na calçada do armazém havia um grupo de garotos brincando de jogar pião, uma das brincadeiras preferidas do meu pai. Ele não contou conversa e logo entrou na brincadeira, esquecendo a hora de voltar para o sítio.

O dono do armazém, amigo do meu avô e conhecedor das travessuras do meu pai, escreveu um bilhete, que entregou a papai dizendo; “Agostinho, entregue este bilhete a compadre Vicente assim que chegar em casa”. Meu pai colocou o bilhete no bolso e continuou a brincadeira, esquecendo a hora de voltar.

Depois de brincar bastante tomou o caminho de volta, porque o sol já começa a sumir no horizonte. Foi quando percebeu que passara a tarde inteira brincando com as outras crianças. Ao chegar em casa, logo tratou de tirar a mercadoria da carroça e entregar o bilhete ao seu pai. Este, depois de ler o bilhete já foi tirando o cinturão e deu umas boas lapadas no filho.

Nesse tempo não havia a Lei da Palmada. Pais podiam bater em seus filhos sem que estes reclamassem junto ao Conselho Tutelar. As crianças que viveram este tempo, tornaram-se adultos responsáveis, tornaram-se pais e avós, assumiram seu lugar no mercado de trabalho, nenhuma enveredou pelo caminho da marginalidade e nenhuma delas é traumatizada ou tem ódio dos pais.

Enquanto chorava por causa da surra, meu pai ainda tinha que aguentar a zombaria dos irmãos, que o criticavam por trazer um bilhete que comprovava sua falta. E ele, na maior inocência perguntou ao irmão: “Então este bilhete dizia que eu estava brincando? ”  Foi quando se deu conta de que apanhara por não saber ler. E fez a promessa que mudou sua vida: A partir de agora vou estudar. Vou aprender a ler, escrever e jamais vou trazer bilhetes que me acusem de alguma travessura.

Promessa feita, promessa cumprida. Dentro de uma semana aprendeu a ler e tornou-se, depois de adulto, o meu maior incentivador ao estudo e, particularmente, à leitura.

1 Pessoa comentou
Carlinhos de Bi

Ê Agostinho levado, brincou agosto en sua infância, mas nao deixou de perceber a imoortancia do rstudo, do conhecimento. Tanto que tornou-se um grandr musicista. Parabéns amiga Nadja Lira. Mais um belo texto.

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