ARTIGO: Três vitórias orgânicas e estratégicas

* Cláudio de Oliveira

Quero chamar atenção para três vitórias eleitorais que considero orgânicas e estratégicas. Ao meu ver, são vitórias que transcendem ao aspecto eleitoral tanto de 2020 quanto para 2022 e alcançam projetos de afirmação partidária de longo prazo. A eleição de Bruno Covas, do PSDB, em São Paulo; a de Eduardo Paes, do DEM, no Rio de Janeiro; e a de João Campos, do PSB, no Recife.

A recondução de Covas à Prefeitura de São Paulo é a vitória de um quadro orgânico do PSDB, vitória do núcleo duro do partido, de sua seção paulista, que dirige nacionalmente os tucanos. Uma boa gestão à frente da capital paulistana solidificará sua liderança e capacidade política demonstradas na campanha. O prefeito, neto de Mário Covas, um importante líder da resistência ao regime de 1964, coloca-se como um socialdemocrata de terceira via, como o francês Emannuel Macron.

Eduardo Paes já passou pelo PV, PFL PTB, PSDB, PMDB até ser eleito prefeito neste ano, agora pelo DEM. Seu êxito eleitoral representa sobretudo a vitória de uma articulação promovida por Rodrigo Maia, que esteve ao seu lado no discurso de posse. Maia, presidente da Câmara, é um quadro orgânico do DEM, que juntamente com o também vitorioso prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto, diz promover a renovação do partido e buscar situá-lo como uma agremiação liberal-democrática aberta ao social, a exemplo da CDU da alemã Angela Merkel.

Igualmente, a vitória de João Campos no Recife, é uma aposta em um quadro orgânico partidário, vitória da seção do PSB de Pernambuco, que controla o núcleo duro do diretório nacional do partido. João Campos é bisneto de Miguel Arraes, que começou sua carreira como deputado estadual pelo centrista PSD em 1945, tornou-se um ícone da esquerda nordestina ao assumir a prefeitura do Recife e depois o governo do estado nos anos de 1960. Na década de 1990, assumiu a presidência do PSB. João Campos é filho de Eduardo Campos, neto de Arraes e também governador pernambucano e presidente do PSB. Eduardo Campos morreu em 2014, vítima de acidente aéreo quando era candidato a presidente da República. O PSB é filiado à Aliança Progressista, uma instituição internacional que reúne correntes socialdemocratas e do socialismo democrático da Europa e do mundo.

Covas, Maia e Campos ainda têm muito chão pela frente. São quadros orgânicos que podem representar, no futuro, três fortes correntes políticas organizadas partidariamente. Eles e o país ganhariam muito se tivessem capacidade de diálogo entre si. Um diálogo sobretudo para construir um projeto estratégico comum de desenvolvimento para o Brasil. Um projeto que incorporasse o país às cadeias produtivas globais, gerasse riqueza e distribuísse renda aos brasileiros pobres, a exemplo do que faz a China. Com a vantagem para o Brasil de realizar tal projeto dentro de um regime democrático e pluripartidário.

Creio que a adoção do sistema parlamentar de governo facilitaria o necessário diálogo entre esses e outros partidos, à esquerda e à direita, para a boa governabilidade do país. PSDB e PSB votaram pelo parlamentarismo no plebiscito de 1993. O então PFL e atual DEM se dividiu, com uma parte votando na proposta parlamentarista e a outra no presidencialismo.

Acompanhemos a trajetória dos três. Quem viver, verá.

PS 1: Poderia talvez incluir nessa lista, a vitória do candidato de Ciro Gomes em Fortaleza, mas tenho dúvida, uma vez que o ex-governador se caracteriza mais por um tipo de liderança personalista do que propriamente partidária.

PS 2: Mesmo derrotado, a ida de Guilherme Boulos ao segundo turno pode ser também uma vitória estratégica para o Psol. Principalmente se Boulos demonstrar compromisso com a organização do partido.

* Cláudio de Oliveira é jornalista e cartunista e autor dos livros ERA UMA VEZ EM PRAGA – Um brasileiro na Revolução de Veludo e LÊNIN, MARTOV A REVOLUÇÃO RUSSA E O BRASIL, entre outros.


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