ARTIGO: Contemplando a Morte

Padre Matias Soares – Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório -Arquidiocese de Natal

O mundo está em crise. Talvez pareça mais uma atitude imediata falar dela. Desde o final dos anos 60 para o início dos 70 que a civilização ocidental vive de crises. Elas são resultado das revoluções que o humano pós-moderno começou a realizar e assumir, por causa da ruptura dos paradigmas estruturais na comunicação, na educação, na sexualidade, na biotecnologia, no cuidado com a natureza e assim sucessivamente.

Até os dias atuais, os volumes escritos pelos cientistas sociais eram absolvidos nos ambientes acadêmicos como referências para que fosse declinado acerca de como a sociedade e as pessoas são, no seu modus operandi. Havia até então uma dificuldade de entender que existe uma crise, mas essa era a do sujeito. Existia uma catarata antropológica disfarçada pela força do poder econômico, alinhado à força das novas ferramentas digitais. A cegueira tomou conta das pessoas pelo consumismo e a alucinação gerada por tudo aquilo que parecia ser a via da felicidade. A globalização da indiferença foi denunciada pelo Papa João Paulo II. Em Lampedusa, na Itália, o seu sucessor, o Papa Francisco, anunciou que é urgente a mundialização da solidariedade.

Diante de tudo isso, aparece a Covid 19. Esse mundo, marcado por tantas possibilidades tecnológicas e econômicas, decai diante de um vírus. Os poderosos(as) se mostram impotentes. As estruturas começam a desvelar a sua vulnerabilidade. Não é uma gripezinha. É real e começa a matar as pessoas em todo o mundo, principalmente àquelas que estão em situação de risco, com idade avançada e tantas morbidades. Além das mortes, o cenário é de causar doenças psicológicas: a ansiedade, o mal do pânico e o stress. O que começa a tomar forma é a radicalização da desconstrução de tudo aquilo que foi inaugurado na modernidade, sinalizada pelo que matematicamente podia ser constituído, e que oferecia segurança aos indivíduos. A sociedade pós-moderna é a sociedade dos indivíduos.

Por trás da carga da autossuficiência puerilmente inchada com a hipermodernidade terá a sobrecarga da superficialidade. Com a dinamicidade das mudanças de padrões desta época, poderemos pressentir o vazio que invade o mundo contemporâneo, sinalizado no modo com o qual as pessoas vivem a experiência da morte: a das crianças recém-concebidas, a dos idosos, a dos imigrantes, dos miseráveis e demais seres humanos que habitam as periferias geográficas e existenciais e, por último, a própria criação.

Eu contemplei a morte. Fui contagiado pelo vírus. Tudo foi tão rápido. Tomei todos os cuidados protocolares. Contudo, fui violentamente alcançado pelo maldito que não vi; mas senti o que ele é capaz de causar. De uma saída rápida para ser atendido por estar com uma forte dor de cabeça, que me assolava por mais de uma noite, até permanecer trinta e nove dias na UTI de um hospital, desacordado, entubado e com poucas chances de sobrevivência. Os delírios foram tantos. Eu só os contemplava. Era sujeito passivo do que acontecia na minha consciência: desde o fim do mundo até a morte das pessoas que fazem parte da minha vida. A sensação que tinha durante todo o tempo é que só faltava a minha morte. Alguém me segurava; mesmo quando a minha percepção só me indicava uma única realidade: o fato de que eu só tinha por verdade a certeza da minha morte.

Em determinado momento, escutei alguém que me dizia: “Padre Matias, na paróquia, os fiéis estão organizando um ‘Cerco de Jericó’ pela sua recuperação”. Ai que percebi que tinha vida; pois, até então, pensava eu que já tinha morrido. Depois disso, comecei a lutar pelo Dom mais precioso que Deus me deu. Acordei, mesmo quando alguns dos profissionais da saúde, já tinham desacreditado da minha possível recuperação. Depois de acordado, tive que enfrentar a realidade da ansiedade. Aqui devo registrar a minha gratidão a todos os profissionais que cuidaram de mim, no hospital e que ainda continuam a fazer. Que o Senhor da vida os abençoe! Serei sempre grato.

Em muitos momentos sentia que iria morrer infartado. Não gostava de ficar sozinho. Necessitava da água para poder suportar um quarto, que me separava do contato com outras pessoas. Alguns profissionais, mais bem preparados humanamente, tinham uma atenção e compreendiam determinados comportamentos de desassossego. Era muito sofrimento. Nunca tinha passado por algo tão doloroso. Clamava por Deus! Perguntava a Ele porque tamanho sofrimento. Até hoje, tento encontrar algumas respostas para poder tirar lições.

Pela minha formação teológica, sei que Deus não é o Autor do mal. Este é fundamentalmente a “ausência do bem”. A enfermidade me fez ter mais clareza de que existe o senhorio de Deus. Eis uma das verdades concedidas pela minha fé! Esta não renega a ciência; mas pode oferecer luzes, quando o olhar humano só percebe escuridão. Outra certeza até então recepcionada por mim é que sou tão frágil; tão limitado; demasiadamente vulnerável. Tenho que reconhecer essa verdade, para poder encontrar o meu Tudo. Às vezes, temos que trilhar vias tortuosas para alcançar essa meta. Nos machuca tanto; mas…

Como escutei tanto das vozes dos mais simples; porém, tão sábios: não há mal que não nos traga um bem! Atribuo muito da minha cura e contínuo restabelecimento à “oração do povo santo de Deus”. Quantos testemunhos e palavras de conforto advindos das pessoas e irmãos presbíteros, não só do presbitério do qual faço parte, como também, de tantos irmãos presbíteros e bispos que conheci aqui no Brasil e de outros países. Até uma mensagem do Santo Padre, o Papa Francisco.

Alguns atribuem a esse acontecimento algo como que de “milagroso”: sejam os protomártires do Brasil, seja o Padre João Maria, seja Nossa Senhora… Eu acredito que todos os amantes de Deus, que cochicharam no ouvido do Nosso Salvador para que eu pudesse permanecer um pouco mais cumprindo a minha missão, contribuíram e fizeram a sua parte em favor da minha vida. Ao querido povo de Deus, que tanto orou por mim, a minha eterna gratidão.

Por fim, muito ainda poderei dizer em meus testemunhos e homilias para que tantos possam ter a alegria de viver e ter a vida como um dom a ser zelado e salvaguardado em cada momento da nossa história. Não temos o direito de barateá-la, nem a nossa, nem a dos outros. Urge a nossa fraternidade universal. Somos todos irmãos. Assim o seja!

1 Pessoa comentou
Aécio Medeiros

Só quem foi acometido pela COVID-19 e teve a sorte de ficar curado é quem pode relatar o sofrimento causado por essa doença.

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