Antes que eu me esqueça

Manoel Bezerra – Bacharel e Licenciado em História, pela UFRN ( 1998-2003)


Sou filho de um folião nato. Meu pai se vestia de mulher, de cangaceiro e o que mais lhes desse vontade. Lembro dos meus pés queimando na quadra do Aero Clube, de Currais Novos. Sim, a capital da schelita também tem seu Aero Clube. Mas isso já faz muito tempo, era década de 70.

Após a nossa mudança para Natal, o carnaval passou a ser televisivo. Explico: a televisão passou a fazer parte das nossas vidas. Antes, nas casas dos vizinhos, para assistir Batman e Spide Racer, na casa Dona Silvina, todos tomados banhos e arrumados e paparicavam os filhos de Severino e Mariquinha.

Entre as muitas aventuras carnavalescas do meu pai e de vários casos contados. Foi o primeiro capotamento no viaduto de Ponta Negra. Segundo relatos, não era hora dele morrer. O pobre Fusca ficou dependurado na mureta de proteção.

Geralmente, no período de Carnaval, retornávamos a Currais Novos, a atração principal depois dos banhos de chuva e de açude era a transmissão pela Tv, dos desfiles das escolas de samba. Aprendi desde muito cedo o movimento das câmeras. Já explico: na década de 90, realizamos dois sonhos: ver o Flamengo jogar no Maracanã e desfilar na Escola de Samba Beija-Flor. É algo que não tem como explicar. A pessoa se sente como um ponto dentro da televisão. O Maracanã lotado, a torcida – um espetáculo a parte -, era um misto de sorrir e chorar ao mesmo tempo.

Já a Sapucaí, é ser figurante no maior espetáculo da terra. Desculpe o ufanismo. O processo se desenvolve em três atos: concentração, evolução e dispersão. A concentração, chegamos tipo 19h e, a escola ia entrar as 4h da manhã. O que fazer nesse intervalo? Beber, paquerar, ser paquerado. Um detalhe: a ala que ficamos era toda gringa, então ficamos na primeira opção. Com o passar do tempo, chegam os coordenadores da ala perguntando se sabíamos o samba. Como desconhecíamos, fomos deslocados para a segunda fila. Teríamos exatos 15 minutos para evolução, nos imensos 500 metros da Marques da Sapucaí. Passamos como um raio.

Como bom espectador dos desfiles, sabia que no centro viria uma câmera, então peguei um velho amigo e disse: vamos ficar aqui que seremos vistos pelos que ficaram em casa. Entramos para o desfile da Beija-Flor, em 1996, como uma das piores participações da escola no Carnaval daquele ano.

O difícil foi a dispersão. Todo mundo se desfazendo das fantasias. A minha de um resplendor de mais de dois metros, o suporte já tinha arrebentado a pele dos meus ombros. Assim mesmo, entramos no taxi que nos levou de volta ao hotel. O melhor de tudo era a volta para casa, trazendo a fantasia no Galeão, um verdadeiro festival de sacos de lixo.

Tive experiências nos carnavais de Barra de Maxaranguape, Touros e Acari. Carnavais família. Até que um dia você descobre as ladeiras de Olinda. Depois da primeira vez, você cria uma dependência. Hoje, chamam de lacração, naqueles anos 90 era delimitação de territórios, os Quatro Cantos e a 13 de Maio, era onde o pessoal que não tinha saído do armário ocupava os territórios. Tinham até abreviaturas para os que vinham do Rio Grande do Norte, eram chamados de “DINA”. Eram considerados os mais barras. Adoravam um amor de quatro dias, principalmente, se o outro(a) tivesse um(a) companheiro(a).

Lembro de uma simpatizante, filha de uma importante figura da política potiguar, que conheceu um gringo no Carnaval, e hoje, é uma condessa, na Itália. O roteiro era imenso. Começava no Galo da Madrugada e terminava na terça-feira, no Bar da Cris, no Arruda. Hoje, o território da 13, são das novinhas, não tem mais o encanto dos beijos roubados dos anos 90, o beijo passou a ser planejado e discreto.

Na última vez que fui ao Carnaval pernambucano, um grupo de paulistas desavisados entrou sem querer na 13 e ouvi o seguinte comentário: “Até o fotógrafo é gay”.

A minha melhor história vivida nas ladeiras de Olinda foi do amigo/irmão Pedro Paulo. Ele, com seus quase dois metros de altura, próximo ao Mercado, da Bernardo Vieira. Vinha uma troça e ele, nervoso, com a multidão, antes, tínhamos tomado mais ou menos, um litro de Jonnhy Walker, com algumas doses de guaraná trazidos na bagagem, de Manaus.

Fomos os primeiros a voltar para casa, só que pegamos o tapete da entrada do apartamento e fizemos um travesseiro, pois não sabíamos onde estava a chave. Quando os outros chegaram, encontram nós dois no maior ronco. Sim, a bendita chave estava debaixo do tapete. 

O Carnaval é sempre uma alegria, não tem distinção de classe, é todo mundo junto e misturado, que se acaba na quarta-feira de cinzas.

Espero que em 2022, possamos voltar a subir as ladeiras de Olinda, ir ao Marco Zero, no Recife. Não é hora de ficar triste, com vacina e com ciência estaremos juntos novamente.

Como diz o frevo, Saudade. Quem tem saudade não está sozinho tem o carinho da recordação por isso quando estou mais isolado estou bem acompanhado com você no coração. Um sorriso,um abraço e uma flor. Tudo é você na imaginação, serpentina ou confete, Carnaval de amor. Tudo é você no coração. Você existe como um anjo de bondade e me acompanha nesse frevo de saudade.

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