A Natal que o vento levou…

Praia dos Artistas ( Natal/RN), nos anos 70


Roberto Patriota  – É jornalista e escritor


Houve uma época entre o inicio da década de 70 e alvorecer dos anos 90, que toda uma geração foi muito feliz e tinha absoluta certeza disso. Lembrar desse tempo faz o coração bater mais forte, desperta emoções, romantismo e alegrias. Em muitas das conversas de fim de tarde que costumo ter em cafés da cidade com o primo e amigo de infância, Eduardo Patriota, vem sempre à tona um pouco da Natal da nossa infância e juventude, quando aproveitamos para realizar uma verdadeira viagem através do túnel do tempo da memória. Reviver em especial, Natal das décadas de setenta e oitenta é mergulhar em um tempo que se foi para sempre e ficou guardado no coração de toda uma geração.

Em meados dos anos 70, Natal pousava de Rio de Janeiro diminuto, mas ainda com ares de cidade provinciana, metida à pré-metrópole. Foi nesse período o início dos hot-dogs, vendidos na famosa lanchonete Bom Lanche, na rua João Pessoa, na Cidade Alta. Nas portas de clubes, como Casa da MPB e Aeroclube, por exemplo, as carrocinhas vendiam Big-Dog, Ki-Dog, Xis-Dog entre outros lanches com nomes “made in USA”. Cachorro quente de carne afamado por todos só na carrocinha do “Zuza”, durante a semana encontrava-se sempre perto do Feijão Verde e do Bar do Tetéu, no bairro de Lagoa Nova. O Feijão Verde era ponto obrigatório dos fins de farras quando na madrugada, a juventude natalense saboreava os famosos caldos revigorantes, um tipo de “mata ressaca”. 


Como não lembrar do colégio Marista da minha adolescência, das tardes amenas do futsal no Maristão, do espirobol embaixo das mangueiras, dos Jerns, dos tantos amigos, dos professores e diretores como os irmãos Artur e Getúlio, professoras Almira e Socorro, só para citar alguns. As lembranças são muitas, da infância e juventude junto aos primos Eduardo, Wagner, Toinho, Alexandre e Leonardo Patriota e amigos mais próximos como José Maurício Fonseca, Antônio Rosado, Júlio Rosado Filho, Tinho do ABC, Lavoisier Nunes, Roberto Máximo, José Avelino (Jotilha), Mauro Eugênio Fernandes, Lilian Cristina, Eduardo Sá, Celso Lisboa Neto, Roberto Pacheco, Marcus Amadeu, Wilma e Wilka Câmara, Rita Maia, Verônica Melo, Adailton Lima, Everardo Siqueira, Tércio e Pompilho Rosado entre tantos outros. 


Saindo da infância para a adolescência na primeira metade da década de setenta, lembro-me bem dos famosos sapatos “Cavalo de Aço”, quem não tinha um não podia fazer parte da “turma”. Também naquela época o jeans tinha que ser Lee ou Levis legítimos, vindo dos Estados Unidos chegava aqui em tamanhos grandes, eram quase sempre reformados pelos alfaiates de plantão que existiam aos montes em toda parte da cidade. No entanto nenhum alfaiate superava Ebenézer, que tinha seu famoso atelier no bairro do Alecrim. Ninguém confeccionava um terno, uma calça ou uma camisa como ele. Os jeans mais estilosos tinham “nesga” e boca de sino, assim recomendava a moda dos anos 70.

Naqueles tempos os refrigerantes mais populares, todos em garrafas de vidro, eram: Coca-Cola, Crush, Grapette, Fratelli Vita e Guaraná Dore ou Champagne. No final da década de 70 e primeira metade dos anos 80, era nos Frango da Passagem ou Frango Dourado, ambos situados na Avenida Prudente de Morais, que se comia frango assado na brasa e se bebia cerveja Pilsen, caipirosca, whisky Passaporte, Drink Dreher, Cuba-Libre, Martine entre outras tantas bebidas consumidas na época. 
Ainda nos anos 70, em todos os bares e restaurantes bebia-se água mineral Santos Reis, em garrafinhas de vidro para fazer charme. Quem viveu aqueles anos, certamente vai se lembrar dos sorvetes Big Milk, Maguary e Chapinha, únicas marcas comercializadas em Natal. Fora isso, sobravam o din-din e poli que eram feitos geralmente pelas empregadas domésticas com o consentimento das patroas nas casas de família, uma forma de aquecer o orçamento das auxiliares do lar.

Por onde andam as grandes empresas daqueles tempos: Casas Rio, Lojas Seta, Casa Régio, A Sertaneja, de Radir Pereira que tinha filiais em todo o Estado, Socil, Farmácia Dutra, Casa Vesúvio, O Grande Ponto, Natal Clube, Cinema Rex e Nordeste, Cine Rio Grande, Ciprofar, Drogaria Guararapes e tantas outras afamadas empresas da época? 
No fim da tarde, a juventude corria para a lanchonete Bom Lanche, localizada na rua João Pessoa, para pedir uma maça com leite, sundae, milk-shake, ou se deliciar com um cachorro quente, misto quente, americano ou um hot-dog. Lá se concentrava quase toda a juventude natalense descolada. Nos arredores acontecia um verdadeiro desfile de moda e dos carrões estilosos. Os mais equipados eram rebaixados, usavam pneus “tala larga”. As músicas eram ao som dos toca-fitas. Até então Natal era uma cidade calma, quase sem drogas e violência urbana.

A Cidade Alta era uma espécie de shopping a céu aberto de Natal, onde estavam localizadas as melhores lojas, cinemas, sorveterias, lanchonetes e locadoras de carros. Também por essa época o Hotel Samburá reinava absoluto com seu amplo restaurante e suas confrarias. No centro da cidade também tinha o Ducal Palace Hotel, de arquitetura cilíndrica, era bastante luxuoso para a época. No vigésimo oitavo andar funcionava seu fantástico restaurante com vista panorâmica da cidade. Nesse mesmo espaço funcionou a boate do hotel por alguns anos.

Durante o período natalino as ruas do centro da cidade eram iluminadas com centenas de lâmpadas e as lojas, bares e lanchonetes ficavam abertos até as 23h. A lanchonete Casa da Maça, localizada na Avenida Deodoro da Fonseca, lateral ao Cine Rio Grande, ficava cheia de jovens durante todo esse período. O ponto alto dos mais ricos era o restaurante Xique-Xique, no bairro de Petrópolis, local frequentado pelas classes média e alta da província, aonde se comia pratos da culinária internacional. Mas, chique de verdade era, no domingo, tomar o café da manhã no legendário Hotel Tirol e se deliciar com o melhor “Black Fest” da cidade. O Hotel Tirol serviu o melhor self service de café da manhã de Natal por muitas décadas.

Naqueles tempos também existiam os ”pegas” ou “rachas” de carros que, na maioria das vezes, eram feitos em Capim Macio, não existia ainda a Av. Engenheiro Roberto Freire e sim uma pista única que dava acesso a então distante Ponta Negra. Os pegas também aconteciam no trecho que ia da Praia dos Artistas ao Forte dos Reis Magos. Aos que conseguiam participar dessas corridas automobilísticas sem ferimentos maiores, as opções seguintes eram os bares Beer House, (depois denominado Liberté), Teco-Teco, Jangadeiro entre outros pontos de encontro dos descolados natalenses. Gasolina azul era um luxo para poucos, vendida nos Postos Pitombeira, Jotâ Flor e Tamarineira. Segundo se falava naquela época, a gasolina azul deixava os carros mais velozes e consequentemente mais competitivos para os pegas que aconteciam quase sempre durante as madrugadas. 
As rádios de Natal dos anos 70, eram todas AM, tocavam freneticamente LP’s e compactos de Roberto Carlos, Pholhas, Secos & Molhados, Jerry Adriany, Ronnie Von, Wanderley Cardoso, Wanderléa, Martinha, Celi Campelo, Nelson Gonçalves, Beatles, The Fevers, Renato e seus Blue Caps, Lenon & Lilian entre outros sucessos musicais da época.

Nos sábados à tarde na TV Globo, tinha o programa de auditório do Chacrinha e no domingo era na TV Tupi, e não no SBT (que estava longe de existir), o programa Silvio Santos. Já à noite, o público feminino (homens não viam novelas), assistia na televisão a novela “O Bem Amado”, de Dias Gomes, na Rede Globo. A TV Tupi por esses tempos já mostrava falta de fôlego, mais ainda era líder de audiência em todo o país, e explodia com a revolucionária novela “A Volta de Beto Rockefeller”. Outros programas de TV eram: A Praça da Alegria, J. Silvestre, Família Trapo, Flávio Cavalcante, Almoço com os Artistas, Cosmos entre vários.


No início da década de 70 foi inaugurado a “Casa de Hóspedes de Ponta Negra”, contava com poucos apartamentos, mas apresentou uma proposta nova para o turismo local que então só engatinhava. Ainda menino, fui conhecer a pousada junto com minha irmã, Socorro Patriota e seu então namorado, Jaeci Jr. Se não me falha a memória em 1971 foi inaugurado o Balneário do Sesc, de Ponta Negra, que logo se tornou o local preferido para a concentração da juventude natalense. Depois dessa fase começou a expansão urbana de Ponta Negra, com a construção dos primeiros conjuntos residenciais e a inauguração da famosa boate Apple que marcou a adolescência e juventude dos natalenses dos anos 70, 80 e 90.

Esse período acabou por transformar Ponta Negra, antes longínqua praia de Natal, em bairro da cidade e referência em diversão e agitação noturna. Aos poucos a então badalada Praia dos Artistas foi sendo deixada para trás. 
A explosão dos conjuntos de rock em Natal era crescente, lembro do The Jetsons, Impacto Cinco, Os Terríveis e Apaches. Nesse período houve um significativo aumento no número de hippies, que, antes dispersos, passam a se agrupar no centro da cidade e depois na Praia do Meio. Cabeludos e revolucionários, os hippies imprimiram forte influência artística, musical e de comportamento.

Durante o carnaval o chique era brincar nos cobiçados blocos de elite, nada de ir para as praias como se faz hoje. Os blocos eram muitos e variados. Durante o dia eles organizavam os chamados “assaltos” com banhos de piscina e muita bebida e comida em casas dos seus membros, tudo previamente agendado. Quem conseguia sobreviver à programação diurna, durante a noite as concentrações desses blocos aconteciam nos clubes da cidade, destaco o América FC, local aonde se brincava o melhor e maior carnaval de clube de Natal. Semanas antes do carnaval aconteciam as afamadas prévias carnavalescas e também tinha a famosa “Noite de Ouro”, baile e concurso de fantasias organizado pelo colunista social Adalberto Rodrigues e sempre acontecia no Aeroclube, localizado na avenida Hermes da Fonseca. 


Nos cinemas São Luiz, Rex e São Pedro, domingo pela manhã, era onde se assistia os seriados de Zorro, Rin-tin-tim, Roy-Rogers. Os filmes em Tecnicolor era o que existia de mais moderno, e estreava filmes famosos como: Romeu e Julieta, Mobby Dick, Tubarão, Love Story, Os Trapalhões entre outros. Nos cinemas Rio Grande, Rex, Nordeste, e Cine Poty em Petrópolis, a disputa pelos melhores filmes era sempre acirrada. De tão lotado, assisti o espetacular Tubarão I, sentado no chão do cinema Rio Grande.

Nos domingos à noite, a programação jovem era ir para a AABB, animado ao som do Impacto Cinco ou para o América. As bebidas eram cuba-libre ou hi-fi, vodka com refrigerante, eram bem mais consumidas do que cervejas e whisky. Noites e madrugadas eram animadas pelas boates e bares como a Casa da MPB, que ficava localizado próximo do então Hotel Reis Magos, ou as boates Apple, Lá Prision, Pool e Liverpool. Existia também o Zaz-Traz o bar Barreirinha, e “O Escondidinho”.

No bairro de Petrópolis a Confeitaria Atheneu, o Gramil e o Kazarão, eram a prata da casa, sobrava ainda o famoso Bar do Vovó, ponto de encontro dos estudantes do Colégio 7 de Setembro. Na Praia do Meio uma das opções era o bar O Jangadeiro, o Asfarn ou a boate Royal Salute, que funcionava nas dependências do Hotel Reis Magos. A primeira opção, no entanto, era o famoso bar Beer-House, de Ângelo Burrão, que marcou época, depois se transformou no bar e boate Liberté, ficava localizado em uma esquina da Avenida Getúlio Vargas, com maravilhosa vista da praia. 


No Tirol, o Stop Bar, era frequentado pelo público jovem, quase todos seus frequentadores residiam em bairros próximos. Nos dias em que tinha baile na AABB, a alegria era geral no Stop. Depois da festa ou “arrastão”, lanchava-se lá pela madrugada no Dia-e-Noite, lanchonete bem movimentada, localizada no centro da cidade. Anos depois, surgiu o Passaporte Lanches, na Praça Pedro Velho e que virou ponto certo dos fins de farra. Falei aqui de uma Natal de ontem, de uma cidade bastante diferente da Natal de hoje, de uma cidade que só existe na memória de cada um que viveu esse período e aproveitou o que Natal tinha de melhor para oferecer. Essa Natal dos anos 70/80 bucólica e agradável, o vento levou…

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