A MÁGICA DO FUTEBOL

Nilo Emerenciano (Arquiteto, escritor e articulista)

O campeonato conhecido como brasileirão acabou na quinta feira. Deveria ter sido chamado Covidão, devido às suas estranhas características: estádios sem torcida, a presença de um elemento novo, o VAR, atrapalhando mais que ajudando, times inteiros com baixas devido ao vírus. Mas apesar de tudo, foi marcado pela emoção. Times se alternando na liderança como nunca se viu. E, já que o sistema é o de pontos corridos, apenas na última rodada soubemos o ganhador.

Já fui amante de futebol. Meu primeiro deslumbre foi o Botafogo de Garrincha, Didi e Nilton Santos. Garrincha, que anos depois vi no Juvenal Lamartine, jogando pelo meu Alecrim FC, era a alegria de todos, nosso herói depois da Copa de 62, no Chile, que acompanhamos pelo rádio e só depois, nos cinemas, pudemos visualizar todos aqueles dribles e gols.

O Canal 100 de Carlinhos Niemeyer notabilizou-se por levar para as telas de cinema imagens maravilhosas dos jogos do Maracanã. As cores vivas do rubro-negro, aliadas àquele maravilhoso fundo musical fizeram o resto: tornei-me Flamengo até os dias de hoje. Lia avidamente as colunas de João Saldanha e Nelson Rodrigues, publicadas n’O Globo, que, a mando de meu pai, ia pegar na banca de revistas Zepelim, ali na Avenida Rio Branco, todas as segundas- feiras. O estilo de Nelson Rodrigues, um dos nossos poucos gênios verdadeiros, era inconfundível, e até as ilustrações de Marcelo Monteiro me fascinavam.

Sabíamos quase nada sobre o futebol paulista, muito menos gaúcho ou mineiro. Existia para nós apenas o campeonato do Rio de Janeiro. Minas veio surgir em nosso horizonte somente quando, em 1966, o Cruzeiro de Tostão e Dirceu goleou, sem nenhum respeito, o Santos de Pelé & Cia.

Amaury Dantas, meu pai, era comentarista esportivo. Levava-me para o velho Juvenal Lamartine e eu via os jogos da cabine dos radialistas. Professor Batalha passava o tempo todo gritando: e é um A, e é um B, e é um C: Áááá, Bêêêê, Cêêê!!!!!! Meu pai era torcedor do América em todo o Brasil. Em minha casa havia uma foto emoldurada do América do Rio campeão de 1960.

Vi os grandes jogadores da província. Jorginho, Saquinho, Cocó, Pancinha, Véscio. Os goleiros Ribamar, Erivan, Manuelzinho. Miro Cara de Jaca, Burunga, Lula Monstrinho, Marinho Chagas. Os árbitros Luís Meireles e Jáder Correia. Vi o heroico gol de Bagadão. Vi o ótimo time do Riachuelo, quase campeão. E vi, finalmente, o maior dos jogadores da terrinha, Taça de Prata em 1972: Alberi. Elegante, preciso, chute forte (com as duas pernas) e bom cabeceador. Depois de Alberi sentimos como Moraes Moreira cantando a ausência de Zico: “Agora como é que eu fico/nas tardes de domingo…”?

Alberí – Ídolo do ABC F.C

Assisti a seleção da Romênia, que depois enfrentaria a seleção brasileira na copa do México. Os times do Fluminense, Flamengo. Até o Íbis, de Recife, o pior time do Brasil. Todos no palco do Juvenal Lamartine.  E acompanhei, enfim, o Alecrim sendo bicampeão em 1963/64 e campeão invicto em 1968.

A Copa de 70 foi a apoteose do meu amor por futebol. Ali se reuniu uma geração vitoriosa. Pelé no auge do vigor físico e técnico, Tostão saindo de uma cirurgia no olho, Rivelino arrasador, Jairzinho e Gérson com vislumbres de genialidade. Pela primeira vez a copa foi transmitida ao vivo pela TV (lindo, lindo, lindo!).  A nossa emoção fez com que esquecêssemos momentaneamente os rigores de uma ditadura cruel. Carlos Alberto estufando as redes do time italiano após o passe perfeito de Pelé confirmava o que já sabíamos: éramos os melhores do mundo. Depois de 70 tudo foi anticlímax. Mesmo o tetra e o penta, apesar de ao vivo e a cores, não conseguiram despertar o meu ardor patriótico.

Por paradoxal que pareça, a inauguração do novo estádio em Lagoa Nova fez que eu descobrisse a necessidade de usar óculos e marcasse o início do meu desinteresse pelo futebol, pelo menos presencial. É que no velho Juvenal Lamartine nós víamos o jogo de perto, ouvíamos os gritos, xingamentos, dedadas, cuspidas, tudo enfim. A pista de atletismo e o fosso do Castelão, além da absurda “geral”, nos afastaram dos jogadores.   

Mas desde 2019 senti a velha chama reacender e o responsável por isso foi o time vitorioso do Flamengo de Jorge Jesus. Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta trouxeram-me de volta para frente da televisão. Comprei até um cavalinho com camisa do Fla que coloco ao lado da TV. Isso para assistir o jogo contra o São Paulo que fez o Mengão mais uma vez campeão. Os amigos cobram: mas e o Bozo? A Petrobrás? O vírus? Ah, perdoem, mas nessa hora, como em 1970, a gente esquece tudo o mais e se põe a gritar sem nenhum pudor: Flamengo campeão!!! Mengôôôô!!!! Mengôôôô!!!! 

NATAL/RN

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