A filha mulher

Júnior Rebouças, comunicador na rádio Olho D’água FM, diretor da “nossa TV web” e cronista de final de semana, em São José de Mipibu.


Agostinho, terceiro filho de uma família muito humilde na praia de Pitangui, pai pescador e beberrão, a mãe dedicada à criação dos quatro filhos. Moravam num casebre levantada em um terreno na beira da praia, com permissão de comandante Souza, proprietário do imóvel e de quase todos barcos de pesca daquela comunidade.


Aos doze anos já acompanhava o pai na pescaria de catraia (pequena embarcação), apesar do porte franzino, era muito dedicado às tarefas a bordo. Houve uma ocasião em que ficou três dias em alto mar. Foi um divisor de água em sua vida. A partir deste fato, adquiriu o respeito e admiração da comunidade, tendo sido alçado a pescador. Havia acabado de completar quinze anos e adquirido um aspecto físico invejável e elegante.


Algumas moças já o observavam e direcionavam risos em olhares insinuantes com malemolência. Mas sua timidez era tanta, que as vezes, ficava dias sem sair de casa. Também existia outro motivo, Iracema, um mulherão, cabelos e olhos claros, filha do comandante Souza, passava o tempo todo pensando nela. Era mais velha que ele e o pai da referida não queria nem pensar o dia em que a moça começaria a namorar.


Na missa em homenagem à Nossa Senhora dos Navegantes, entre um olhar e outro, ela segurou-lhe a mão e deu-lhe um beijo na face. Estava ali, acertado e selado o namoro. Após a missa ficaram sentados na praça, conversaram muito, e felizes também tomaram sorvete. Às 21 horas ela foi embora e ele ficou flutuando por nuvens, ainda sem acreditar em tanta felicidade.

Foto Ilustrativa


Augustinho se dirigiu para casa do comandante Souza, camisa de tergal azul claro, calça de linho branco, com sapatos de enfiadeiras, impecavelmente engraxados, tudo comprado no dia. Foi direto ao assunto, pediu Ceminha em namoro. A reação do pai da moça foi a esperada. Homem, tosco, truculento, acostumado a tratar os pescadores grosseiramente, humilhá-los. E falando alto, dirigiu-se ao rapaz dizendo que ele ainda não era homem feito pra namorar com sua filha. Deu boa noite e indicou Augustinho ir para casa. O jovem pescador ficou desolado, triste e muito revoltado, não conseguindo entender aquela rejeição.


Em pouco mais de um mês, o casal teve encontros, as escondidas, todos planejados por Iracema, na casa de sua madrinha, que era viúva, e por duas vezes deixou os apaixonados sozinhos, só voltando ao final da tarde.
Em um domingo após a missa, os dois resolveram enfrentar e afrontar o comandante Souza. Sentaram-se na praça juntinhos, ele com o braço esquerdo passado pelo ombro de Ceminha, conversavam alegres e tranquilamente.


– Seu moleque atrevido eu não quero você com a minha menina. Arrastou o cinturão e começou, aleatoriamente, dar chibatadas no casal. Um dos chicoteios bateu no rosto da moça. Augustinho, instintivamente, de forma abrupta, muito rápida, puxou sua pequena faca, que o acompanhava sempre, e deu uma estocada, furando a barriga do comandante, que arqueou de joelhos, com as mãos segurando a região abdominal ferida, sangrando e expondo uma pequena parte do intestino. 

Foto Ilustrativa

  O rapaz ao ter noção do que havia feito, atônito, correu para casa e rapidamente pegou suas mochilas, que já estavam preparadas, pois iria sair pra pescar pela manhã, e sozinho conseguiu lançar, sua recém comprada jangada, ao mar, pois, por coincidência a maré estava totalmente cheia.
Passados vinte e cinco anos…


Em uma tarde chuvosa de domingo, chega na cidade, que era rota para este tipo de passeio, um comboio de jipes vindos pela beira mar. Os pilotos e tripulantes foram almoçar no restaurante anexo a pousada da cidade. Ao término, seguiram viagem, com exceção de um piloto, que se hospedou na pousada. Era Manoel Augusto da Silva.


No jantar, após algumas contidas e discretas perguntas, descobriu que o comandante Souza havia morrido há pouco menos de dez anos, com complicações cardíacas, Ceminha havia casado e tivera uma filha. Seus pais também haviam falecido e seus irmãos tinham ido residir na capital.


Fato interessante da noite é que houve troca de vários olhares com a garçonete, que mesmo de uniforme do trabalho e touca nos cabelos e seu procedimento, denunciavam ser uma mulher muito bonita e simpática. Ele também era bonito e vistoso, cabelos ligeiramente grisalhos, longos chegando até o pescoço, barba rala, corpo atlético, fazendo jus aos seus quarenta anos. Mesmo muito cansado da viagem, não conseguiu dormir direito, pensando na beleza escondida e na simpatia da garçonete. No pouco tempo que adormeceu, teve pesadelo, alguém invadindo o quarto. Não dormiu mais.


Na dia seguinte, foi fazer o que lhe levou àquela cidade, supervisionar sua equipe na entrega de uma carroceria para carreta a um cliente da localidade. Pois era dono da montadora de carrocerias e de barcos.
Ao retornar à hospedaria, encontra a garçonete, naquele momento, fazendo a limpeza diária do apartamento. Ficou um pouco embaraçado, constrangido, envergonhado…  pediu desculpas, dizendo que voltaria depois.


– Não. Eu já estou terminando.


Quando, ao dar um passo, tropeçou e desequilibrada, foi amparada pelo braço firme de Manuel Augusto, que sentiu ali, seu cheiro suado do trabalho, e não contendo ou resistindo sua vontade, deu-lhe um beijo sufocante, fazendo com que Augustina, por uma fração de segundos, desfalecesse. No outro dia, era folga do trabalho. Se encontraram a tarde, jantaram e pernoitaram juntos. A partir daí…


Concluído seu trabalho, com a montagem e entrega ao cliente. Permaneceu hospedado. A noitinha foi conhecer a família de Tina. O pai, vítima de AVC (derrame), vegetava em uma cama, a mãe uma senhora carrancuda, mantinha uma beleza triste, de aparência sofrida, que naquele momento, não a reconheceu. Feitas as formalidades e voltou para pousada.


Um pouco antes de adormecer, bateram na porta do seu quarto. – tem uma senhora lhe chamando na recepção. Era a mãe de Tina. Desesperada falou: – Tina é sua filha homem de Deus! Deixe a gente quieta. Vá embora daqui, por favor!


Pela manhã, antes do café, ele chamou Tina e historiou toda sua vida, explicando todo o ocorrido em detalhes minúsculos. 
Depois de conversado, propôs casamento e se ela aceitasse, nunca mais falariam sobre o assunto. 


Meia hora depois estavam na estrada em busca de Manimbu, pra última cidade a fazer divisa com o estado vizinho, onde havia aportado ao fugir de Pitangui.


Manoel Augusto morreu aos 82 anos, de forma tranquila, segurando a mão de Tina e rodeado dos três filhos. 


Júnior Rebouças, 25/02/2021, São José de Mipibu

1 Pessoa comentou
Aécio Medeiros.

Que história de amor, né?

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