A DOR DA SECA

Rosemilton Silva- Jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Minha cumade Maria Gorda reclama dizendo que eu tinha que ter me encontrado com ela ontem, primeiro de abril e eu me desculpo porque não estava muito aprumado. Pois bem, minha cumade diz que estava apreensiva porque Pedro Severino andava reunido com uns homens lá perto da cega Matilde e já ensaiava atravessar o Trairí seco esturricado no rumo da Ferreira Itajubá.

E não demorou a poeira levantar. Os homens, tendo a frente a liderança de Pedro Severino, descem pela Padre Antonio Rafael e se dividem para atravessar o rio. Uns entram na Frei Miguelinho e outros na rua do Vapor. Estrategicamente pensada a ação surte o efeito desejado. Não há como não cercar os pequenos armazéns que guardam sacos de feijão, farinha e garajaus de rapadura.

Minha cumade Maria Gorda estranha o fato de que todos os feirantes sabiam o que ia acontecer mas não fizeram um único movimento, não se abalaram de suas casas para retirar a mercadoria ou parte dela, pelo menos. De uma das janelas do sótão da casa de Mané da Viúva, minha cumade observava o quebra quebra das portas e ficava abismada com a divisão do conteúdo dos sacos entre os homens.

Houve um princípio de confusão quando ela viu alguém literalmente atracar-se com um saco de algum tipo de alimento e tentar sair sem fazer a divisão. Pedro Severino logo providencia a retirada do fulano e distribui o feijão.

Feito o saque, todos tomam o rumo de suas casas nas fazendas e sítios e Pedro Severino, como sempre, sai com suas mãos abanando. Se precisava ou não, ninguém nunca soube até porque se precisasse não demonstraria, mas certamente não precisava de um quinhão de farinha ou feijão.

Não demora, observa minha cumade Maria Gorda, a cidade que já estava cheia de jornalistas e fotógrafos, receberia a visita dos políticos. Dito e feito. O ano era 1958, seca braba no governo de Dinarte Mariz. Juntou político na cidade e, de prático foi a certeza do início das obras do Açude Novo, feito quase todo com barro transportado em lombo de jumento como forma de manter o homem no campo empregado na tal emergência

Foto Ilustrativa

E por isso mesmo, foi que minha cumade reclamou porque não conversei com ela no primeiro de abril.

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