FIGURAS MIPIBUENSES Onofre Lopes da Silva

Nasceu, em 13 de julho de 1907, no distrito de Comum, em São José de Mipibu, atualmente pertencente a Monte Alegre/RN, após ser desmembrado de São José de Mipibu, em 25 de novembro de 1953, pela Lei nº 929, e tornou-se município.

Nono dos dez filhos do agricultor José Lopes e de Maria Joaquina dos Prazeres Lopes. Onofre aprendeu a ler com a família, e, aos 14 anos, mudou-se para Natal, para estudar no Grupo Escolar Augusto Severo, com o professor Aprígio Câmara. Depois, foi para a Escola do Professor Zuza, onde chegou a ser ajudante do professor. Teve ainda como mestres João Tibúrcio e Ivo Cavalcanti, com quem concluiu o curso secundário.

Em 1926, com ajuda financeira do governador José Augusto, foi estudar na Faculdade de Medicina do Recife. Para manter-se, trabalhou como professor de uma escola para carvoeiros, como representante de laboratórios médicos.

Em 1928, transferiu-se para a Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro. Na então capital federal, também trabalhou como representante de laboratórios farmacêuticos. Onofre foi aprovado em primeiro lugar no concurso para estagiário do Hospital da Marinha, na Ilha das Cobras, e no curso médico foi aluno de grandes mestres, como Miguel Couto e Carlos Chagas, sendo este o paraninfo de seu turma (1932).    

 Iniciou suas atividades profissionais em Natal, atuando na Junta Médica da Inspetoria dos Portos, onde conheceu o Dr. Januário Cicco,que o convidou para trabalhar no Hospital Miguel Couto. Trabalhou também como assistente do Dr Aderbal de Figueiredo, na clínica Urológica.

Em dezembro de 1934, casou-se com Selva Capistrano. O casal teve quatro filhos: Onofre Júnior, também cirurgião e professor de Medicina; Nilza; Maísa e Eliana.

Entre 1933 e 1935, atuou como diretor do Leprosário São Francisco, em Natal. Além de suas atividades como cirurgião, com consultório privado, desenvolveu diversas atividades: médico legista do Departamento de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Norte; médico do Instituto de Proteção e Assistência à Infância(I.A.P.I), onde trabalhou com Varela Santiago; membro do Conselho Penitenciário do Estado; professor de Anatomia e Fisiologia da Escola de Serviço Social e da Escola Doméstica de Natal; professor da Liga de Ensino do RN; professor do Curso de Samaritanas da Cruz Vermelha; chefe da Clínica Cirúrgica do Hospital Miguel Couto.

Em 1936, ingressou no Curso de Saúde Publica ( Rio de Janeiro). E no final deste mesmo ano, assumiu a coordenação do serviço de B.C.G da Sociedade de Medicina do RN.           

O Dr. Onofre fazia a vacinação na própria casa das parturientes, já que era o local onde ocorriam muitos partos naquela época. Seu filho Onofre Júnior foi a primeira criança a tomar a vacina B.C.G em Natal. No ano de 1948, viajou para os Estados Unidos (Nova York, Boston e Filadélfia), onde permaneceu por seis meses e realizou estágios em serviços de Cirurgia Torácica e em Administração Hospitalar. Foi nomeado diretor da Escola de Auxiliares de Enfermagem de Natal, criada por Januário Cicco , que era o presidente da Sociedade de Assistência Hospitalar (SAH) .

Com a morte de Januário Cicco, em 1952, passou a dirigir a SAH, administrando a maternidade e o hospital. Em 1954, voltou aos Estados Unidos, onde fez estágio de especialização em Cirurgia Torácica na Clínica Mayo, em Rochester.

Onofre Lopes estimulou os primeiros encontros científicos médicos do RN, promovendo intercâmbio com colegas de estados vizinhos e também do exterior, como o italiano Luigi Olivieri, que foi o primeiro professor de anatomia do RN. Na ”Semana de Estudos Médico-Cirúrgicos”, no início de 1955, foi criada a Faculdade de Medicina de Natal, que foi autorizada a funcionar por decreto assinado em setembro do mesmo ano pelo potiguar João Café Filho, Presidente da República.

Atual Hospital Onofre Lopes

Médico contemporâneo de Onofre Lopes, Genibaldo Barros, relembra com carinho sua experiência de camaradagem com demais colegas de profissão e de toda história passada no Huol:

Médico contemporâneo de Onofre Lopes relembra suas experiência

“Isso foi em 1955! Havia um grupo de médicos da Bahia e de Pernambuco dedicados à criação da faculdade. E o líder desse grupo era Onofre Lopes, sucessor do Dr. Januário Cicco. A partir daí, começaram os primeiros contatos políticos. Na época, o governo era no Rio de Janeiro e Dr. Onofre precisava de muita ajuda para criar a faculdade do zero. Então, eu ajudei Onofre nesses acertos políticos, indo e vindo entre Rio de Janeiro/Natal, para resolver os assuntos no Ministério da Educação. Onofre passou a me usar numa espécie de despachante dos assuntos oficiais e burocráticos. Para assuntos políticos, eu fui como um braço direito de Dr. Onofre Lopes. Nessas alturas, a faculdade já estava mais ou menos consolidada, em condições de funcionar. ”

Após ajudar Onofre nesta missão, Genibaldo também morou no hospital durante quatro anos e acompanhou de perto as dificuldades financeiras que a instituição passava. A solução encontrada para auxiliar na renda do hospital vinha do aluguel de apartamentos localizados onde é o prédio Administrativo do Huol hoje:

Segundo Genibaldo, “No primeiro andar, moravam as freiras. No segundo andar, haviam quatro apartamentos e um salão grande para reuniões. No terceiro andar, três apartamentos e um salão menor. O hospital passou a alugar os apartamentos a transeuntes que faziam pouso das companhias aéreas. Por vezes, empresários passavam por aqui também. Nesta época, Onofre criou um apartamento para colocar os médicos plantonistas do hospital. Eu não tinha família aqui em Natal e ao invés de morar em um hotel qualquer, resolvi perguntar a Dr. Onofre: “você tem aquela hospedagem no hospital, quanto que o senhor cobra para passar um mês?”. E ele disse: “bom, você prestou grandes serviços no nascimento dessa faculdade, cuidando dos assuntos administrativos no Rio de Janeiro. Então, você vai fazer o seguinte: você vai começar a trabalhar aqui no hospital como plantonista e vai morar no hospital”

Onofre foi eleito Diretor da Faculdade de Medicina, sendo o vice diretor o Dr Luiz Antônio dos Santos Lima. Em julho de 1958, inscreveu-se no Conselho Regional de Medicina do RN (CRM- RN) e recebeu a carteira de identidade do médico N° 1, e em setembro foi eleito e empossado seu presidente, para um mandato de cinco anos.     

Governador Dinarte de Medeiros Mariz sancionou a lei criando a Universidade Estadual – Foto: Memória Viva

Em 25 de Julho , o governador Dinarte de Medeiros Mariz sancionou a lei criando a Universidade Estadual, para congregar os cursos já existentes: Medicina, Filosofia, Farmácia, Serviço Social, Direito e Odontologia. Por escolha em lista tríplice, o governador nomeou Onofre Lopes o primeiro Reitor e a Universidade passou a funcionar na Faculdade de Filosofia .

Onofre Lopes da Silva, natural de São José de Mipibu-RN, nascido a 13 de julho de 1907, foi o primeiro Reitor da UFRN. Médico e professor. Em 25 de junho de 1958, liderando um grupo de professores convenceu o então governador Dinarte Mariz a criar a Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – URN, posteriormente, federalizada. Faleceu em 13 de julho de 1984. Foi, também, soldado da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte – Foto:Blog do Barbosa

Dois anos depois de sua fundação,a Universidade foi federalizada por decreto (lei n° 3.849) sancionado pelo Presidente Juscelino Kubitschek. Durante os doze anos que foi reitor, destacaram-se como suas principais ações: aquisição do prédio n° 780 da avenida Hermes da Fonseca, para ser a sede da Reitoria; serviço central de bibliotecas (SCB); autorização do primeiro curso para auxiliares de bibliotecas da URN; instalação da Escola de Engenharia; reconhecimento, por decreto federal, da Escola de Auxiliares de Enfermagem; inauguração da Tipografia Universitária; criação da farmácia- escola da Faculdade de Farmácia.

E ainda: instalação da Escola de Música; instalação do Instituto de Antropologia e nomeação do prof. Luís da Câmara Cascudo para seu diretor ; criação do núcleo de Biologia Marinha; viabilização do reconhecimento e revalidação dos cursos da Escola Doméstica de Natal; criação do Instituto de Medicina Preventiva; inauguração do prédio da Faculdade de Medicina; criação da junta médica ; criação do curso pré- universitário; inauguração do restaurante universitário;criação do Instituto de Pesquisa e Tecnologia Farmacêutica; incorporação da Escola Agrícola de Jundiaí; criação da Policlínica e do Pronto Socorro Odontológicos; agregação da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Atuária.

Criação do Instituto de Matemática; criação do Programa RITA ( convênio com Utah State University, USA, Agencia de Desenvolvimento Internacional e SUDENE); incorporação da Faculdade de Sociologia e Política e da Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza; criação do CRUTAC (Centro Rural Universitário de Ação Comunitária) -que ampliou-se e chegou a ser implantado em 39 universidades nacionais, além de diversos países da América do Sul e África; foi ainda fundador do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras-CRUB. Pela qualidade de seus discursos, trabalhos científicos e marcante atuação nos setores culturais.

Onofre foi indicado para a Academia –Norte-riograndense de Letras, ocupando a cadeira n° 11 cujo patrono era o padre João Maria, sucedendo o amigo Januário Cicco. Ele presidiu a entidade por nove anos, onde teve destacada administração. Também presidiu o Conselho Estadual de Cultura.         

 Faleceu no dia 13 de julho no aniversário de nascimento), de 1984, no dia em que completava 77 anos, no hospital que hoje tem o seu nome.

 FONTE: “O Magnífico – Uma biografia de Onofre Lopes” Autor: Diógenes da Cunha Lima

DR. ONOFRE LOPES, BREVE DEPOIMENTO

Valério Mesquita*[email protected]

A primeira visão que me acode: homem múltiplo. Homem plu­ral. Ele já teve os seus biógrafos, os que lhe fizeram o perfil como médi­co, administrador, professor de medicina, reitor, escritor, presidente da Academia, do Conselho de Cultura, agricultor, enfim, um líder nato, con­dutor de homens. Que posso acrescentar ao seu nome, que esclareci­mento poderei trazer à sua vida, tão cheia de lances imprevistos? A admi­ração que lhe devoto, foi herdada do meu pai Alfredo Mesquita Filho, seu amigo.

Quando presidiu o Conselho de Cultura que funcionava numa de­pendência da Fundação José Augusto, da qual era eu o presidente, man­tivemos um estreito relacionamento. Insistia, até, que eu participasse das reuniões semanais, o que me comprazia atendê-lo. O pensamento criador de Onofre Lopes e as inspirações do seu comportamento ofereceram aos seus contemporâneos a exata dimensão de um homem temático. Para ele a virtude não estava no meio, mas nos extremos. Temperamento forte, intimorato, vontade férrea. Nas limitações esterilizantes do Rio Grande do Norte do final dos anos cinquenta, ele foi o homem de ação e de lutas e nenhum obstá­culo impediu (e não foram poucos) que construísse os alicerces da Uni­versidade Federal do Rio Grande do Norte, como se fosse um profeta das ruas e que entendia que a vida de todos nós é feita de muitas vidas.

Toda instituição é a sombra prolongada do seu criador. Onofre Lopes foi um construtor de auroras. O legado da UFRN, na virada do século, na entrada do novo milênio é o marco imperecível de cultura que a brutalidade da mecaniza­ção da vida não destruirá. Onofre Lopes da Silva como reitor, atraves­sou as noites escuras do tempo como um pai, um padrinho dos alunos da sua UFRN, quando ameaçados pelo arbítrio. Ouvi dos homens circunspectos dessa época a narração de vários dos seus gestos. Ele tinha a síndrome do contraditório. Radical e ambivalente. Uma vela acesa para o amor e outra votiva para a condenação dos desonestos, falsos e hipócritas. Dir-se-á que cumpriu sua obra com a firme designação de um deus adestrado.

O seu pragmatismo extrapolava as dimensões do tempo e dos gabinetes. “Comissão de mais de um é comício”. Onofre sabia estabele­cer a hierarquia das prioridades e a distinção das personalidades com as quais convivia. O tempo passou mas, o exemplo permanece. Não viveu em vão. Homens como ele vêm ao mundo numa única edição. Originalíssima. Onofre Lopes da Silva foi um homem digno, credo supremo de todo idealismo. A sua dignidade é inequívoca, intangível, intransmutável. Um tipo de dignidade que hoje está morrendo. Aquela dignidade que implica coragem moral.

Este foi o Onofre Lopes que eu conheci.

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