As portas do coração

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Não há como não associar a imagem do casal José e Maria de Nazaré procurando em Belém uma vaga em hospedaria sendo que Maria ainda por cima estava grávida de nove meses, na iminência de dar a luz, com o número enorme de famílias – homens, mulheres com crianças no braço e meninos – que literalmente tomaram as calçadas e canteiros das ruas da cidade na antevéspera de Natal. Para quem tem sensibilidade é de cortar o coração a desdita de toda essa gente, obrigada a mendigar – sim, a mendigar – por um pouco de dinheiro ou comida.

Nas ruas, as pessoas deixam de ser dados estatísticos, saltam aos nossos olhos e a gente passa a entender o que significa 14 milhões de desempregados no país, outros 52 milhões em estado de pobreza e extrema pobreza. Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional dão conta de que mais da metade de nossa população vive em algum grau de insegurança alimentar (isso quer dizer que não sabem hoje o que vão comer amanhã) e dezenove milhões de pessoas passam fome. Fome de verdade.

Tentem se por no lugar dessas pessoas. Não é a fome que enfrentamos quando atrasamos um pouco a hora da refeição e temos a audácia de proclamar que estamos morrendo de fome. É aquela fome que enfraquece, que inabilita, que desnutre, desencoraja e mata.

A doutrina de Allan Kardec nos ensina que dois males profundos nos atingem: o egoísmo e a omissão. “Os maus são intrigantes e audaciosos. Os bons são tímidos.”

Pois é. Olhamos, nos indignamos, comentamos com os amigos e esquecemos ou procuramos esquecer. Afinal temos compras a fazer, trânsito a enfrentar, a vida por levar. E Papai Noel nos aguarda no shopping sequioso por vendas.

Uma leitura um pouco mais atenta dos textos bíblicos já nos sinaliza. Os profetas do Velho Testamento são todos unânimes na condenação dos desmandos e excessos dos ricos e poderosos da época. E pregavam em defesa dos mais frágeis, velhos, mulheres, viúvas e órfãos, em uma época que não havia pensão, SUS ou coisa parecida. Por isso alguns deles foram presos e executados, sendo João Batista, a voz que clamava no deserto, o caso mais conhecido.

Jesus dá sequência a essa tradição. Questiona a postura dos sacerdotes que, acumpliciados com os romanos, dividem o botim, explorando a população miserável da palestina. Acusa-os de explorarem as viúvas e terem feito do templo um covil de ladrões. E deixa bem claro a sua opção preferencial pelos desvalidos. É a esses que ele busca, desde o batismo com João – por si só, um out side, até a escolha dos seus apóstolos, pessoas do povo. De quebra constrói um maravilhoso código moral e ético válido até os dias de hoje, colocando o amor e misericórdia acima de todos os outros valores e o homem como o centro de tudo. O resto, como ele próprio deixa claro, são apenas comentários.

É a esse Homem que homenageamos no dia 25 de dezembro, estabelecido como dia do seu nascimento. Tão forte foi – e é – a sua presença entre nós, que mesmo distantes dos acontecimentos por 20 séculos, todos nós nos sensibilizamos, sentimos o clima mudado, o psiquismo da existência alterado para melhor, e as pessoas mais generosas, solidárias, fraternas, desejando reunir-se com as famílias e amigos. As músicas, a decoração, luzes e cores, tudo contribui para que nos emocionemos.

Mas é preciso que não esqueçamos o que ele representou. E que deixou claro quando disse que “sempre que socorreste a um destes pequeninos, foi a mim que socorrestes.” Ensinemos isso a nossos filhos e netos. Falemos sobre as nossas responsabilidades e o grave pecado da omissão. Usemos como referência as grandes almas, tipo Irmã Dulce, Chico Xavier, padre Júlio Lancellotti. E acima de tudo, tentemos fazer algo que represente a diferença para alguém.

Irmã Dulce

Padre Júlio Lancellotti

Chico Xavier

No poema Noite de Natal, João de Deus, através da psicografia de Chico Xavier, descreve uma garotinha perguntando: – “Minha mãe, porque Jesus, / Cheio de amor e grandeza /Preferiu nascer no mundo /Nos caminhos da pobreza”? A resposta da mãe é genial:

– “Por certo, Jesus ficou /Nas palhas, sem proteção,/Por não lhe abrirmos na Terra/As portas do coração”.

Pois é. Vamos abrir os corações ao Mestre, recebendo-o de verdade nessa noite de Natal e em todos os outros dias da nossa vida.

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2 Comentários

  • Crisolita THE Bonifacio disse:

    Com certeza este texto foi inspiração Divina! Que nós possamos guardar no coração todas essas verdades e agir em pro dos menos desvalidos. Feliz Natal!

  • Crisolita THE Bonifacio disse:

    Em tempo: No comentario acima notifiquei que devemos agir em pro dos menos desvalidos, quando na realidade quis me referir aos mais desvalidos.

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