Meu encontro com a genial Elza Soares

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista

Já disse que cresci, infelizmente sem uma radiola em minha casa. Hoje tenho duas, sem traumas e culpas alguma ao meu passado de menino pobre. Minha boa memória ainda recorda, como se fosse hoje a primeira vez que vi e ouvi um disco de Elza Soares, mostrado e explicado como uma aula, pelo saudoso amigo e mestre Chico Elion (1930-2013) quando eu trabalhava na minha adolescência em seu espaço musical famoso – ‘Beco da Música’, no Alecrim: “Meu jovem você vai ouvir uma belíssima voz feminina do Brasil. Uma das maiores intérpretes da nossa MPB. Uma voz que foi elogiada pelo feroz crítico musical Ary Barroso!”. E contam os historiadores de nossa música, que pouca gente era aprovada pelo velho e exigente Barroso, (1903-1964).

Lá na frente a jovem pobre, negra e magrinha, ganharia o ‘Grammy Latino’ de nossa Música. Um verdadeiro Oscar. A mesma também foi homenageada em vida por nomes consagrados no mundo artístico e musical e até por Escolas de Sambas. Viveu como quis e além de seu tempo. Parece que aprendeu a superar as descriminações vividas, com a vida da grande maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga, (1847-1935). Outra, além de seu tempo! E a nossa Elza, carioquíssima, nascida em 23 de junho de 1930, veio para cantar e encantar o mundo.

Elza Soares leva Grammy Latino

Desde os anos 60/70, que eu vinha acompanhado o seu romance conturbado com o grande jogador de futebol Mané Garrincha (1933-1983), pelas páginas das principais revistas de minha juventude. Fase curiosa, que lia tudo sobre os artistas daquela época, e que até colecionava em álbuns de figurinhas, as fotos dos tais. Depois adquiri a biografia do famoso jogador da nossa Seleção, o Garrincha, escrita por Ruy Castro. Depois, continuei guardando tudo o que saía relacionado a trajetória da cantora nas principais revistas e jornais. Entrevistas, reportagens, fotografias e lançamentos de seus Discos e Cds.

Desde então, fiquei esperando uma oportunidade para me encontrar com umas das minhas preferidas cantoras. Fui logo comprando seus discos disponíveis nas lojas e me familiarizando com seu vozeirão alegre. Esperava já algum tempo assisti o show musical da inimitável cantora Elza Soares, em Natal, no nosso velho teatro da Ribeira.

Sabendo da vinda de Elza Soares a Natal para uma única apresentação, fui com bastante antecedência, me preparando e separando em minha casa os seus Cds para serem autografados. O amigo fotógrafo Evaldo Filho já estava avisado e assim que terminou o seu grande espetáculo musical eu corri para o seu camarote, sendo o primeiro a conversar com ela e ser fotografado naquela noite. Fui o único, porque a mesma logo depois, foi levada a um hospital com a pressão baixa e outros sintomas, causados devido a reação as suas estripulias no palco e sua idade já avançada para tais malabarismos e danças com demasiadas extravagâncias.  

Fora esse incidente, naquela noite memorável eu realizei um antigo sonho de chegar perto e até conversar com aquela estrela de nossa boa música. Digo que foi uma imensa alegria está com a grandiosa e consagrada Elza Soares. Uma negra linda de corpo e alma. Sorriu muito ao conversar comigo, apesar de tantas tragédias passadas na vida. Menina sofrida e criada em família muito pobre. Casada adolescente e viúva bem jovem. Mãe de sete filhos, com alguns destes falecidos ainda crianças. Teve vários relacionamentos amorosos, mas foi ao lado de Garrincha que ela viveu e sofreu seu grande e eterno amor. Até gargalhou quando eu a disse que minha admiração por ela era quase igual a de seu Garrincha.

Apesar da idade, com mais de 70 anos, na ocasião desse seu show no teatro Alberto Maranhão, esta cantou e dançou tal qual uma adolescente de 16 anos. A ouvimos com atenção e a mesma recebeu calorosos aplausos quando cantou seus antigos sucessos, entre eles, os clássicos: ‘Maria vai com as outras; Se acaso você chegasse; Mulata Assanhada; Salve a Mocidade; Lata d’água na Cabeça e Marambaia’.

Finalizando seu grandioso espetáculo musical, corri para o seu camarim e fui o primeiro e único fã a ser fotografado, pois a cantora não se sentiu bem de saúde e teve que ir ao hospital para tomar soro e reanimar-se. Já estava um pouco cansada dos anos vividos e não uma garota para pular e sambar como nos velhos e bons tempos. Sorriu muito agradecida quando eu lhe disse que tinha a biografia do seu amado Garrincha, muito bem escrita por Ruy Castro e era seu admirador desde a minha adolescência. E ficou comprovada a minha declaração, quando teve que autografar vários CDs: “Eu estou vendo que o senhor é um ferrenho apaixonado pela Elza Soares. Disso não duvido!”. E imaginem, se eu tivesse levado debaixo do meu braço as dezenas de Vinis deixados em casa.

Elza foi biografada em vida pelo jornalista Zeca Camargo e respeitada pelo mundo aonde se apresentou. Um orgulho para nosso Brasil tão estrangeirado, que prefere ouvir o que nem traduz! Antes mesmo, dessa desgraçada pandemia, a vi já sentada cantando no programa televisivo dominical de Rolando Boldrin. Fiquei triste e lembrando da alegre cena do nosso encontro aqui em Natal. Nem precisa dizer que até chorei de emoção ao vê-la agora, chegando aos 90 anos, já bem ‘acabadinha’ pela idade.

A voz era a mesma. O carisma pessoal também! Elza, encantava a quem chegasse perto da mesma. Já não cantava mais em pé e muito menos pulava no palco, como a vi décadas atrás. O tempo na velhice é muito cruel, e parece que ataca principalmente, os famosos e famosas!

E a nossa Elza Soares, partiu tranquila e resistente, quase aos 92 anos de idade. Digna e merecedora de todas as homenagens do nosso mundo musical, tão carente de vozes e interpretações como a da sua geração.

Encantou-se no dia de São Sebastião, padroeiro de seu chão carioca e por uma grande coincidência, no mesmo dia da partida de seu amado Garrincha!

                      Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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