MUDOU O SÃO JOÃO OU MUDEI EU?

julho 7, 2024

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor Nem sei em que ano isso aconteceu.


Nilo Emerenciano - Arquiteto e escritor

Nem sei em que ano isso aconteceu. Ainda tinha paciência e gosto para ver pela TV o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro (e tem outro?). Os comentaristas da Globo falavam das mudanças ocorridas nas escolas, nos sambas-enredo em ritmo de marchas, exaltavam os antigos carnavais, reclamavam das baianas estilizadas, enfim, enchiam linguiça com abobrinhas.

Eis que a verde e rosa é anunciada e os babões se põem a exaltar a Mangueira como resistência da tradição pois valorizava o samba no pé, usava suas cores, o verde e rosa, mesmo que não fosse uma combinação, digamos, televisiva, e além disso respeitava seu povo, os sambistas e passistas da comunidade.

Expectativa no ar. E então a Estação Primeira entra na avenida com sua comissão de frente de passinho rigorosamente marcado. Foi um alvoroço no estúdio da TV. Passo marcado? Impossível! A Mangueira? Como pode?

Pois é, meninos, eu vi. Vi a Mangueira, último reduto, se render aos novos tempos, tempos de Super Escolas de Samba S/A, de balés, efeitos visuais, laser, neon, prestidigitação, sambas enredos chulés (ou vocês lembram de algum samba do carnaval passado?) bancados por governos estaduais, atrizes globais de peitos de fora ocupando os lugares que sempre foram das Dinás da vida, figuras que não precisavam frequentar aulas de dança nos dias que antecedem o carnaval pois tinham o samba no
pé, na alma, no coração. Hoje não se fala mais nisso.

Porta-bandeira da Estação Primeira da Mangueira

Antes havia sido a consternação pela mudança desses desfiles da Praça Onze para a Marquês de Sapucaí, acontecimento registrado em um belo e lamentoso samba de Herivelto Martins e Grande Otelo:

“Vão acabar com a Praça Onze
Não vai haver mais
Escolas de Samba, não vai
Chora o tamborim

Chora o mundo inteiro
Portela, Salgueiro, Mangueira, Estação Primeira
Guardai os vossos pandeiros, guardai
porque a escola de samba não sai.”

O samba é lindo, mas o prognóstico errado. As escolas de samba continuaram a sair e saem até hoje, gostemos ou não, na Praça Onze, na Marquês de Sapucaí ou no Sambódromo. E a nós, saudosos da porta-bandeira Vilma, de Dinah, de Cartola, de Jamelão, de Natal da Portela e de tantos sambas
maravilhosos, resta cantar como em Bumbum Paticumbum Prugurundum: o nosso samba, minha gente é isso aí.

Sensação parecida vim sentir muito tempo depois, quando a Rede Globo de Televisão (sempre ela) criou, aqui no Nordeste, os festivais de quadrilhas de São João. Me assustou ver aquela maneira esquisita de dançar acelerado, os jovens desfilando quase correndo, pernas abertas, meio que parecidos com Godzilla

Festivais de quadrilhas estilizadas no São João

Não achei graça alguma, pelo contrário, detestei. Como todo rapaz nordestino dancei quadrilhas no bairro, no colégio, em festas particulares, quadrilhas improvisadas ou ensaiadas. Havia aquela pantomina inicial, quero dizer, o casamento na polícia, o noivo cercado por dois meganhas. A graça estava nas habilidades histriônicas do marcador. Bons tempos. Alavantu, anarriê, balancê (meu preferido), olha a chuva…! E a noite seguia, com balões, advinhas, namoricos, foguetes estourando no céu.


Mas a coisa seguiu e eu mudei de ideia. Hoje acho que esses festivais, com todas as alterações, ao contrário do que pensei a princípio, ajudam a manter a tradição das quadrilhas e festas juninas. Além de fazer rolar uma graninha para os grupo organizados.

Pois é, tudo muda ao longo do tempo, e, tal como o desfile do Sambódromo, de forma irreversível. Serei sincero: acho as atuais quadrilhas até mais bonitas e atraentes do que as de anos atrás. Repito, tudo muda, ou vocês acham que os bois de Parintins foram sempre o grande espetáculo que é hoje?Parodiando Machado de Assis: mudaria o São João ou mudei eu?

Será que os jovens, acostumados com as centenas de canais de televisão, redes sociais, os streamings, jogos eletrônicos, Inteligência Artificial e tantos badulaques mais, vão se dispor a ver, por exemplo, um longo desafio de viola nos moldes que eram feitos nos alpendres das fazendas do interior do Nordeste?
Irão compreender a beleza que há nos bois de reis? Nos fandangos e pastoris? Na singeleza das Dianas e pastoras?

Pastoril

Vale lembrar que Newton Navarro escreveu O ABC do Cantador Clarimundo usando de bastante liberdade poética. Que o ritmo do Maracatu sofreu impulso quando repaginado por Chico Science. A lambada, o carimbó e outros ritmos regionais repercutiram e ganharam o país nas vozes de artistas que os gravaram à sua maneira.

Falei de Newton Navarro e lembrei: a Redinha que ele tanto amou sofre reformas e não vai voltar a ser a mesma do velho mercado dos peixes despejados dos grandes samburás. Reformas para melhor ou pior? Não sei, só desconfio. Mas sei que resta a saudade de Geraldo Preto e de dona Dalila, do bar Aquele Abraço, das tapiocas e gingas, do trapiche que recebia as lanchas fumacentas de Luís Romão, das jangadas retornando no fim da tarde, saudades do tempo que passou e só permanece em nossas memórias.

Mercado da Redinha, demolido para construção de um novo. Foto Robson Pires

3 respostas para “MUDOU O SÃO JOÃO OU MUDEI EU?”

  1. Aluisio Lacerda disse:

    Excelente texto do Dr. NILO.

  2. Carlos disse:

    Emerwnciano tem razão. Difícil acreditar a a suntuose do novo complexo, receba de volta Geraldo Preto e de dona Dalila, do bar Aquele Abraço. Faltará chão para os nativos?

  3. Carlos disse:

    Emerwnciano tem razão. Difícil acreditar que a suntuose do novo complexo, receba de volta Geraldo Preto e de dona Dalila. Faltará chão para os nativos.