A MULHER DO CAPITÃO

janeiro 21, 2024

NILO Emerenciano – Arquiteto e escritor Encontrar o Capitão é para mim sempre uma alegria.

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NILO Emerenciano - Arquiteto e escritor

Encontrar o Capitão é para mim sempre uma alegria. Ele é engraçado, conversador, tem sempre uma história pra contar. As vezes preciso provocar, tocar em algum arquivo oculto, estimular a veia confidente do Capitão. Dessa vez a gente estava na sala de espera de uma clínica, coisa de gente idosa. Lembrei de perguntar pela família e pela esposa, só uma fórmula cortês.

-Camaradinha, você ainda lembra daquela jararaca? Aquilo foi meu carma, meu castigo, minha penitência. Acho que paguei os pecados todos da minha existência, e olhe que são muitos. Eu sei que tenho tantos defeitos que professora do primário não consegue contar, é verdade, mas a cobra caninana era de amargar.

- O que era tanto, Capitão?

-Primeiro, e muito grave, era a gula. A mocinha comia como um padre. Nesses sirva- você-mesmo o prato que ela fazia pesava quase um quilo, fora a sobremesa. Prato de limpador de fossa. Lá pras quatro da tarde já estava às voltas com bolo, pamonha, croissant, e ainda reclamava que não tinha nada na cozinha. À noite, enquanto eu me virava com café com leite e um pouco de queijo e pão, ela preparava outro almoço ou uma sopa farta acompanhada com dois pães.

-Mas isso não é problema, Capitão.

-Não? Você diz isso porque não via o tiroteio que vinha depois. Quando ela se espreguiçava de manhã cedo era uma guerra química. Sabe aqueles espanta-coió que a gente soltava no são João? Até a cachorra se assustava. Aí dizia que foi o pão. Eu respondia na bucha: - Pão? Pensei que tinha sido um pum. Sou um homem compreensivo, camarada, mas custava ela ir ao banheiro?

"-Conheci uma moça que acabou o noivado porque soltou um traque na presença do namorado"

 -Existem casais que estabelecem tipo uma liberação de puns.

-Mas não comigo. Acho falta de cortesia, desrespeito, grossura e tudo o mais. Conheci uma moça que acabou o noivado porque soltou um traque na presença do namorado. Correu lá pra dentro e nunca mais teve coragem de olhar a cara do apaixonado. Outros tempos, claro.

-Mas isso não é nada. Com o correr dos anos aquele docinho que conheci e namorei foi sofrendo uma transformação radical. Tornou-se grossa, intolerante, barraqueira. E gorda. Até palavrão começou a falar. Parecia uma estivadora, com o devido respeito à categoria. Imagine, logo comigo que não falo palavrão, papai não falava, minha mãe muito menos. E quando eu reclamava, ela ironizava, sarcástica: - Esqueci que tem um santo em casa...

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-Acha pouco? Deu pra evangélica. Descobriu uma igreja perto de casa, botou uns vestidos longos e de mangas compridas, uma bíblia de Almeida embaixo do braço e lá se foi. Em algumas semanas era um tal de glória a Deus, sangue de Cristo tem poder, aleluias, misericórdia. Pra completar vivia ouvindo no celular as pregações de um pastor que falava aos gritos, imagino que ele acha que Deus é surdo.

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- Você ri porque não foi com você, camaradinha. O dinheiro sumindo e eu descobri que o tal pastor (pastor pras negas dele) era um pedinte insaciável. Dinheiro pra isso e praquilo. E tinha a cara de pau de botar no Instagram fotos de sua mansão na praia. Sabe a casa de Neymar? Pois é, quase aquilo. e você não imagina de onde saia o dinheiro, não é? Do bolsinho aqui do Capitão.

Pra completar ela cismou com minha cervejinha que nunca fez mal a ninguém. Começou a dizer que era coisa do demônio: - Está repreendido! Veja se pode. Eu, na minha idade, repreendido. -Tarefas de casa? Esqueça. Inventou uma dor nas costas e largou de uma vez por todas a vassoura. Aliás, qualquer instrumento de ação doméstica. E jogou pra cima de mim a lavagem das louças.

Eu, já pensou? Antigo militante da esquerda, exilado na droga do Uruguai. Arranjei uma luta de classes dentro de casa. Será que mereço?

-Mas talvez porque uma mentira me fez procurar asilo fora do Brasil. Eu tenho verdadeira ojeriza a mentiras. E o saco de peidos mentia como uma desesperada. Começa quando ela dizia que nunca mentia. Acredite, camaradinha, uma palavra do que ela proferia não merece crédito. Inventa uma história na horinha, foge de perguntas usando hipérboles, ou coisa do tipo. Inventa mais do que o professor Pardal. Devia ser escritora, com tamanha capacidade de criar histórias. Uma cara de pau! Defende o Moro, pode? Acho que só pra me aporrinhar.

-Fui uma vez na sua casa e ela me recebeu muito bem. Foi simpática, até.

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-Com os outros, com os outros. Pimenta nos olhos dos outros, você sabe. Mas quando se enfurecia desqualificava todos os meus amigos. - Bando de vagabundos!!! Imagine o que sofri, camaradinha.

Aí a atendente chamou. Era a minha vez e fui obrigado a me despedir do Capitão. Deixei-o na sala, entre um bebedouro e uma televisão ligada em Ana Maria Braga e um louro tagarela. Ao sair lembrei de perguntar: - Capitão, você falou no passado. Ela foi embora? Os olhos do Capitão brilharam.

- Foi, não. Foi-se. Ela cismou com o celular. Era Instagram, Wats App, Twiter e o escambau, até no banheiro. Adeus café da manhã, almoço, jantar. Nem conversava mais comigo. Foi atravessar a rua de cabeça baixa, grudada no Tik Tok, um carro veio e pronto! Foi-se, camaradinha, glória, aleluia! Sangue de Cristo tem poder!

Câmera de segurança registra atropelamento de uma senhora ao cruzar rua olhando para celular Foto Ilustrativa

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