Dia: 11 de julho de 2021

Cem anos do mestre e amigo Veríssimo de Melo

 Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

O saudoso amigo e mestre Veríssimo de Melo, agora centenário, que na intimidade da amizade era chamado de ‘Vivi’, nasceu em Natal, no dia 9 de julho de 1921 e veio a se encantar no dia 18 de agosto de 1996, mês dedicado mundialmente ao folclore. Foi meu paciente mestre nos estudos do folclore e grande amigo. Sua grande paixão em vida foi alicerçada nas lições cascudianas, tendo o privilégio de recebê-las em vida, sendo o primeiro discípulo dileto do mestre da Junqueira Aires, Câmara Cascudo.

O irrequieto Veríssimo, como folclorista, viajou quase todo o mundo, tanto pesquisando, quanto participando de Seminários e Congressos como representante do RN. O mesmo foi presidente da nossa Comissão Norte-rio-grandense de Folclore por décadas, até repassar para outro amigo e também um de meus mestres, Deífilo Gurgel.

Eu, ainda bem jovem, resolvi pesquisar por curiosidade e teimosia sobre o vasto mundo da cultura popular nordestina. Então, bati três portas sagradas e, como dizia minha mãe, dona Estela, fui recebido como um parente dessas casas visitadas: “Meu filho, faça tudo para merecer voltar aonde você for!”. Explico-os: no casarão de Câmara Cascudo, eu ia a convite da saudosa amiga Anna Maria Cascudo Barreto. Via o sábio mestre um pouco de perto, mas não o incomodava, devido ao seu problema com a surdez. Meu atrevimento não ia tão longe. Ali tomava café com tapiocas e conversava com sua esposa, dona Dhalia, nos finais de tarde. Ana abriu-me as portas e passou-me a chamar com exclusividade de ‘Guto’ até a sua partida em 15 de janeiro de 2015. Foi fiel amiga e por que não dizer, uma irmã querida de minha vida…

Poucos anos depois eu ia os sábados, pela parte da tarde, visitar a casa do mestre e amigo, Gumercindo Saraiva. Verdadeiras aulas com muitas conversas e vinhos. Levava nas ocasiões, um caderno grosso para anotar as dicas bibliográficas e transcrever o que lá eu lendo em alguns livros. Dona ‘Guilhermini’, como eu a chamava, de vez em quando, interrompia nossas prosas, trazendo em especial bandeja de prata, café, água ou vinho tinto seco da melhor qualidade. Às vezes, o folclorista e músico tocava seu bem guardado violino para um jovem visitante, que nunca tocou nem sino da igreja de São Pedro, no meu Alecrim. Coincidentemente, o velho folclorista, partiu tocando violino, em 22 de maio de 1988, dois anos depois de Câmara Cascudo.

E a terceira porta que me foi escancarada, foi a do saudoso mestre e amigo ‘Veríssimo de Melo’. Esse, gentilmente liberou-me todas as suas manhãs, de segunda à sexta para receber-me na sede da Academia de Letras. Dizia-me rindo entre incontáveis cigarros e cafés: “Pode vir aqui, meu jovem, no meu escritório quando quiser, será um prazer ensinar-lhe o que aprendi com outros que me ensinaram, como Câmara Cascudo”. Com muita paciência, ia me pedindo para anotar no meu velho caderno, as principais obras sobre o folclore brasileiro e seus autores. E haja conselhos: “Não escreva nada sem antes consultar Cascudo e Mário de Andrade!”. Mais ao longo da amizade: “Quando tiver uma boa ideia fique em segredo até publicá-la. Não durma no ponto, pesquise e não se preocupe com a quantidade de páginas. Não demore muito no tema, que vem outro mais esperto e escreve antes de você…”.

Viu logo que diante de minha dificuldade financeira em adquirir livros raros e caros em sebos, e de pronto disse-me em menos de um mês: “Vou te emprestar um livro de cada vez, pois quem leva dois ou três não volta para devolvê-los ao dono. Quando me devolver este agora na próxima semana, leva outro de minha biblioteca”. 

Um dia, deu-me de presente uma caixa de papelão, recheada de folhetos de cordéis sobre Tancredo Neves e o Papa João Paulo II. Eram folhetos que foram pesquisados em seus livros, sobre o político mineiro que chegara a presidência e a visita do então Papa ao Brasil. Deu-me a caixa e a seguinte orientação profética: “Existe muita coisa ainda a ser pesquisada na Literatura de Cordel sobre o Rio Grande do Norte. Vá em frente, não se preocupe com os desocupados e invejosos. Por eles, eu não terei feito nada!”. Quando lhe mostrei o meu trabalho sobre o Santo de Natal, Padre João Maria na Literatura de Cordel, muito contente, o levou para casa e prometeu-me entregar com a sua apresentação: “Interessante que, até agora, ninguém se deu ao trabalho de juntar os folhetos que existem sobre o nosso santo!”. E antes da entrega prometida, o mesmo viajou de vez dessa terra…

Às vezes, quando o livro trazido de sua biblioteca era pouco volumoso, eu o lia ali mesmo em silêncio numa grande mesa no Conselho Estadual de Cultura, paginando-o, anotando e só sendo interrompido quando o mestre Vivi se aproximava com o convite: “Vamos dar uma paradinha, meu jovem, para uma água e um cafezinho”. Perdi a conta dos dias e dos livros, mas estão na memória seus conselhos e, principalmente, suas histórias sobre Cascudo, Zé Areia, Luís Tavares, Newton Navarro, Albimar Marinho, Roberto Freire, Cancão, entre outros intelectuais, boêmios e quixotescos personagens de seu convívio natalense. Cada história era acompanhada da inevitável risada, a qual chamava a atenção até da secretária da Academia, que não as ouvia, mas percebia nós dois caindo em gargalhadas: Pesquise sobre os tipos populares, os de rua, os esquecidos, os que ninguém quer mostra-los em suas obras. São as riquezas humanas das cidades que foram vistas por um João do Rio e Mário de Andrade, entre poucos!”.

O mestre Vivi sempre dizia-me que, aquele clima descontraído em ‘seu’ escritório, sua esposa não aprovaria em seu apartamento, por isso os nossos encontros teriam que ser sempre no térreo da casa de letras de Manoel Rodrigues de Melo. Quando chegava alguém amigo, o mesmo ia atender em sua mesa de presidente do Conselho de Cultura, mas quando se tratava de um daqueles tipos chatos, ele se sai com esta: “Venha outro dia. Me desculpe que eu no momento estou ocupado com este jovem que veio aqui pesquisar sobre folclore”. Na saída do tal indesejado, haja risadas e cafés para comemorarmos a divina despedida, sem vassoura atrás da porta: “Você, lá na frente, se não se isolar das visitas, pedidos e telefonemas, não vai conseguir escrever nada, viu!”. Hoje o entendo muito bem…

O mestre foi professor universitário de etnografia e antropologia da UFRN, escritor, jornalista, compositor, pesquisador, conferencista e folclorista. Além de boêmio e tocador de violão, me dizia rindo que as últimas tinham sido duas profissões boas do seu passado… e confirmava a honraria de ter sido até guia do conhecido cego Raimundo Bamba: “Vá atrás de Raimundo e escreva sobre ele. É um dos que estão aí esquecidos…”. Nem precisa dizer aqui que segui muito de seus ensinamentos e conselhos. Ele, um sábio professor com idade de meu pai e eu, um jovem pobre aprendiz, com idade de um de seus três filhos…

Em nenhuma universidade, eu teria um educador da seriedade e saber de um Veríssimo de Melo. Atendi fielmente aos pedidos de dona Estela: “Meu filho, procure boas amizades. Árvores que possam lhe oferecer sombra!”.

Tempos depois, o via sempre abrindo sua caixa postal no Correio da rua Princesa Isabel, no qual, por coincidência, também tinha uma. Ao me ver retirar uma cartinha, o mestre carregado de cartas e livros vindos do mundo todo, para consolar-me, dizia rindo: “Calma, vai chegar o seu tempo. Um dia, você não vai ter tempo para responder as cartas e pedidos que lhe chegarão!”. Foi, naquela agência dos Correios, o nosso último encontro e bate papo. Na ocasião, um pouco calado e se queixando que ia se submeter a uns exames: “Talvez até botem a culpa no uísque e não no leite, viu!”. E contou-me novamente, em nossa ‘despedida’, a história de Zé Areia, seu biografado e anjinho que só tomava leite…

Faltando apenas quatro dias para o dia do folclore de 1996, o mestre Vivi partia tão rápido de sua Natal. Se foi com seu coração tão grande e generoso de um professor, com passo sempre ligeiro de quem era magro para as terras de São Saruê, onde as barrancas são de cuscuz e o rio é de leite puro. Terra de verdadeira amizade, bate papo, caju, cachaça… tudo puro e santo, sem os corantes e conservantes artificiais do século XXI…  

E uma grande coincidência ocorreu-nos depois de alguns anos de seu encantamento. Minha filha Elaynne, formada em Letras na UFRN, passa no concurso para professores da rede municipal de ensino de Natal e começa a trabalhar justamente na ‘Escola Municipal Veríssimo de Melo’, no bairro de Felipe Camarão. A citada professora, a qual não teve o privilégio de ser amiga do mestre patrono de sua escola como o seu pai, que além de amigo, foi também aluno da chamada Universidade espontânea do saber ‘verissiminiano’, me pede uma fotografia e livros do mestre Vivi para o acervo da sua recém escola. Na hora veio-me um impulso do coração para ligar para Diógenes da Cunha Lima, grande amigo de Vivi, e pedir-lhe ajuda nesta ‘intriga do bem’. Esse atende-me de pronto, dizendo-me não se tratar de coincidência nenhuma, mas sim de um pedido do próprio Vivi aos amigos: “Já que ele quer que as crianças o conheça, vamos colocar sua foto em destaque na escola que o homenageia!”.  

Marcamos o dia e, em uma manhã de sol e pátio cheio de crianças estudantes, chegamos lá. Eu, Diógenes e Severino Vicente, com uma grande moldura do mestre Vivi, doada pelo advogado e presidente da Academia de Letras do RN. Coincidências que só os espiritualistas explicariam, não eu…

Aqui está embora longo, um pouco do meu vivido em uma amizade, da qual me restou a gratidão, muito bem repassada aos filhos – Fernando, Sílvio e Monique! Minha eterna gratidão até aos netos nesse centenário de seu nascimento. Meu mestre Vivi, sei que isto tudo é muito pouco, pois você merece muito mais!

                          Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN, 09/07/2021.

UMA POTIGUAR ILUMINADA

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor

Ali, onde a Avenida Rio Branco começa a sua descida em direção ao bairro da Ribeira, havia uma casa com uma placa de metal fixada na fachada que indicava ter sido a residência de Auta de Souza. Eu era garoto e fiquei curioso por saber quem havia sido a pessoa a merecer tal registro. Meu pai me falou um pouco, esclarecendo que era uma poetisa que havia morrido muito jovem e que havia deixado um livro de extrema beleza chamado Horto.

dsc03330
Notícia da morte de Auta de Souza no jornal A República, em 8 de fevereiro de 1901 FOTO: Tok de História

Além disso, para exemplificar, cantarolou versos de uma modinha que nunca esqueci: “O céu parece uma igrejinha antiga/que a lua branca vai alumiando/e essas estrelas muito além dispersas/são rosas brancas no infinito imersas/monjas benditas ao luar chorando”. Essa descrição do céu como uma igrejinha antiga e monjas chorando ao luar calaram fundo em meu coração de garoto.

dsc00988
Informativo sobre a venda do livro “O Horto” -FOTO: Tok de História

Em minhas andanças pela biblioteca pública da cidade, consegui, enfim, ter o livro em mãos. E foi um deslumbre. Tanto pela vida dramática da poetisa, contada na apresentação, como pela beleza trágica dos seus versos. Além disso, impressionou-me a carga mística e a fé religiosa que a jovem descrevia em seus poemas. Fiquei a imaginar a jovem solitária no seu quarto, sentindo a presença de anjos e a aproximação da morte, a escrever aquelas páginas como quem registra um doloroso diário. Além disso, a sua foto me revelou uma pessoa de aspecto frágil, porém de olhar firme e boca decidida.

Foto: Substantivo Plural

Auta de Souza perdeu o pai e a mãe muito cedo, antes dos quatro anos de idade, e logo depois o seu irmão mais novo, Irineu, também teve uma morte trágica, queimado pela explosão de um candeeiro. Como se dor pouca fosse bobagem ela se descobre tuberculosa e com prognóstico de uma existência breve além de limitada pela doença. E aí sua vida se torna uma constante romaria, sempre mudando de morada em busca de melhores ares para a sua saúde combalida. A literatura, então, passa a ser confidência, preces, ligação com Deus e a Mãe de Jesus, manifestação de fé e esperança. E pouco antes de morrer escreve como quem conclui um inventário da própria vida:

Lá vai a pomba voando

 Livre, através dos espaços…

Sacode as asas cantando:

“Quebrei meus laços!”

Aqui, n’amplidão liberta,

Quem pode deter-me os passos?

Deixei a prisão deserta,

“Quebrei meus laços!”

Jesus, este voo infindo,

Há de amparar-me nos braços,

Enquanto eu direi sorrindo:

“Quebrei meus laços!”.

Nos seus momentos finais, solicitou a presença do vigário que é até hoje amado e respeitado por todos os potiguares, o Padre João Maria, anjo da cidade. Que belo encontro de almas igualmente cândidas!

Mas não acaba aí. Alguns anos depois de desencarnada, Auta de Souza volta a escrever belas páginas, agora em espírito e através da sensibilidade do médium mineiro Francisco Cândido Xavier. Sua produção aparece no livro “Parnaso de Além Túmulo”, de 1932, junto a muitos outros poetas ditos mortos, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Guerra Junqueira, Cassimiro de Abreu, Raimundo Correia. Em dezesseis poemas, a potiguar retoma os temas de sua obra, renovados por um sopro de alegria:

 “Adeus, Terra das minhas desventuras”…

“Adeus, amados meus…” – diz nas alturas,

A alma liberta, o azul do céu singrando…

 – Adeus… – choram as rosas desfolhadas,

 – Adeus… – clamam as vozes desoladas

 “De quem ficou no exílio soluçando…”.

Chico Xavier descreveria seu primeiro encontro com a nossa poetisa quando perguntado se teria especial lembrança de algum poema: “Recordo-me de um soneto intitulado “Nossa Senhora da Amargura” (…). Eu estava em oração, certa noite, quando se aproximou de mim, o espírito de uma jovem, irradiando intensa luz. Pediu papel e lápis e escreveu o soneto a que me referi. Chorou tanto ao escrevê-lo que eu também comecei a chorar de emoção, sem saber, naquele momento, se meus olhos eram os dela ou se os olhos dela eram os meus. Mais tarde, soube, por nosso caro Emmanuel, que se tratava de Auta de Souza, a admirável poetisa do Rio Grande do Norte”.

Em 1976, ainda psicografados por Chico Xavier, a poetisa teria 83 poemas de sua produção póstuma reunidos em livro intitulado simplesmente “Auta de Souza”. “São poemas de amor e de beleza, de espiritualidade e de esperança, em mundividência mais ampla, porque nascidos nas mais extensas dimensões da Eternidade”, declara Clovis Tavares, no prefácio.

A cantora Glorinha de Oliveira, recentemente falecida, gravou em CD alguns de seus poemas sob forma de modinhas que eram cantadas em serestas e preservadas pela tradição oral. Assim também, a professora Ana Laudelina, da UFRN, realizou em 2008 um belo documentário sobre a sua vida, “Noite Auta, Céu Risonho”.  O pesquisador e músico Carlos Santa Rosa, por sua vez, musicou e gravou em um CD chamado Presença do Amor, onze sonetos da chamada produção psicográfica de Auta de Souza.

É pouco. Muito mais poderia ser feito.   Deveria haver uma ação mais efetiva dos nossos gestores, no sentido de promoverem concursos literários, adoção do “Horto” nas escolas, eventos de todo tipo, principalmente em tempos de “empoderamento” feminino. Que tal, por exemplo, a implantação de um memorial na casa onde ela nasceu em Macaíba? Acho que é mais do que merecido. Afinal, não é a toa que Olavo Bilac, o nosso maior poeta à época, prefaciou seu livro. E também não foi a toa que Câmara Cascudo afirmou: “É a maior poetisa mística do Brasil”.

Casa onde nasceu Auta de Souza/Macaíba/RN. 
Atualmente, é a Escola Estadual Auta de Souza. Foto-Juscio
Um dos prédios mais antigos de Macaíba, o local que abriga a Biblioteca Municipal foi construído no final do século XIX, antiga casa dos irmãos Henrique Castriciano e Auta de Souza. Desde a década de 1930 do século XX, o local abrigou setores administrativos municipais e estaduais, tornando-se oficialmente uma biblioteca pública em meados dos anos 1990.

Quanto ao poema a que Chico Xavier se referiu, “Senhora da Amargura”, segue para nós todos, como amostra da grandeza da eterna Cotovia do Horto, pois como nos fala Clóvis Tavares: “Auta aqui está, pelo pensamento e pelo coração. Mais viva que outrora, quando peregrinava, entre saudades e lágrimas, pelos áridos caminhos do Agreste e do Sertão de sua terra natal…”.

Mãe das Dores, Senhora da Amargura,
Eu vos contemplo o peito lacerado
Pelas mágoas do filho muito amado,
Nas estradas da vida ingrata e dura.


Existe em vosso olhar tanta ternura,
Tanto afeto e amor divinizado,
Que do vosso semblante torturado
Irradia-se a luz formosa e pura;


Luz que ilumina a senda mais trevosa,
Excelsa luz, sublime e esplendorosa
Que clareia e conduz, ampara e guia.


Senhora, vossas lágrimas tão belas
Assemelham-se a fúlgidas estrelas:
Gotas de luz nas trevas da agonia.

Sei que é um poema e não uma prece, mas me sinto inclinado a concluir dizendo: Amém!

NATAL/RN

Aurora da nossa vida!

Rosemilton Silva- Jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Menino de tudo, como diria mãe Quininha, corria solto na buraqueira juntamente com seus amigos depois de meio dia de aula na escola primária onde professoras acariciam seus alunos, mas levantam a palmatória quando se faz necessário e ninguém, nem mesmo os pais, reclamam porque acreditam que assim se ajuda a formar homens.

Na rua grande ou num beco estreito, uma bola de meia faz a festa enquanto carrinhos de rolimã descem ladeira abaixo sem qualquer tipo de freio a não ser a alpercata geralmente de solado feito de pneu de caminhão para durar uma eternidade. Mas há aqueles que preferem um carrinho de lata, uma baratinha toda mole nos feixes de mola feitos de um fino pedaço de flandre.

Meninas se divertem brincando com suas bonecas de pano, de louça ou de palha de milho com seus cabelos dourados em tempos de bom inverno. Na calçada, assumem papel de mães aprendendo, mesmo que não se dêem conta, como lidar com as mais diversas situações de suas “filhas” inertes em seus braços, mas muito vivas em seus pensamentos que voam como se fossem maravilhosas jornadas de um dia a dia de mães atarefadas em cozinhas, lavagem e passagem de roupas para a escola do dia seguinte.

Quando se misturam a noite na calçada, a brincadeira é sadia, sem segundas intenções. Nadam em braçadas de risos fartos e francos nas brincadeiras sadias que mais servem de lição de como perder sem ser incomodado por isso porque faz parte do jogo e da vida futura que se avizinha correndo por fora celeremente embora pareça uma eternidade.

As brincadeiras são coletivas e ensinam que na vida cada um depende do outro e é isso que assumindo no consciente de cada um para formar a personalidade que será mostrada anos depois na vida que cada um encarar para a sobrevivência no meio de uma floresta de pensamentos que vão se somando ao passo que os ensinamentos forem se mostrando ao longo da vida.

E tudo sob a vigilância dos pais que pretendem se orgulhar ao pronunciar o nome dos filhos quando estes forem adultos e assumirem suas vidas. Na adolescência nem sentem a revolta contra o mundo e contra todos. Acham-se donos da verdade que certamente será desmentida quando forem adultos e entenderem a máquina que move a vida mostrando uma realidade quase sempre diferente do que pensava há vinte, trinta anos antes. Livros, teorias, experiências acabam sendo fator que conduzem a quebrar a cara mais na frente e aprender com a vida a lição que um dia professores deram nas salas de aulas e que parecia ser uma utopia, sem sentido pra vida, coisa de gente ultrapassada.

E tudo isso nos lembra aquela pequena cidade de onde vimos e para onde nunca deixamos de ir levados pela saudade dos velhos e bons tempos, dos ensinamentos das nossas professoras, dos nossos pais e, porque não dizer, dos nossos amigos nas noitadas de conversa sob a luz fraca e tremulante de uma lamparina que solta a fumaça que nem acreditamos que nos faça mal enquanto os olhos trafegam pelas linhas de um livro que nos foi emprestado pela biblioteca itinerante que passa uma vez por mês, montada em um ônibus, trazendo a cultura que nos é negada dada as poucas condições do lugar de biblioteca sem muitos títulos. O estudo vem sempre agregado aos amigos, em conjunto e a cola faz parte do aprendizado garante os ditos mais espertos.

É essa geração que está se indo levando consigo a saudade de um tempo bonito, de cidades pequenas, brincadeiras na calçada, seriedade nos estudos, respeitos aos pais, aos professores, aos mais velhos. Que aprendeu na escola pública com professoras que a tinha como filhos muito amados e que teriam muito orgulho de dizer que aquele menino ou menina fora seu aluno, com ela aprendera as primeiras letras… E entre lágrimas recordo Casimiro de Abreu: “Oh! que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”

CORRESPONDÊNCIA ATRASADA

Ex-governador Lavoisier Maia

Valério Mesquita (mesquita.valerio@gmail.com)

Em 21 de novembro de 2006 recebi do querido amigo e jornalista Tertuliano Pinheiro essas três impagáveis poucas e boas do ex-governador Lavoisier Maia.

01) Edson Faustino morava em Brasília. Dirigia a Embratur. Lavoisier Maia, com interesse em viabilizar algumas emendas parlamentares, ligava-lhe quase todo dia cobrando uma posição positiva. Belo dia, Edson, jantando com uma amiga e modelo, entre afagos e muita conversa, toma conhecimento que no dia seguinte, às 17h, o nosso Lavô teria um importante encontro amoroso no Hotel Nacional. No dia seguinte, por volta das 10h, liga para o gabinete do nosso Lavô, dando-lhe a boa notícia: “Lavô, hoje é possível conversarmos sobre as emendas…”. Lavô, vibrando, responde: “Es-pe-tá-cu-lar!”, silibando. Edson, não perdeu tempo. “Então, 17h, aqui na Embratur…”. Do outro lado da linha, Edson, ouviu aquele grito desesperado: “Não! .Hoje, não! Qualquer dia, qualquer hora, mas hoje à tarde, não! É! IM-POS-SÍ-VEL”, silibou de novo Lavô, ao seu estilo. Edson, desliga o telefone e passa mais de meia hora sem conseguir controlar a risada.Tempos depois, Lavô soube da brincadeira e também caiu na gargalhada.

02) Noite fria em Brasília, Edson Faustino, recebe uma amiga em seu apartamento. Mulherão,1,80 de altura, olhos verdes… Um show! Não perde tempo, liga para Lavô e bota a dita cuja pra falar com ele. Antes, informa-lhe todo o “potencial” da moça. Inclusive a altura. Lavô, do outro lado da linha, vibrava ao conversar com a bela. Depois do papo, disse-lhe: “Passe-me pra Edson”. Edson, pega o telefone e do outro lado da linha, Lavô aos gritos: “Edson, Edson, Edson,um metro e oitenta… Pezinhos do lado de fora da cama… É de mais!”. Edson Faustino, desligou o telefone e teve outra crise de riso. Convenhamos, a imaginação dedutível de Lavô: “Sen-sa-cio-nal”.

03 Anos 90, comício na grande em Mossoró. Lavô era candidato ao governo, já apresentava sinais de irritação e explodia à toa. A assessoria eficiente, detectou que o nosso governador, já tinha uns cinco dias, devido a intensa campanha, que não trocava carícias com o sexo oposto. Reunião de urgência. Movimentação nos bastidores e os assessores cairam em campo em busca de uma companheira para acalmar o candidato. Informação pra lá, pra cá… De repente, surge uma indicação. “Tem uma bela morena de nome Lena, muito discreta e que sai com gente de fora da cidade. O negócio dela é presente. Ela gosta de bons presentes”, concluiu o aspone. Foi designado um assessor da campanha com experiência no ramo, que antes mesmo do encontro, passou no Shopping e comprou três importantes presentes: uma bolsa, um perfume e um belo relógio. A missão não podia falhar. Ela era muito bonita e simpática, e vendo os presentes, aceitou na hora o “convite”. Já era tarde da noite e o comício pegava fogo. Lavô, apesar da multidão, continuava de cara amarrada. De repente, em cima do palanque, chega o assessor e apresenta a bela morena ao candidato. “Lavô, essa aqui é Lena. Uma grande admiradora sua e louca pra lhe conhecer…”. Lavô, aos gritos e vibrando muito, dizia; “Bela! Belíssima! Vera,né? E ainda dizem que Vera Ficher é bonita. Bonita é você, minha filha! Bonita é você…”. E já com o humor completamente modificado, deu um show no comício e no final ainda completou: “Mossoró é especial. Passar um dia aqui é pouco.Vou ficar e vou dormir em Mossoró.” Terminado o comício, se mandou para o Termas e só no dia seguinte, por volta das 10h, apareceu para as entrevistas de praxe. Feliz da vida…

MUNDO CHATO

Nadja Lira – Jornalista • Pedagoga • Filósofa

Decididamente o mundo se tornou um lugar muito chato para se viver. Lembro-me de que na minha época de criança, todo mundo tinha um apelido e isto não nos transformou em adultos traumatizados, assim como também nenhum dos apelidos foram transformados em casos de polícia ou razão para a abertura de um processo judicial contra alguém. Eu tinha dois primos muito próximos e dificilmente os chamava pelos nomes. O mesmo ocorria com os amigos da escola.

Naquela época não havia telefones celulares e assemelhados, e até televisão era coisa rara, de modo que tivemos uma infância divertida, já que inventávamos as nossas próprias brincadeiras. Na casa da minha avó, uma lata de óleo era transformada em um carrinho e uma casca de melancia se transformava em uma boneca, pelas mãos habilidosas do nosso avô.

A violência que hoje impera no mundo era algo muito distante de nossa realidade, de modo que nossos maiores medos eram do Bicho-Papão e do Velho do Saco. Assim, as crianças podiam brincar na rua sem dar preocupação aos pais, desde que chegassem em casa na hora determinada.

Essa, sem sombra de dúvidas, era uma época boa de se viver, já que não havia esse abuso que hoje se vê e onde tudo o que se diz, precisa ser muito bem pensado. Caso contrário você pode ser vítima de um processo judicial.

No mundo atual, tudo está virado pelo avesso. Lembro que eu e todos os amigos da minha época, levamos boas surras dos nossos pais, avós e tios. Os adultos das famílias tinham todo o direito de dar umas boas palmadas nas crianças quando estas faziam birra. As palmadas, porém, contribuíram para o fortalecimento de nosso caráter. Ninguém ficou traumatizado, guarda mágoa, ódio ou rancor dos familiares por causa disto, ou articulou algum plano para assassiná-los.

As crianças do mundo de hoje são mal-educadas, birrentas, cheias de gostos, mandam nos pais e ai daquele que se atrever a dar-lhes umas boas palmadas. Corre o risco de perder a guarda dos filhos, sofrer processos, pagar multa e outras barbaridades. Até parece que as crianças de hoje não são feitas como antigamente, porque qualquer coisa é razão para um trauma irreparável na vida delas.

Tenho ouvido muitos psicólogos dizerem que esta geração Nutela, vai sofrer muito no futuro. Isto porque, é justamente na infância onde se forma o caráter da criatura. Uma criança que é acostumada a ter tudo e jamais recebe um sonoro NÃO dos adultos que a cerca, acaba imaginando que tudo na vida é assim. Ou seja, tudo está posto à sua disposição, e isto pode torna-las indivíduos de caráter fraco e emocionalmente incapazes de enfrentar as dificuldades impostas pela vida.

É por esta razão, segundo os estudiosos, que muitos homens se sentem donos das namoradas ou esposas. Falta-lhes maturidade suficiente para receber um NÃO, sem grandes problemas. Como resultado dessa deformidade de caráter, vê-se crescer dia após dia, o número de assassinato de mulheres pelas mãos de homens que, em algum momento juraram amá-las.

O curioso é que um pai não pode dar uma palmada no filho, quando este merece. Mas este mesmo pai pode pagar pela realização de um aborto, para impedi-lo de nascer, ou pode negar-se a pagar a pensão que vai ajudar na sua educação.

O mundo transformou-se num lugar desprovido de amor ao próximo, onde não existe empatia. Dificilmente alguém é capaz de se colocar no lugar no outro e entender suas dores, amarguras e lágrimas. À primeira vista ninguém é confiável e acaba-se criando uma couraça de proteção contra seu semelhante.

Na atualidade tudo está virado pelo avesso. Cidadãos de bem e pagadores de impostos são vistos como bandidos, sem direito algum. A não ser o de pagar imposto estratos estratosféricos. Enquanto isto, os bandidos têm direitos a tudo, uma vez que nossas leis são muito brandas para com eles. No mundo chato em que vivemos, não é demais afirmar que o crime compensa neste país do faz de conta.

FIGURAS MIPIBUENSES – Arlindo Izaías de Macêdo

José Alves – Jornalista e editor do jornal e blog O ALERTA

  Era o ano de 1917, uma manhã qualquer do mês de fevereiro, quando estaciono o carro na marginal direita da BR-101, no perímetro urbano de São José de Mipibu, e observo um pequeno sítio, cheios de figuras esquisitas e uma placa “Escaninho do Poeta”, em frente a uma pequena e simples casa, semelhante a muitas das proximidades.

Era nesse local que residia o poeta Arlindo Izaías Macedo, figura bastante conhecida em São José de Mipibu e que após seu falecimento, em 31 de março de 2018, esse sítio, bem como a casinha, foi demolido.

Assim, iniciei a matéria, publicada no jornal O ALERTA, edição 474 – de fevereiro de 2017:

“O sítio, onde Arlindo Izaías mora, chama a atenção de quem está passando na marginal da rodovia federal. Não pelas plantas, e sim pela coleção de inusitadas obras que ele produz a partir de material jogado e que aproveita para fazer uma exposição de objetos de madeira, cerâmica, pedaços de brinquedos, eletrodomésticos, jogados no lixo. O local chama a atenção e muitos curiosos param para ver o trabalho desse artista plástico mipibuense, mas, que ele gosta de ser intitulado por “Poeta povo”.

Arlindo nos recebe com simpatia e já vai falando sobre seus trabalhos. Mostra cada peça que ele transforma. Algumas são feitas a partir de madeira seca que encontra em árvores caídas, que esculpe e pinta, depois, complementado com diversos materiais descartados. O resultado soa surreal, infantil, ou assustador ao mesmo tempo. Há um peixe voador feito de raiz, com chifres de boi, hélice na cabeça e pintado de preto; um cachorro de cerâmica com óculos; um robô feito de madeira, monitor de computador e rodas de velocípede; figuras com cabeças de boneca e corpos de madeira ou de peças de bicicleta, um fantasma segurando uma cabeça…

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é image-170-575x1024.png

As árvores do sítio têm hélices e figuras penduradas nas árvores. Uma jarra de cimento virou uma carranca humana. Máscaras, manequins e roupas que são rearranjadas segundo a imaginação do artista. As figuras humanas ou animalescas que Arlindo cria não tem uma fonte de inspiração única. “Tudo que eu vejo me inspira, é uma forma de aliviar minhas tensões”, diz. 

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é image-169-575x1024.png

O atelier a céu aberto de Arlindo recebe constantes visitas, principalmente de escolas locais e de Natal. “A criançada adora isto aqui. Eu fico muito feliz quando ficam impressionadas com as imagens. Ele conta que não produz mais para vender, mas os interessados podem sempre chamá-lo na porta para apreciar suas criações de perto, diz.

Terminado de observar as “esculturas” de material reciclável, me sento num banco e começamos a conversar e falar de sua vida. Anoto tudo…

Arlindo Izaías de Macêdo nasceu em São José de Mipibu, em 17 de junho de 1951, “portanto, irei completar este ano, 66 anos. Sou filho de José Izaías Filho e Antonia Martins de Oliveira, que tiveram 25 filhos. Desses, só restam cinco”, diz.

Sua infância foi igual à de outras crianças, numa época em que não existia violência e os meninos eram criados “soltos na rua”. Mas existia respeito aos pais, amor e temor. Porém, muito diferente dos dias de hoje. 

Foto Ilustrativa

Para um pouco, como se puxasse pela lembrança do passado: ”tenho boas recordações daquela época, das brincadeiras, dos costumes. Vivíamos pelos engenhos, tomando garapa e comendo puxa-puxa e rapadura. Mas, bom mesmo, eram os banhos na Bica, nos rios Pituba, Mipibu e na Lagoa do Bonfim”.

Foto Ilustrativa

Arlindo se lembra de alguns amigos de infância, como: Raimundo Macedo, Babú, Beto Barbalho, Afrânio, Tupi, os filhos da família Fagundes. “Estudei o primário (fundamental) no Instituto Pio XII e o Admissão, na Escola Barão de Mipibu. O Supletivo de 1º Grau, cursei na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro”.

Ao alcançar a adolescência, consegui um emprego no Cartório de José Rinaldo e depois fui promovido à escrevente e chefe do Cartório Eleitoral. “Juntei um dinheirinho e aos 18 anos fui embora para o Rio de Janeiro, onde passei dez anos. Meu primeiro emprego no Rio, foi na empresa Desmontador Gordo e o Magro”.

Nesse período, sempre que podia, Arlindo vinha matar a saudade em São José de Mipibu, principalmente, por ocasião dos festejos juninos e de fim de ano, onde a cidade se transformava, recebendo filhos distantes e visitantes.

Foto Ilustrativa

Arlindo resolveu voltar para sua terra. Trabalhou em Cyro Cavalcante, em Natal e depois foi aprovado em concurso público na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Posteriormente, fui exonerado do emprego federal, por “abandono de serviço”. “Nessa época, já era alcoólatra. Porém, há 26 anos que frequento o AA e estou ausente do álcool”.

Arlindo fala que, também, já foi locutor de campanhas políticas, nas memoráveis campanhas, da família Ferreira, além de locutor de propaganda comercial.

POETA

Recitando versos, na Câmara Municipal de São José de Mipibu
– Foto: Daltro Emerenciano

Ao falar de sua veia poética, seus olhos brilham. Arlindo já lançou dois livros de poesia, “Na sombra da Catanduva” e “A fonte de poesia”. Está sempre escrevendo versos para futuras publicações.  Atualmente está concluindo o 36º livro de poesia. “Já escrevi seis livros de história e dois cordéis referente personagens da cidade”. Entre seus livros, estão: “Na Sombra da Catanduva “e “A fonte de poesia”.

Homenagem a São José de Mipibu  

São José, terra amada

De um povo simples e gentil

 Uma terra abençoada

 No meu querido Brasil.

São José que tem um clima puro e tropical

 Também és um pedacinho descoberto por Cabral

Uma terra aconchegante

 de um povo acolhedor

 São José é povo bravo

cheio de alegria e amor.

São José terra do Norte

 conhecida até no Sul/

Terra de um povo amado –

 a do Barão de Mipibu.

Ele se auto-intitula de poeta, artista plástico, escritor e talhador. “Meu ateliê é ao ar livre, no Escaninho do Poeta. Por conta desse meu trabalho, sempre aparece gente aqui. Alguns turistas até pedem para entrar para fotografar. Há uns dias atrás alunos do Colégio Marie Jost, de Natal, estiveram visitando o local”, disse.

Obras produzidas por Arlindo, com materiais descartáveis – Foto: TN

Sobre a cultura em São José de Mipibu, diz que sempre foi elevada, com bons artistas. “Aqui é um celeiro de artista, porém seus trabalhos são desvalorizados”.

Sobre o seu futuro declara: “pretendo deixar um legado para São José de Mipibu’, em relação a poesia, filosofou; “Poesia é alimento, é tônico que alivia as sequelas da vida”.teria.

Despeço-me de Arlindo e ao atravessar o portão do sítio ele faz um pedido: para incluir, na entrevista a mensagem: “Nasci em um país arbitrário e morrerei na arbitrariedade do meu país”.

“Nasci em um país arbitrário e morrerei na arbitrariedade do meu país”.
Arlindo Izaías Foto: Alexandre Freire

Arlindo veio a falecer, a madrugada do dia 31 de março de 2018, no Hospital Monsenhor Antônio Barros, onde estava internado. O corpo foi velado no Centro de Velório Sagrado Coração de Jesus, localizada na Av Moizaniel de Carvalho. O sepultamento ocorreu, às 16h, no cemitério local, após missa de corpo presente, na Matriz de Sant’Ana e São Joaquim.

Arlindo deixou o filho, Marcos Antônio Izaias de Macedo, publicou mensagem por ocasião de seu falecimento: “Um homem integro, de família de tradição Arlindo era apaixonado por São José do Mipibu. Pai de um único filho deixa eterna saudades. Filho e seus netos que todos lhe amam. Deus tenha sua alma em um ótimo lugar”.  

MEU NOME É OMISSÃO

Acabaram-se as senzalas, os troncos e as chibatas

Mas, é verdadeira ilusão

Hoje a tortura, apresenta-se

Com o nome, de omissão

Ela apresenta-se, como um falso paliativo

Com aquele, aperto de mão

E, um patético sorriso

Assim, apresenta-se a omissão, como um bom amigo

São as senzalas, os troncos e as chibatas

Dos prepotentes coronéis

Torturadores de muitas almas e, devastadores de corações

Que continuam massacrando o povo de Mipibu

Com este prepotente nome, OMISSÃO

Em seu blog de Olho em Mipibu, o professor Alexandre Freire escreveu: É com muita tristeza que noticiamos o falecimento de Arlindo Isaías de Macêdo, o POETA DE MIPIBU. Há alguns anos, Arlindo esteve colunista deste blog. Polêmico e sem “papas na língua”, através da coluna “Fala Cidadão”, ele reivindicava melhorias para São José de Mipibu.

Arlindo gravando matéria sobre o abandono do ginásio poliesportivo “Arlindão”, na coluna Fala Cidadão, do blog De olho em Mipibu. Foto: Alexandre Freire

Em um vídeo, Alexandre publica matéria realizada em junho de 2011. O poeta mipibuense trouxe uma matéria sobre o abandono do ginásio poliesportivo O Arlindão, por parte da gestão, da então prefeita Norma Ferreira. Entretanto, assim que o prefeito Arlindo Dantas assumiu, em 2013, reformou aquela praça esportiva, trazendo dignidade e mais uma opção de lazer aos nossos desportistas.

No blog Mipibu de Olho na Verdade, editado à época, por Edivanil Pontes, a professora Francineide (‘Fran’) Moura, mostrou seu descontentamento com um episódio ocorrido com o poeta Arlindo Izaías:

Professora Francineide Moura

“Fiquei indignada com o que ouvi do poeta Arlindo Izaias. Ele narrou que foi convidado pelo apresentador Júlio Silva, para participar do seu programa, surpreendentemente ao chegar ao estúdio da FM 87,9, tomou conhecimento que o diretor da emissora, não permitia a divulgação da cultura popular. Júlio disse para Arlindo que o diretor havia dito que ele iria sujar o programa.

A minha pergunta é: Essa FM Olho D’água é realmente comunitária? Gostaríamos de saber qual é a postura do deputado Fábio Dantas e de seu pai Arlindo Dantas. Que constrangimento, para um poeta de nome como Arlindo. Um verdadeiro, um ser comunitário que dedica uma parte da sua vida ao irmão mipibuense. Defensor nato dessa terra. Isso merece uma ação por danos morais”.

Achados da Quarentena (De Amauri Freire, publicado, recentemente, nas suas redes sociais)

“Remexendo o baú de arquivo de imagens me deparei com esse interessante achado, a visita do poeta Arlindo Izaías ao programa de rádio do amigo Lourival Cavalcanti, veiculado nas tardes de sábado, pela Rádio Olho D’água, de São José de Mipibu.

Esse encontro ocorreu em janeiro de 2011, onde, ao lado de Lourival, tivemos uma longa prosa com o saudoso poeta, ouvindo suas histórias e algumas de suas poesias.

O poeta nos deixou em 2018 e foi recitar suas poesias no céu.

Arlindo Izaías era daquelas figuras clássicas que fazem parte do cenário de cidades interioranas do Brasil, um homem que ousava fazer poesia num lugar onde quase ninguém lê.

Durante muito tempo rabiscou seus escritos, guardando-os para si, sem nenhum interesse literário. Escrevia por simples prazer, nas sombras das árvores do “Escaninho do Poeta”, lugar onde viveu boa parte de sua vida.

Muitas vezes ele me parava na rua, com aquela velha mochila, e me mostrava seus últimos escritos. Desde sempre o incentivei a fazer uma publicação, lançar um livro, quem sabe…

Um certo dia, no início da década de 2000, Arlindo me fez uma visita trazendo uma pasta com um grande número de poesias, queria “organizar” seus rascunhos. Responsabilizei-me em digitar tudo o que ele havia escrito até então, sugerindo apenas algumas poucas correções de ortografia.

O material foi calmamente arrumado e ganhou nome – Na sombra da Catanduva.

De posse desse material, Arlindo procurou apoios e conseguiu publicar seu livro através de um esforço do Secretário de Educação João Maria Freire, na gestão da prefeita Norma Ferreira, um dos entusiastas das letras do poeta.

Convém também lembrar de suas participações nos Festivais de Cultura promovidos pela Associação Cultural Cajupiranga, onde ele recitava com sua voz, grave e pausada, algumas de suas poesias, arrancando efusivos aplausos do público presente”.

Participando das comemorações do Dia do Flclore, em agosto de 2011,
pelo Ponto de Cultura Cajupiranga
Foto: Amauri Freire

De Amauri Freire, publicado em seu blog

Recebi a visita do ilustre amigo Arlindo Izaías de Macêdo, poeta das terras de Mipibu, que me trouxe duas poesias, saídas recentemente do forno.

Arlindo Izaias – Foto: Amauri Freire

Ambas fazem homenagens a duas datas históricas, comemoradas na semana passada. O dia de Tiradentes e o aniversário de Brasília – capital do país.

Com o intuito de divulgar todo e qualquer assunto relevante, principalmente na área cultural, e respeitando as individualidades e os pontos de vista, divulgamos com muito prazer as duas obras do Poeta de Mipibu.

UM PATRIOTA ESPECIAL

Patriota, determinado
Homem bravo e de valor
Defensor do povo brasileiro
Este ser, cheio de amor

José Joaquim da Silva Xavier
Guerreiro de bom coração
Defendeu até o último suspiro
Nosso Brasil, nosso torrão

Um transparente mineiro
Herói do nosso Brasil
Um verdadeiro ser, amável e decente
Este ilustre brasileiro, o saudoso Tiradentes

BRASÍLIA DOS BRASILEIROS

Brasília, encantador cartão postal
Brasília, que encanta o mundo inteiro
Obra bela de Oscar e dos candangos
Brasília do brasileiros

Erguida com determinação, bravura e amor
Capital de um país hospitaleiro
Que destaca-se no mundo inteiro
Brasília, capital dos brasileiros, dádiva do criador

És a deusa do planalto
Admirada por muitos olhares
Criado, com amor, por um mineiro
O grande presidente JK
Brasília de um povo guerreiro
Brasília dos brasileiros