Dia: 9 de maio de 2021

A VOLTA DO VELHO BOÊMIO…

                  

             Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Sempre retorno aos lugares quando sou muito bem tratado. Teve café, tapioca, tamborete, balanço de rede e conversas em calçadas, eu dou meu jeito de voltar. Gosto de saltear os lugares. De Igreja a bares. Contrato de voltar só mesmo pra minha casa, porque é o jeito. Acho que tenho algum sangue de cigano, como me diziam. Sou estradeiro, adoro viajar e conhecer novidades e culturas diferentes das feiras e mercados. Quando tenho alguma raiva do ambiente visitado, não tem jeito, nem a pedido do Papa eu volto! Não piso na calçada de certos pontos, há décadas. Dobro a esquina ou mudo de direção, dos tais. Estão até perdoados, mas não volto a pisar o chão que juro não retornar. Sacudo a poeira de minhas sandálias pra sempre, como foi ensinado aos primeiros cristãos, quando eram mal tratados.

Gutenberg Costa com o jornalista José Alves, degustando um guisado com cuscuz,
no mercado público de São José de Mipibu

Também não voltei aos namoros acabados por mim. Até voltaram a ser amigas, mas o lado sério não voltou jamais. O leite derramou e não voltei ao curral… Puxei a meu velho pai, Geraldo Costa, o qual um dia disse que, se tivesse deixado minha mãe, jamais teria voltado. Papai chamava a volta dos amores, ferozmente, de ‘cachorrada’. Ele era do tempo que não comprava vela pra defunto em bodega que não o tinha agradado: “Vai remando mesmo, sem vela cristã, mas o bodegueiro não vai ver minha cara na venda dele!”. Voltar, nunca foi coisa fácil, pelo menos para mim!  

Me aposentei e não voltei ao local de trabalho. Mudei-me de poucas residências, mas não voltei a elas, nem para visitas. Arrumo a mala para partir e nunca para voltar. Estou acostumado a ser chamado de ‘ranzinza’ e ‘radical’ mesmo, quase todas as horas. Não nasci com a paciência de budista e nem com dinheiro de milionário. Tem gente que volta facilmente ao seu ex amor. Conheço um caso de um amigo que brigou até em delegacia, divorciou-se e voltou pra casar com a antiga esposa, a qual só não chamava de ‘carne seca podre de feira’. E andavam como jovens namorados apaixonados…

Outros são expulsos de lugares e voltam sorrindo ao primeiro convite, como se nada tivesse acontecido. No meu caso, nem o pagamento de uma mega sena acumulada, eu iria receber em certos lugares, que estão bem anotados em minha velha caderneta de papel. Não vou citá-los. São poucos e, os mais chegados, já os sabem.

Querendo atenuar os que retornam, o político e escritor paraibano José Américo de Almeida dissera que: “Ninguém se perde no caminho da volta!”. Alguns dizem ‘retornando ao batente’. Outros usam o exemplo bíblico que diz que ‘o filho sempre retorna a casa do pai’. Não nasci pra ser chamado de ‘mau caráter’ e nem ‘cara de pau’…

Passei uns meses sem escrever. Aposentado tirando férias é até engraçado, principalmente depois que o sociólogo FHC nos chamou de ‘vagabundos’. E o tal, segundo ele mesmo, trabalhou demais pelo nosso país. Só ele e mais ninguém, depois do velho Cabral. No meu caso, eu pedi um tempo ao meu paciente editor para me afastar das besteiras escritas aos domingos, no intuito de tentar organizar minhas quinquilharias e bugigangas, que alguns visitantes chamam de casa, biblioteca e arquivo.

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É uma quase ‘sucata’ ou mesmo ‘’vuco-vuco’, sem vendas. Na verdade, é meu santuário, local aonde até espiritualmente me sinto muito bem. Tentei ajeitar as coisas, nesse tempo, mas não deu ainda. Dizem que reforma e arrumação em casa de pobre não acaba nunca em sua vida. E mesmo depois de morto, ainda tem a venda ligeira da tapera e seus pertences, pelos herdeiros, os quais só pensam em lucros e ganâncias.

FOTOS: Cyntia Lopes – Portal É Típico!

Voltei hoje as minhas velhas histórias chatas de sempre. Escapei ‘fedendo’, da atual desgraceira do Covid. Acho que devido ao abençoado clima rural daqui da Lagoa Papary, de Nísia Floresta. Sou um dos poucos que não tiveram essa praga tão falada da pandemia. Estou vivo e forte para escrever até a memória não desaparecer. Sempre puxo o passado, como as fiadeiras de rendas, gostem ou não.

O genial Nelson Gonçalves, bradou com sua voz inigualável a volta do boêmio, como forma de rever os amigos e os bares do bom passado. Já Lupicínio Rodrigues, aceitou a sua amada de volta, em nome do amor e de sua cara de pau: “… Entre, meu amor, fique a vontade… a casa é sua…”. E o Paulo Vanzolini, acusou a sua ‘volta por cima’, depois de sacudir a poeira, coisa que mesmo assim, eu não voltaria.

Foto: Youtube/Reprodução

A volta tem que ser alegre e abençoada a casa que nos tratou com dignidade e amizade! O povo, com sua sapiência, nos ensina que o rio e o cristal quebrado não voltam a ser como antes… Eu confesso que sou opinioso de família materna e paterna, com certos tipos de rejeições as voltas. Um tio de minha mãe, Antônio, que eu conheci lá em Pendências, passou 50 anos sem sair de casa depois de uma jura ao seu genitor e não voltou a ver a rua calçada e eletrificada. E só saiu morto no caixão preto. Um irmão de meu pai, tio João, bem jovem, depois de escapar com vida de uma surra de minha avó, fugiu de Natal para o Rio de Janeiro. Morreu velho e não voltou a terra em que nasceu. Meu primo materno, Chico de Maneco, saiu de Pendências para morar na vizinha Macau e um dia confirmando a jura de não mais voltar ao seu nascedouro, disse-me: “Primo, depois de minha morte, se minha alma tiver vergonha, ela não volta a Pendências!”.

E eu teria muitos exemplos familiares, inclusive meus, mas deixarei aqui, para finalizar essa delonga, o exemplo da história de dona Inez, casada com seu Manoel, que ao sair de casa nunca mais voltou e deixou um atrevido e realista bilhete, perto do fogão de lenha. Uma sábia desculpa para não voltar ao seu ex amor. História triste de um amor opinioso e sem volta, musicada divinamente pelo genial Adoniran Barbosa: “Pode apagar o fogo Mané, que eu não volto mais…”. Ao que parece, essa dona Inez, era do meu tipo, opiniosa e nada de voltar fácil…

 Para fechar a porteira nesse domingo de maio, eu lembraria que Fernando Pessoa, o grande poeta português, ensinou-nos que apenas o ‘navegar’ é preciso, mas o voltar, nem sempre!

           Maio de 2021. Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

MINHA TIA

Nilo Emerenciano – Arquiteto e escritor.

Tia Dora morou conosco durante longos nove anos. O marido havia saltado fora depois de brigas incontáveis, brigas de verdade em que os pratos e panelas voavam através da cozinha e se espatifavam nas paredes ou na cara de um ou outro. Nenhum deles procurou direitos ou alguma delegacia qualquer para queixas. Resolviam na tapa (ou nas paneladas) suas desavenças.

Sobrou pra nós. Mas com ela lá em casa aprendi um vocabulário novo: cobra caninana, cachorro da moléstia, infeliz das costas ocas, gota serena…

A tia parecia um personagem do realismo fantástico. Via espíritos o tempo inteiro, apesar de ser “católica até torar”, como ela mesma afirmava. Isso não impedia que jogasse no bicho seguindo os palpites que recebia nos sonhos. Só que os seus sonhos precisavam de especial interpretação. – Viram? Sonhei com o caminhão de seu Manoel e acertei camelo na cabeça! – E que tem camelo a ver com caminhão, tia? Eu perguntava intrigado. – Mas não tá na cara? Camelo é o caminhão do deserto, oras!

Os espíritos davam noticia de lá e de cá, acordavam-na na horinha da missa da manhã, avisavam sobre a chegada iminente de alguém. Só nunca conseguiram arranjar um novo marido para ela. Em compensação foram de grande ajuda no jogo de cartas que ela começou a praticar com as moças casadoiras e as senhoras esperançosas do bairro. Em troca, recebia presentes tipo perfumes, cortes de tecido, e às vezes dinheiro que ela procurava esconder de minha mãe que fingia não ver tudo aquilo, tolerante. Eu, por perto, observava curioso aquela atividade. Um dia, escondi o valete de paus que representava o “homem moreno”, sempre presente naquelas consultas. E aguardei. A tia cortou o baralho em cruz e começou a atender uma jovem ansiosa por saber de prováveis namorados. Em vão. A consulente viu passar todo tipo de rapazes: militares, louros, doutores, tudo, menos o moreno. E não se conformou: – E o moreno? Eu gosto é do moreno! Tive pena do aperreio da tia que espalhava as cartas na mesa e sugeri: – Conte o baralho, tia. São 52 cartas, 13 cartas em cada naipe. Depois veja no aparador.  E saí de perto antes da explosão.

Uma vez a tia bolou uma forma mais eficiente de acertar o bicho e convenceu uma nossa vizinha a acompanha-la nessa empreitada. Postaram-se, as duas, em uma esquina próxima de casa, a rezar o terço e recitar alguns esoterismos. A ideia era que à meia-noite, de alguma forma, o bicho seria revelado. O bairro era pacato e naquela hora não havia movimento algum. Eram outros tempos. O que a tia não contava era que Bizuza, um vizinho boêmio, notório mulherengo, fosse aparecer de volta de suas andanças noturnas e, vendo aquelas mulheres na esquina, tentasse arrastar a asa e engrenar um daqueles papos chatos de biriteiro. A meia noite veio e passou, a tia voltou fumaçando: – Melequento da moringa! Cu de cana! Bixiga taboca! Raparigueiro! Botou tudo a perder! No dia seguinte a tia se lamentava, pois havia dado cachorro. – Como deixei passar essa? Tava na cara! Quer maior cachorro do que aquele? E escandia os erres, revoltada: – Cachorrrrro!

Um dia o padre não aguentou mais e proibiu a tia de exercer esses sortilégios sob pena de lhe negar a confissão. – A senhora se decide: ou a comunhão ou essa coisa de catimbó! A tia voltou da igreja acabrunhada. – Esse padre de meia tigela me chamou de catimbozeira. Catimbozeira é a mãe dele, se é que teve uma, oras. Ele pensa que não sei dos podres? Passou uns dias muito triste, pelos cantos, até que a ficha caiu: – Gota serena, porque não pensei antes? É só não contar que ele não vai adivinhar nunquinha…

E voltou aos seus mistérios, às suas vozes, às suas cartas e sonhos.

NATAL/RN

COZINHADO DAS MENINAS

Rosemilton Silva – É jornalista e escritor. Natural de Santa Cruz/RN

Bom dia, meus povo. Tava eu ali no quintal da casa de Mané da Viúva parede e meia com o de Sinhazinha de João de Chana que dá na casa de Edson e bate no muro de Arnaldo Moreira que ouve o batuque da casa de Sebastião Germano e desemboca na esquina de Dona de Chiu.

Vejo Régia e Rejane prepararem um cozinhado de boneca mais Maria José de Sinhazinha, Genialda de Maria do Carmo, Loiça de Raminha para convidarem outras meninas da rua e celebrarem o começo de Natal de Jesus, enquanto Romualdo e Ramon, no outro lado do quintal, cuidavam de arrumarem os seus currais de boi de osso, quando dona Rosa chega me dizendo que minha cumade Maria Gorda tava me chamando lá fora trazendo pela mão Fernando Bocão que estava eufórico porque Everaldo tinha dito que Manoel Bernardino estava armando o carrossel de cavalinhos juntamente com Cirilo e mais uns dois ajudantes que ele não lembrava o nome mas me disse que o tocador não era Zé Galdino e sim João Amâncio com seu fole.

E começa a chegar os meninos e meninas do turno da manhã da escola de Neném Galdino. Alguns com as mãos ainda vermelhas da palmatória. Outros mais sorridentes por terem acertado todas as questões. Nivaldo de Raminha chega com seu caderno de desenho; Tino de João Chicó com sua bola de futebol acompanhado de Wilson de Cabral com seu carrinho de virola de pneu de caminhão que é empurrado por um arame grosso tendo uma volta parecida com um U na ponta. João de Dula com seu carrinho de rolimã; Dudu de Maria Anjo com seu Cadilac de lata montado em cima de molas de flandres e rodas de madeira e todos vêm se juntar ao meu carrinho de lata de leite cheio de areia, furada dos dois com um arame passado e um cordão para puxar.E vamos jogar biloca.

E o cozinhado vem recebendo os convidados e dona Rosa vai se preocupando com tanta gente. As meninas começam a brincar de Academia, de Tica, de Esconde-Esconde, de Ponte da Aliança, pula corda e outras brincadeiras. E dona Rosa me chama pra dizer que eu vá em Prima buscar uns puxa-puxa, passe na padaria de Pitico e compre uns pães doce com coco ralado passado no “espinhaço” porque já comprou pirulito e sonho de noiva além de ter em casa, coisa que Mané da Viúva não deixava faltar: choriço para o lanche de verdade.

Para encerrar a tarde, chega os meninos de Pedro Lucas, Jaelson e Jairo – Joacildo não vem porque ainda não chegou para as férias do Seminário -, com aquela maquininha de cinema que eles inventaram numa caixa de sapato. E haja cantoria: “Atirei o pau no gato to to/ Mas o gato totó…” “Lá na ponte da Aliança/ Todo mundo passa…” “Pirulito que bate, bate/ Pirulito que já bateu…” Enquanto os meninos aproveitam para trocar estampas do sabonete Eucalol retratando a vida dos escoteiros.

E todo mundo feliz da vida com seus brinquedos é chamado para um regabofe montado na mesa da cozinha por dona Rosa. Depois disso tudo, Mané da Viúva arma seu lambe-lambe e bate um retrato.

IMPORTÂNCIA DA ESCOLHA DO NOME

Nadja Lira – Jornalista – Pedagoga – Filósofa

O nome de uma pessoa é o que lhe dá identidade e o que a torna conhecida entre muitos. Além de servir para identificar uma pessoa, o nome também serve para dar personalidade ao ser. Nome, de acordo com os dicionários, é uma denominação. É uma palavra ou expressão que serve para caracterizar ou designar alguém. O nome de uma pessoa é sua digital. É sua marca registrada. E gostar desta marca é muito importante para o desenvolvimento da pessoa.

A identificação das crianças é uma tradição que existe muito antes de Cristo, quando o nome guardava uma característica muito forte das famílias. Nos primeiros livros da Bíblia, por exemplo, pode-se encontrar os mesmos nomes para pessoas ou montanhas. Isto porque os nomes eram escolhidos conforme o fato ocorrido naquele lugar. Em algumas histórias também é possível encontrar figuras que tiveram seus nomes alterados pelo próprio Deus. Cada nome, portanto, tem um significado e vai acompanhar a pessoa até os seus últimos dias de vida.

A Bíblia também relata que Deus modificou o nome de alguns personagens, dando-lhes novos significados de acordo com a missão que eles iriam desempenhar no futuro. Assim, Abrão, passou a se chamar Abraão, Jacó teve seu nome mudado para Israel e Simão para Pedro, por exemplo.

Escolher o nome para um filho tem um significado muito profundo e esta tarefa de dar nome as coisas e as pessoas, coube a Adão e Eva, segundo a Escritura Sagrada. Dar o nome a alguém significa cuidar desse alguém, que lhe foi confiado por Deus. Vem daí a origem de carregarmos nossos nomes de família.

Alguns pais escolhem os nomes dos filhos valendo-se de alguns modismos momentâneos. Desse modo, quando um personagem de novela ou um cantor popular está fazendo muito sucesso, várias crianças vão receber o nome daquele artista. Às vezes, o escrivão do Cartório no qual a criança vai ser registrada, não sabe escrever o nome ditado pelo pai ou pela mãe, e isto vai gerar um problema grande e oneroso para a pessoa resolver no futuro.

Quando eu era criança, meu pai me contava muitas histórias e uma das que mais me agradavam era justamente a que falava sobre a escolha do meu nome. Segundo ele, meu nome foi escolhido quando ele era um adolescente e contava com aproximadamente 16 anos.

Depois que ele aprendeu a ler e se tornou um apaixonado pelos livros, leu uma história cuja personagem principal era uma bruxa residente numa aldeia perdida nos cafundós da África. Esta bruxa fazia muitas maldades, mas tinha um lado que poucos conheciam: Depois de fazer suas bruxarias, ela adorava brincar de boneca e sua boneca preferida se chamava NADJA.

Meu pai achou o nome lindo e disse para ele mesmo, que quando casasse, queria ter uma filha com esse nome. E assim aconteceu. Quando ele começou a namorar com minha mãe, já combinaram que iriam casar e que o nome da primeira filha seria NADJA.

Anos mais tarde, ao ouvir a história que sempre me encheu de orgulho por saber o quanto fui esperada, desejada, planejada e já com o nome escolhido, fui procurar a origem do meu nome. Descobri duas origens: A primeira diz que, NADJA é um nome eslavo e significa esperança. Para os numerólogos eslavos, a pessoa que tem esse nome gosta de estar envolvida em várias coisas ao mesmo tempo. É ágil, curiosa, dinâmica e adora viajar.  

A pesquisa ainda me revelou que NADJA é um nome derivado de NADYA, tem origem árabe e significa terna e delicada. De acordo com a numerologia árabe, NADYA, é uma pessoa romântica, sedutora, alegre, extrovertida, sociável e transmite muita confiança aos que estão ao seu redor. Ela ainda é criativa e comunicativa.

Confesso que reconheço em mim, algumas das características reveladas em ambas as pesquisas. Porém, conservo o orgulho de reproduzir a história da escolha do meu nome, da mesma forma como era contada pelo meu pai. Ele e minha mãe souberam selecionar muito bem o meu nome, que para mim soa forte, valente e vigoroso. Gosto do meu nome e sinto-me uma verdadeira NADJA. 

CIRQUE DE ZANGARELHAS

Valdívia Costa – É jornalista, natural de Jardim do Seridó /RN


A primeira vez que fui ao circo foi dentro de casa, a casa onde nasci no Zangarelhas. Eu era um bichinho do mato. Distante uns três quilômetros da civilização. O circo que vi tinha uma “lona” de lençol de fundo de rede.
Quatro cadeiras separaras estendia a “latada”, que coube eu, minha irmã e minha mãe embaixo. Éramos o público, o respeitável público daquele circo doméstico, embaixo de uma lona amarrada nas pontas pelas vassouras.


O apresentador era um palhaço. Um artista que chegou dizendo “hoje tem palhaçada” e mãe me cutucou pra eu aplaudir. Era um menino muito parecido com meu irmão mais velho, inclusive.
Em seguida a algumas piadas, o palhaço chamou “a cantora”. Imediatamente reconheci minha irmã. Mas, como quem não pode acreditar, olhei pra cadeira onde ela estava ao meu lado e estava vazia.
Eu disse: “Neta!” Mas mãe cochichou baixinho, pegando no meu braço: “faz de conta que você não conhece!”. Eu balancei a cabeça afirmativamente, já morrendo de rir. Achei a apresentação digna do meu pequeno aplauso.
O palhaço nos fez rir boa parte da manhã. O espetáculo me absorveu a tal ponto que, quando acabou, que vi o palhaço tirando o nariz de tampa de garrafa, foi triste.


Vi minha alegria escorregar dentro de mim devagarinho.
E fiquei sozinha, sentada na cadeira, olhando aquele sonho alegre ir se misturando à realidade. Ouvi a voz do palhaço se modificar, vi a batata inglesa ser retirada do graveto-microfone… ainda senti saudades, sem saber o que era, quando a “lona” do circo caiu ao chão, foi dobrada e virou o lençol de dormir da minha mãe. 


Fiquei calada durante o almoço, olhando a sala que há pouco foi um circo. Fiquei frustrada porque isso é natural quando a gente tem um choque de realidade aos cinco anos. Mas queria ver o circo de novo. Quando vi um circo “de verdade”, uns três anos depois, não consegui mais fazer o que minha mãe havia sugerido a 1ª vez: fingir.


Quando nos mudamos para a cidade, o circo aumentou de tamanho, ocupou o quintal quase todo. Por ser uma novidade na rua, o circo sem lona atraiu umas 20 crianças. Todos pagaram pra entrar. A moeda corrente no mundo mágico era de papel de cigarro. 


A criatividade sempre plantou frutos na minha cabeça. Como o coelho que brota da cartola, sem nunca ter entrado nela!

CASAS E CASARÕES DE SÃO JOSÉ DE MIPIBU

Engenho Santo Antônio, localizado no município de São José de Mipibu, fora um engenho de pequeno porte, fundado no período aristocrático da cana-de-açúcar do município. Atualmente, restam no lugar, a Casa Grande, partes do engenhos que serve como estábulo, o antigo armazém e casas de moradores.

POUCAS & BOAS

MUITO BARULHO POR NADA


Valério Mesquita – mesquita.valerio@gmail.com


01) O ex-padre José Luiz, expert em tudo o que opinava, ao trocar a batina pelo terno, teve a idéia, feliz por sinal, de divulgar os onze mandamentos da mulher. De Jerusalém, via Pendências, eis a verve do saudoso Zé Luiz:

1. Mulher não mente, e sim omite os fatos.2. Mulher não fofoca, mas sim troca informações.3. Mulher não trai; se vinga.4. Mulher não fica bêbada; entra em estado de alegria etílica.5. Mulher nunca xinga; apenas é sincera.6. Mulher não grita; testa as cordas vocais.7. Mulher nunca chora; lava as pupilas dos olhos com freqüência.8. Mulher nunca olha para um homem sarado; apenas verifica suas formas anatômicas.9. Mulher não sente preguiça; descansa a beleza.10.    Mulher nunca engana os homens; pratica o que aprendeu com eles.11.    Mulher nunca gasta demais; ela está investindo nela mesma o suado dinheiro do marido.


02) Comemorava-se em Mossoró, o “Dia Internacional da Mulher”. A vereadora Dodoca, única mulher no plenário, nos anos setenta, usava o grande expediente para enaltecer a classe feminina. Em dado momento, a oradora atacou: “Os homens, aos vinte anos são infantis. Aos trinta, egocêntricos e aos quarenta, nostálgicos”. O vereador Antônio Rockfeller, sem pedir aparte, interrompeu: “Vereadora, e qual é a faixa da brochura?”. Também sem pedir aparte, Expedito Bolão complicou ainda mais: “Depende do desempenho da parceira, nobre vereador”. A essa altura, a ética da sessão tinha ido para as cucuias.


03) O cenário é antiga Colônia Penal João Chaves em Natal. Nela, estavam guardados centenas de criminosos bastante conhecidos. Num estabelecimento carcerário desse tamanho um fato menor pode preocupar muito. Assim aconteceu com o então dentista do presídio Gilvan de Carvalho, meu amigo e um dos fundadores do “senadinho”. Havendo atendido os apenados até tarde, o carcereiro da prisão não se deu conta e fechou o portão central, levando as chaves. Gilvan ficou furioso. E mais do que isso: temeroso por passar à noite numa casa de detenção sozinho com tantos criminosos lá dentro. Esbravejando, chamou os funcionários de irresponsáveis e outros em impropérios. De repente, para consolá-lo, surgiu o homicida famoso Joca de Cininha: “Calma doutor Gilvan!! O  senhor está aflito por se encontrar aqui detido por alguns minutos, avalie eu que estou pagando 30 anos de sentença!!”.


04) Hortêncio Ferreira de Lima, vereador emérito do Açu dá nó em pingo d’água. Merecendo confiança, o prefeito mandou chamá-lo para que fosse relator de importante projeto do interesse do executivo. Aceitou a incumbência e relatou favorável à sua aprovação. Mas, no plenário votou contra. Surpresos, os colegas o procuraram para saber a razão. Resposta enigmática de Hortêncio com ar professoral: “Como relator votei a favor, atendendo ao prefeito, mas como vereador votei contra.


05) Açu continua campeoníssimo em matéria de folclore político. A história é do vereador Chico Antão, 70 anos, que estava cansado das reuniões noturnas da câmara. Em plena sessão, Chico dormia ao ponto de puxar ronco. Preocupado com os comentários que ouvira, foi procurar o presidente da câmara. Queixou-se Chico Antão: ” Presidente, essas reuniões de noite não tão dando certo para mim. Tenho 70 anos e quando das 5 horas me vem um sono danado. Não dá para minha filha vir no meu lugar não?  As de dia eu venho!!”. Problema regimentalíssimo.

FIGURAS MIPIBUENSES – Plácida Rodrigues de Lima

Plácida Rodrigues de Lima – Arquivo Lúcia Amaral

Plácida Rodrigues de Lima, atualmente com 102 anos, nasceu no dia 05 de outubro de 1919 em Natal. Filha de Manoel Leandro de Lima e Antonia Rodrigues de Lima. Sua vida escolar iniciou-se na Escola de Josefa Alves (dona Fifinha) – a pioneira da educação escolar no município.

Na década de 30 se matriculou no Grupo Escolar Barão de Mipibu, onde fez o primeiro ano complementar, como era designado os períodos de estudo na época. Posteriormente, mudou-se para a capital do país, o Rio de Janeiro, onde estudou até o primeiro ano comercial, no Colégio Nossa Senhora da Piedade.

Após permanecer por onze anos na Cidade Maravilhosa, retornou à São José de Mipibu e iniciou a sua caminhada profissional. Inicialmente, trabalhou no 1º Cartório da cidade, que pertencia ao senhor Miguel Leandro Filho. Quando o Cartório mudou-se para Natal, Plácida acompanhou o tabelião, permanecendo por vários anos nesse emprego.

Por ser muito zelosa e eficiente, nos trabalhos profissionais, recebeu convite do prefeito Bernardo de Souza Coutinho para trabalhar como Escriturária da prefeitura e no Cartório que, também, pertencia a Bernardo Coutinho, tendo trabalhado, até o ano de 1957.

Pela sua competência, dedicação e responsabilidade com que encarava o seu trabalho, em 1963, foi convidada para trabalhar na Cooperativa Agropecuária de São José de Mipibu, permanecendo nesse emprego até o ano de 1966.

Diante de sua atuação à frente dos cargos que assumiu, houve um tempo em que ela executava serviços burocráticos na Prefeitura Municipal, no Cartório do senhor Coutinho e na Cooperativa Agropecuária. Nesse último emprego, permaneceu até o ano de 1983, quando requereu sua aposentadoria.

Por sua atuação onde exerceu suas atividades profissional, recebeu convite para ingressar na política do município, candidatando-se pelo PSD (Partido Social Democrático), ficando na suplência como vereadora, assumindo as funções por algumas vezes. “Estamos falando do ano de 1955, uma época em que pouco ou quase nenhuma mulher se arriscava a entrar em uma disputa dominada por homens. Foi a primeira mulher do Legislativo mipibuense”, justifica a vereadora Verônica Senra (MDB), em Requerimento de Moção de Aplauso, no ano de 2019, pelo centenário de nascimento.

Moção de Aplauso de autoria da vereadora Verônica Senra à Plácida
Homenagem pelo centenário de dona Plácida,pela Câmara Municipal
de São José de Mipibu – Foto: Daltro Emerenciano

Em 2017 a ex-vereadora foi homenageada pela Assembleia Legislativa, por intermédio da deputada estadual Cristiane Dantas, por ocasião da realização de um evento alusivo ao Dia Internacional da Mulher.

Homenagem pelo Dia Internacional da Mulher, no ano de 2017, pela
deputada estadual Cristiane Dantas – Foto: Daltro Emerenciano

“Atualmente, ainda residindo nesta cidade, é uma pessoa alegre e feliz e nos deixa um legado de brilhantismo profissional – fato raro nos dias de hoje – dígno de exemplo, nos enchendo de orgulho e privilégio por tê-la em nosso convívio. Por tudo que representou e ainda representa, merece o respeito e gratidão de todos quantos ainda privam de sua amizade, bem como de toda comunidade mipibuense pela correção, lisura e uma vida dígna!”, comenta em seu blog ‘Pelas Trilhas da História’, a pesquisadora e professora Lúcia Amaral.

COM INFORMAÇÕES DO BLOG PELAS TRILHAS DA HISTÓRIA, DE LÚCIA AMARAL

DE VOLTA AO PASSADO… (51)

Era o ano de 1988, colegas  de  Bastinho (da Cigarreira) em visita a sua residência, logo após o seu primeiro casamento. Na foto, identificamos algumas pessoas: Nilson, Renniêr, Davi, Didi (filho de Ubirajara), Clodoaldo Barbosa (Escola Conhecer),Janilson Trigueiro (centro), Paulo Mariano, Sidney, Edmilson Cajuá (Bibite), Ramon (filho de Linete), Wellington Martins, Adriana, Chico Pão, Laíse,  Jeane, Luciana e Alexandra (filhas de Batista dos Cocos), Karina, entre outros. Atualmente,algunss desses, são são vovôs e vovós. Lá se vão 33 anos. Saudades…. (Arquivo de Janilson Trigueiro).