VOCÊ JÁ FOI A DUBAI?

Cefas Carvalho – É jornalista e escritor

Você que está lendo esse texto já foi a Dubai? Eu jamais fui. Nenhuma pessoa das minhas relações também nunca foi. Você provavelmente também não. Na verdade, quem já foi à rica e glamorosa cidade dos Emirados Árabes, que prosperou em meio ao deserto?​

Repito aqui em tom evidentemente irônico e provocativo a mesma pergunta que ​ o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em visita ao estado da Paraíba, na última sexta-feira (22),​​ fez em evento no simpático município de Guarabira, cidade com 59 mil habitantes na região do brejo paraibano.

Durante coletiva de imprensa na Câmara de Vereadores, Doria perguntou à plateia ‘quem ​aqui já foi a Dubai​?` para ​ exemplificar ​possíveis ​soluções para a seca no Nordeste, citando o caso da cidade cresce abundantemente em meio ao deserto​ graças aos petrodólares e à pompa dos sheiks.

​​Da multidão que estava na Câmara apenas dois levantaram a mão em concordância, ambos deputados e algo constrangidos. Era muito claro que ali a imensa maioria não havia ido a Dubai. O brejo paraibano vive uma realidade extremamente oposta a de Dubai e os ilustres vereadores e autoridades ali presentes, por mais que tenham juntado dinheiro com trabalho sério ou atos de corrupção, seja o que for, ainda estão muito longe de ir para um destino luxuoso do outro lado do Mundo.

Parte da imprensa levantou números. O salário médio de um vereador em Guarabira é 14 mil reais, quantia inclusive muito alta para o padrão brasileiro, quase 10 vezes o salário mínimo. Por sua vez, uma passagem do Brasil para Dubai custa 25 mil reais. Fora hospedagem, alimentação e diversão.

​A pergunta (ou ato falho) de Dória, milionário e com eternos ares de playboy à moda antiga, não surpreende. A elite brasileira vive mergulhada em uma bolha na qual não consegue distinguir ou perceber desigualdades sociais. Não é a toa que quando prefeito de São Paulo, o tucano propôs uma ´ração humana​` para pobres e pessoas em situação de rua. Ou que tenha ordenado jogar água fria em sem teto em noites de inverno. Para parte da elite, pobres sequer são seres humanos.

Essa cegueira em relação à desajustes sociais e particularidades geográficas ou socioeconômicas faz Dória, a exemplo de tantos outros, viver mentalmente na sua bolha que se divide entre os Jardins, ambientes chiques de Brasília e Miami. Para Dória, se estava cercado de homens brancos com cara que têm dinheiro, obviamente estava entre pessoas ´civilizadas` e que tem plenas condições de terem conhecido não apenas Dubai, mas Nova Iorque, Paris, Tóquio, ilhas gregas.

Por falar em capitais europeias e elite, a dinâmica mental de Dória me lembrou em episódio que vivi há vinte anos, começando a vida de jornalista ainda, quando trabalhava no Pódium, suplemento de coluna social do Diário de Natal. Juntamente com o colega repórter e ainda amigo Wagner Vasconcelos e o fotógrafo Wanderley Adams fui pautado para fazer entrevista com uma socialite, à época ´locomotiva` da vida social natalense.

Bela e simpática, nos recebeu muito bem em sua casa, digo, mansão, e respondeu de forma agradável às perguntas que fazíamos sobre vida escolar e profissional, casamento e filhos. Até que chegou à pergunta sobre viagem preferida. “Tem tantas viagens, mas acho que o lugar que mais gostei foi Roma”, respondeu. De repente nos olhou fixo nos olhos e perguntou: “Vocês já foram a Roma, não é?” À época a preocupação maior dos três era ter dinheiro para pagar os boletos, claro, e pegar uma praia em Ponta Negra, no domingo, com as respectivas patroas. De maneiras que olhamos arregalados para ela e em uníssono respondemos que não. “Como assim vocês não foram a Roma???”, indignou-se a dondoca com as mãos já na cintura.

Á época foi um choque e a história rendeu boas risadas depois. Mas, olhando hoje, a reação da jovem senhora não surpreende. Para a elite natalense, que a rigor é igual à elite paulistana, carioca, mineira, pernambucana, etc, ir a Roma – ou a Dubai – é uma ação simples, algo corriqueiro. Essas pessoas não conseguem olhar para quem está na frente delas e perceber que, ainda que por alguma razão (profissional, circunstancial, por mero acaso) elas estejam ali no universo delas, não fazem parte do mundo socioeconômico delas.

Uma vez um amigo jornalista que trabalhou como assessor em Brasília, tendo acesso ao mundo dos endinheirados e poderosos, disse que “para quem é realmente rico, não existe classe média nem trabalhadores. Só existem eles próprios e quem os serve, ou seja, pobres, invisíveis em essência”. E entenda-se que sequer disserto sobre isso tratando de juízos de valor de caráter ou personalidade. Como a família rica de “Parasita”, o premiado filme de Bong Joon-Ho, que não é necessariamente má ou cruel, pelo contrário, mas, carrega em si a miopia de não conseguir olhar para o outro de outra classe econômica e social em seus problemas e em sua individualidade.

Daí para Dória ser natural que não-pobres (ou seja, não humanos, invisíveis) tenham condições de ir a Dubai como quem vai a João Pessoa, e para a simpática socialite da história que vivi, pessoas que não estivessem inclusas nos serviçais dela ou pessoas pobres (que ela só devia conhecer de filmes e matérias de tv) eram pessoas que tinham condições de ir tranquilamente a Roma, ainda que jornalistas em começo de carreira.

É a elite que temos, o que explica muito porque estamos como país na situação atual. Dória pergunta se o pessoal no evento tinha ido a Dubai. Nós todos nos perguntamos se vamos conseguir comprar um bujão de gás de cozinha a 100 reais e encher o tanque do carro com a gasolina a 7 reais.

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