Você imaginou? Vai encontrar no meu Alecrim…

               

Gutenberg Costa – Escritor, pesquisador e folclorista.

Todo mundo está cansado de saber de duas coisas a meu respeito: que eu nasci no bairro do Alecrim e torço desde que abri os olhos pelo Alecrim Futebol Clube. Saí do meu Alecrim, mas o meu bairro não saiu de mim. Está agarrado feito corda de caranguejo de feira. Sempre que posso estou revendo sua feira, seu mercado, seus bares, amigos e amigas de infância. A casa de minha mãe, a qual abrigou-me por décadas, ainda está lá na rua da feira. Já escrevi muito sobre o bairro e tenho um projeto para o futuro, se aparecer um mínimo de patrocínio, um livrinho: Alecrim de A a Z.

O meu bairro, aonde fui batizado, fiz primeira comunhão na Igreja de São Pedro e participei de grupo de jovens católicos da Igreja de São Sebastião (Anfreozan). Brinquei carnaval como criança papangu e depois bloco de Elite (Magnatas), como jovem aos 18 anos. Fiz amizades e assisti filmes nos finados cinemas São Luiz, São Sebastião e Old. Não vou mentir e dizer que entrei no também finado São Pedro. Lembro de sua fachada. Estudei as primeiras cartilhas em sua divisa, com o Barro Vermelho, (Grupo Escolar Professor Clementino Câmara). Meus dois primeiros empregos ditos oficiais foram na casa/bar Beco da Música, do Chico Elion e no escritório de contabilidade do contador Sebastião Penha, no luxuoso e moderno seu ‘centro comercial’. Os dois patrões e amigos, mesmo encantados, sempre recebem minha eterna gratidão quando os recordo. Tinha catorze anos e ‘alergia’ a liseu!

Cine São Luiz – Foto Grevi – Arquivo: Substantivo Plural

Comprei meus primeiros folhetos em cordel, na velha casa do casal, seu Antônio Emídio e dona Maria Amélia. Uma casinha abaixo do nível da rua Coronel Estevam, 325. Seu Emídio partiria em 1976 e a dona Amélia em 1984. Ali, também, comprei minhas primeiras revistas e meus vinis usados, na famosa calçada do antigo Cinema São Luiz. Lembro até de um vendedor de raridades em revistinhas em quadrinhos, o seu Milton e a cigarreira do tio do amigo sebista Jácio Torres. Como esquecer o primeiro churrasquinho da região, de seu Macaíba, o qual não usava espetos e sim porções com farinha seca enroladas em papel manteiga. Sua banca de carne assada ficava em frente ao Banco do Brasil. Não esqueço seu primeiro vendedor de caldo de cana e cachorro quente com pão francês e suco de maracujá. O Rei do Abacate ficava 24 horas esperando para matar a nossa fome noturna. Os primeiros shows e comícios políticos, em sua plataforma no velho bar Quitandinha, da antiga Praça Gentil Ferreira. Os primeiros bares, bodegas e mercearias, que eu lembrei em livro em 2019.

Até cabarés o Alecrim tinha, como o ‘Chão de Estrelas’, o qual ficava em cima de uma padaria, na descida da rua Amaro Barreto. Tinha a Vila Moura, cheia de mulheres e soldados da Marinha. Farras e músicas nas radiolas. Cresci como um menino curioso, anotando sempre tudo e, diga-se, muito invejoso das duas primeiras bibliotecas vistas, nas casas do escritor Rômulo Wanderley e Leonardo Bezerra, bem próximas a minha casa. A primeira discoteca invejada, eu vi na casa do amigo e ex patrão Chico Elion. Até pedi perdão ao velho padre polonês Martinho Stenzel, mas confesso que continuo invejoso de quem tem livros e discos. Do resto, nada!

Vendedor de fumo de rolo

Ainda sinto o cheiro de seus cafés ‘Vencedores’ e ‘Dois Amigos’. Do picado fervendo na feira, dos gritos dos ambulantes. Dos saudosos doidos que passavam em minha porta. Santos e santas que estão no céu! Dos tipos populares que os meninos não deixavam em paz, inclusive eu, escondido de dona Estela: Maria Sai da Lata, Corisco, Cuíca, Lambretinha, Velocidade e o preto Caju. O Caju respondia furioso a pergunta provocativa: Caju, cadê a castanha? As santas mães eram quem pagavam o pato! Quando o amigo cineasta Paulo Laguardia foi filmar o seu belíssimo documentário sobre o Alecrim, chamou-me para dar um depoimento. Escolhi o seu mercado das Avenidas 6 com a 4, como cenário. Mas, sou do tempo do velho mercado nas proximidades da praça Gentil Ferreira. Nem quero falar que a modernidade, aliada ao tal progresso, cometeu inúmeros assassinatos aos prédios do meu tempo de infância, inclusive o meu citado Grupo Escolar.

Feira do Alecrim – Foto: Natal das Antigas

A sua história já foi contada em livro, pelo saudoso amigo, professor e escritor Evaldo de Carvalho, em 2004. A Avenida 10 ficou famosa na música de Babal Galvão, a qual é cantada pelo grande Geraldo Azevedo. Nos antigos carnavais, eu percorria fantasiado e escondido de minha preocupada mãe, da Avenida 1 a Avenida 12. Eu era o apaixonado Arlequim, vibrando de alegria com os saudosos Reis Momos Severino Galvão e Paulo Maux. Sempre torcia por duas escolas de sambas, Asa Branca de seu Guedes e Imperadores do Samba, do amigo Rubens Pessoa. A minha tribo de índios do carnaval era a Guarany, do mestre Bumbum, da Avenida 7.

Canindé Soares | Fotojornalismo – Natal – RN – Brasil

Apesar da atual zoada e aglomeração, adoro voltar ao seu comércio e relembrar o antigo que ainda está na minha memória. Fico apontando, como os doidos de antigamente: ali era o Atraente, Odelson Calçados, Girafa Tecidos, a qual colocava uma girafa boneca na sua calçada e um pastorador para os meninos não arrancarem o seu rabo nas carreiras.

Centro comercial do Alecrim anos 60 Foto: Capa e contracapa

Morei na Avenida 1 e depois na Avenida 7. Com o tempo fui para a Cidade Satélite e Nova Parnamirim. Parei agora definitivamente em Nísia Floresta. O meu Alecrim com ruas de areia, postes de madeira, currais de gado, sítios frondosos de mangueiras, como o do doutor Choque. Haviam inúmeros vendedores de cuscuz e munguzás nas portas. O negro de vozeirão, seu Cambraia, vendendo jornais. Coisas boas que só existe em poucas recordações.

Gutenberg Costa: “Adoro voltar ao Alecrim e relembrar o antigo que ainda está na minha memória” – Foto: Cedida

Quase nada em fotografias foram deixadas pelos fotógrafos. Na praça Gentil Ferreira, os tipos ‘Lambe-lambe’ atendiam aos apressados e Jorge Mário, aos ditos ricos. As farmácias de seu Celso Dutra e de seu Sebastião Coelho, socorriam as mães com suas crianças doentes. A famosa hospedaria Caiana, era referência para meu embarque nos mistos com ida a Pendências. Quase um dia de viagem passando pela velha ponte de ferro de Igapó. Parte da infância eu até achava que era rico, pois meu pai era dono de uma velha ‘Bicuda’, antigo ônibus, o qual fazia a linha Rocas, Ribeira, Cidade Alta, Alecrim e Quintas, com parada final no Bom Pastor. Viajante de graça e conversando com os mais velhos, para ouvir suas histórias. O bairro era uma paz, só tínhamos medo do perigoso negro ‘Pé Seco’. O Baracho do tempo de meu pai e seu carro de praça já havia partido e virado até santo.

Praça Gentil Ferreira – Foto: Brechando

As diversões em festas aconteciam nos Clubes Caçadores, Atlântico e Alecrim. Sem dinheiro, não entrava pulando o muro do Atlântico, com medo de ser colocado de volta, jogado pelos fundos das calças pelo negro e forte ‘’Bernardão”. Já o clube Alecrim era bom, só não gostava de seu maldoso apelido ‘Coice da burra’. A Rádio Trairi veio para o Alecrim, embora por poucos anos. Nessa, sempre cabido, travei conhecimento com Ajosenildo Alves, Assis de Paula, entre outros. Curioso e cabido eu ia costumeiramente ouvir músicas e ver as personalidades famosas ali entrevistadas.

Hoje, tudo que imagino comprar volto ao meu querido e amado bairro. Sempre com minha paciência, acho de tudo, para a minha alegria. Aliás, como sempre costumo dizer as antigas e sinceras amizades, no meu velho Alecrim, com seus 110 anos, completados, agora dia 23 de outubro de 2021, eu ainda não encontrei duas coisas: freio para gato andarilho e laço para prender cobra teimosa.

Performance do vendedor de pomada. Observa-se a cobra em volta de seu pescoço e a “boca de ferro”

E por falar na tal cobra, ainda dou risadas, lembrando o esperto vendedor de pomadas milagrosas, em frente à minha casa da feira, o qual nos mostrava a cobra numa caixa e o tijuassu em outra, para uma falsa briga dos tempos de boas e engraçadas mentiras …

Saudades do meu eterno Alecrim!

                             Morada São Saruê, Nísia Floresta/RN.

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